quarta-feira

A TORROAES DA RUA DA PRATA

Fundada em 1909, no número 123 da Rua da Prata, a Ourivesaria e Relojoaria Torroaes era a obra sonhada de António de Sousa Torroaes. Aos 33 anos de idade, aventurou-se sozinho no ramo. Formado na prática do ofício, trabalhara desde os 13 em relojoaria, fazendo aprendizagem durante quase duas décadas na prestigiada Casa Angulo (da família Angulo e também na Rua da Prata). 

Em 1921, já com o negócio em expansão, instalou no número 119 uma oficina independente de relojoaria e criou secções independentes de ourivesaria e de pratas. António de Sousa Torroaes não chegou a assistir ao apogeu da empresa: morreu em 1928, deixando a casa ao filho, Raul de Sousa Torroaes.

Sob a direcção deste, a firma continuou a expandir-se. Em 1930, a oficina foi transferida para novas dependências no mesmo edifício e em 1936 fixou-se definitivamente no terceiro andar do número 133 da Rua da Prata. Três anos mais tarde (1939) foram inauguradas novas instalações comerciais dos números 127 a 131, que, juntamente com o 123, formavam um vasto conjunto dedicado à relojoaria, ourivesaria, pratas e joalharia. 

A fachada, de três característicos (inicialmente, eram cinco) letreiros vermelhos, arqueados, em bandeira de porta, com as palavras «Relojoaria», «Torroaes» e «Ourivesaria», transformou-se numa das imagens mais reconhecíveis da Rua da Prata. A casa era frequentemente incluída no chamado 'Livro de Our do Comércio' como uma das mais prestigiadas relojoarias portuguesas. À semelhança de algumas (poucas) congéneres, comecializava marca própria de relógios, a Torris Watch.

A 17 de Dezembro de 1976 foi constituída a sociedade Relojoaria e Ourivesaria Torroaes, Lda. ('Diário da República'), ainda instalada na mesma morada. A data do encerramento nunca foi oficializada. Fechou portas no final da década de 1980, mantendo a indicação de que reabriria, até ser declarada falência da firma, no princípio dos anos 90. Durante muito tempo, já sem actividade, a antiga fachada permaneceu abandonada e degradada, conservando ainda os seus antigos letreiros vermelhos sobre as portas, sobreviventes como um dos últimos vestígios da velha Baixa comercial. Oedifício acabou por ser ‘recuperado’, desaparecendo também essa memória. Durante quase um século, a Torreaes foi uma das mais importantes casas de relojoaria e ourivesaria de Lisboa.

O primo do fundador, Fernando de Sousa Torroaes, abriu em 1918 (com Felizardo Augusto Abranches) a Ourivesaria e Relojoaria F. de Sousa Torroaes, na Rua de São Paulo número 106 (firma Sousa & Abranches, Lda.). Também esta última acabou abandonada, com a fachada em ruínas durante anos, perante a indiferença de quem passava.


Marina Tavares Dias 



A Ourivesaria e Relojoaria Torroaes
em 1945

Pormenor da fachada,
fotografada por mim
em 1994


Dois anúncios da marca de
relógios exclusiva da casa,
Torris Watch


A Montra da Rua da Prata,
num dos concursos de montras
de Lisboa (fotografia 
de Mário Novaes)

A Sousa Torroaes da Rua de S. Paulo
(fotografia hoje pertencente
ao arquivo da Ourivesaria 
Sarmento)




segunda-feira

'OS INADAPTADOS' EM LISBOA

Apontada numa agenda anónima de 1962, a estreia de «Os Inadaptados» em Lisboa surge despida de toda a aura que o filme viria a adquirir. No dia 25 de Janeiro desse ano, o filme de John Huston estreava no Cinema São Jorge, apresentado pela publicidade como «a mais famosa estreia do ano» e explorando o fascínio que rodeava Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift. Hoje, é considerado uma das obras maiores do cinema americano, o último filme completo de Gable, o mais doloroso retrato de Marilyn Monroe e uma elegia ao desaparecimento de um certo Oeste e de uma certa América. Mas nada disso transparece na pequena nota manuscrita deixada por um espectador lisboeta que assistiu à estreia.

A anotação é lapidar: «Fomos ao S. Jorge ver “Os Inadaptados” – Muito lento, maçador e sem interesse. Mal interpretado. Tempo e dinheiro gastos. Comprei o livro do 'Breakfast at Tiffany's' e estou a ver se consigo ir ver o filme.» Em poucas palavras, desfaz-se toda a mitologia posterior. Para este espectador, o filme não era uma obra-prima incompreendida, nem um drama existencial sobre personagens perdidas no deserto do Nevada. Era apenas uma sessão falhada. A referência imediata a «Boneca de Luxo», então em exibição no Cinema Império, é igualmente reveladora: perante a melancolia desencantada de «Os Inadaptados», o público acharia mais atraente a elegância urbana de Audrey Hepburn e o universo sofisticado criado por Truman Capote.

A distância entre esta reacção e a reputação actual do filme não podia ser maior. Com o passar das décadas, «Os Inadaptados» foi sendo redescoberto por sucessivas gerações de críticos e historiadores do cinema. Hoje é citado em ensaios, retrospectivas e cursos universitários como uma obra-charneira, situada entre o sistema clássico de Hollywood e o cinema moderno que emergia nos anos sessenta. A reunião de Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift e Eli Wallach, todos eles intérpretes marcados por crises pessoais e profissionais, acabou por conferir ao filme uma dimensão quase documental. O espectador contemporâneo não vê apenas personagens ficcionais; vê também os actores, as suas fragilidades, os seus fantasmas e, em dois casos, o aproximar do fim. O que em 1962  parecia 'falta de acção' é hoje visto como introspecção, desencanto e maturidade.

Nada disto era evidente em Lisboa, na semana da estreia. A leitura dos jornais desses dias é particularmente elucidativa. As páginas dedicam-se  a temas que monopolizavam a atenção pública: o regresso dos últimos portugueses de Goa após a anexação do território pela União Indiana, os debates nas Nações Unidas sobre a situação em Angola, as perspectivas de instalação de infra-estruturas nucleares em Portugal, o inverno rigoroso que afectava o país, as distinções atribuídas a Amélia Rey Colaço, os campeonatos de bilhar e os jogos da Taça de Portugal. Neste contexto, a chegada de um drama americano sobre pessoas desencontradas no deserto do Nevada dificilmente poderia ocupar lugar.

É igualmente significativo que praticamente se não encontrem críticas portuguesas de relevo sobre o filme, nos dias imediatos à estreia. Se existiram, passaram despercebidas. E talvez isso não se deva apenas à concorrência da actualidade. A crítica portuguesa da época encontrava-se perante um objecto difícil de classificar. «Os Inadaptados» não era um western convencional, embora utilizasse elementos do género. Não era um melodrama romântico, não era um filme de aventuras, nem uma comédia, nem sequer um drama clássico no sentido tradicional. O argumento de Arthur Miller recusava soluções fáceis e centrava-se em personagens emocionalmente derrotadas, incapazes de encontrar o seu lugar num mundo em transformação.

Para muitos espectadores habituados ao cinema americano dos anos quarenta e cinquenta, aquilo era desconcertante. Clark Gable, o eterno herói seguro de si, surgia envelhecido e vulnerável. Marilyn Monroe abandonava a imagem da loura divertida para interpretar uma mulher frágil, insegura e frequentemente infeliz. Montgomery Clift parecia transportar para o ecrã o sofrimento que marcara a sua vida após o acidente de automóvel que o desfigurara. Em vez de heróis triunfantes, o filme oferecia figuras cansadas, perdidas e incapazes de se adaptar aos novos tempos. Talvez por isso o título português acabasse por ser mais certeiro do que parecia.

Hoje, «Os Inadaptados» tornou-se referência da história do cinema. Visto em Janeiro de 1962, pera um 'filme lento', estranho e desolador, protagonizado por estrelas que não correspondiam à imagem que o público guardava delas. É precisamente essa distância entre a recepção contemporânea e a consagração posterior que torna tão valiosa esta pequena nota de agenda. Recorda-nos que os clássicos nem sempre nascem clássicos. Por vezes, estreiam discretamente, confundem os espectadores, deixam os críticos sem palavras e passam quase despercebidos no meio das notícias do dia. Só mais tarde a História os resgata.


Marina Tavares Dias







sábado

CAFÉ CHAVE D'OURO

O Chave d’Ouro, no Rossio (1916-1959), ocupava um prédio inteiro, incluindo zonas de restaurante, salão de chá, tabacaria, barbearia e bilhares. Inicialmente aproveitando fachada e interior de uma antiga loja de ferragens, crescera aos poucos durante três décadas, até rivalizar com o próprio Martinho (do Largo D. João da Câmara) em conforto e clientela. Todas as gerações literárias, todas as conspirações políticas, todas as ambições pessoais passavam, nesta época, pelos cafés da Baixa.

Fotografias em «Os Cafés de Lisboa» de Marina Tavares Dias









sexta-feira

A FEIRA POPULAR POR MARINA TAVARES DIAS

A mesa de tampo amarelo e uma rifa da Feira Popular de Lisboa servem de ponto de partida para uma evocação pessoal da Feira Popular e da própria memória de Lisboa. No nono tomo do título, publicado em 2007, a autora recorda como essa mesa desmontável a acompanhou ao longo da vida e se tornou “a mesa da paginação” de todos os volumes de Lisboa Desaparecida, simbolizando a ligação entre o trabalho de escrita e a infância passada naquele universo de luzes, carrosséis, rifas, farturas e comboios-fantasma.

A Feira Popular abriu em Palhavã a 10 de Junho de 1943, por iniciativa do jornalista João Pereira da Rosa e do jornal O Século, com o objectivo de financiar a Colónia Balnear Infantil d’O Século. Instalou-se nos terrenos da antiga Quinta de Santa Gertrudes, onde antes existira o Jardim Zoológico, e rapidamente se tornou um espaço de entretenimento popular e moderno numa Lisboa marcada pela guerra e pelas dificuldades económicas. Em 1957, a Feira encerrou em Palhavã para dar lugar ao projecto da Fundação Calouste Gulbenkian, sendo transferida para Entre-Campos, onde reabriu em 1961 com novos divertimentos e maior dimensão.

Durante décadas, a Feira Popular foi dos principais espaços de lazer dos lisboetas, atravessando gerações e adaptando-se às mudanças da cidade. O encerramento definitivo ocorreu em 2003, num contexto polémico, deixando no lugar das diversões apenas demolições, pó e, claro, especulação dos solos. O texto termina como homenagem sentimental a esse espaço desaparecido e à felicidade infantil que nele se viveu.










quinta-feira

«CHATEAR O CAMÕES»

Colocada entre a cidade tradicionalmente mais cosmopolita (o Chiado) e a o seu contrapeso popular (o Bairro Alto), a Praça Luís de Camões veio ocupar uma zona outrora povoada pelos restos do Palácio Marialva, vulgarmente chamados «Casebres do Loreto». Destas ruínas se podem hoje ver alguns vestígios, em fotografias tomadas quando da construção do parque de estacionamento que agora ocupa o subsolo do largo. Ora como zona «fronteiriça» da boémia, acontecia muitas vezes irem os janotas da Casa Havaneza para ali conversar, dando mais ou menos de caras com os bêbados oriundos das tascas do Bairro Alto. Parece que havia muita gente a candidatar-se a interlocutor de Camões que, lá do alto, permanecia imune a todas as provocações. O que não evita que ainda hoje se diga, quando queremos que alguém se cale: «Vai chatear o Camões!» Ou seja, vai falar em voz alta à estátua do dito. O mesmo que «falar para o boneco», está de ver.


Marina Tavares Dias

em «Lisboa Misteriosa»

(Continua no livro)












segunda-feira

Santo António dos Capuchos

No topo da colina de Santana, o Hospital de Santo António dos Capuchos nasceu já no século XIX, sobre o antigo convento. A transformação começou com o Asilo da Mendicidade de 1836, criado por D. Maria II, evoluindo gradualmente para estas funções hospitalares.

Como unidade de saúde, foi em 1928 integrado no grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Antes disso, tinha funções assistenciais mistas: asilo, recolhimento, enfermarias para pobres, apoio social, etc. Em suma, um modelo muito oitocentista. A origem improvisada e adaptativa explicará, talvez, as críticas de muitos médicos: o conjunto nunca foi pensado de raiz como hospital moderno. Foi sendo adaptado: antigas celas tornadas gabinetes; corredores conventuais convertidos em circulação hospitalar; claustros fechados; enfermarias encaixadas em estruturas antigas; problemas permanentes de ventilação, acessos e infraestruturas técnicas.

Para a medicina contemporânea, com blocos operatórios, imagiologia pesada, circuitos estéreis, evacuação rápida, UTIs modernas, tudo é extremamente difícil de adaptar. Quem o critica vê-o como conjunto “romântico mas impraticável”.

Arquitectonicamente, em atmosfera, é dos sítios mais extraordinários de Lisboa. Tem algo que quase desapareceu na cidade: a sensação de continuidade histórica real. Caminha-se aqui entre camadas de convento franciscano, hospital oitocentista, azulejos barrocos, enfermarias republicanas e corredores do Estado Novo, tudo ao mesmo tempo.

Muitos hospitais modernos serão mais eficientes. Mas não têm esta densidade humana e histórica. Em Roma, Nápoles, Sevilha há locais com a mesma tensão entre património e funcionalidade. Os Capuchos pertencem a essa vasta família europeia. Com a actual tendência portuguesa para destruição dos locais com história, teme-se o pior para o seu futuro.













quarta-feira

O NAMORO EM LISBOA

[...] Nos prédios de rendimento populariza-se então o namoro “de estaca” ou “de gargarejo”. Olhar cravado numa janela de terceiro andar, o pretendente coca durante horas a sua fonte de inspiração. Depara-se-lhe frequentemente, em vez dela, algum parente irado que se põe gritar despautérios, perante o gáudio de toda a vizinhança. A mor parte das vezes lá assoma a menina, discretamente atrás da cortina, e assim ficam tempos esquecidos, trocando muitos gestos e alguns gritinhos. 

Há quem se faça valer duma espécie de telefone de cartão e fio encerado, descendo-o até à rua, para melhor captar as adoradas frases do marmanjo. Ou prendem-se cartas de amor à ponta de um cordel que a menina pendura lá do alto. E tudo isto sob a chacota de quem passa: guarda municipal, cocheiros de tipóia, galegos aguadeiros, padres de sotaina ou meretrizes cobertas de carmim. Cada namoro de janela é assunto dum bairro inteiro, fazendo as delícias da vizinhança alcoviteira.






CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...