sábado

CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre durante a noite. Enquanto a cidade dormia, equipas de pintores e montadores substituíam o enorme cartaz da fachada por outro, preparado para a estreia do dia seguinte. As telas, com cerca de dez ou onze metros de largura, eram içadas, esticadas sobre armações metálicas e fixadas em poucas horas. Ao nascer do dia, quem passava encontrava um cinema completamente transformado.

Antes disso, havia muitas horas de trabalho invisível. As distribuidoras forneciam fotografias promocionais dos actores, que eram cobertas com uma quadrícula que permitia ampliar rigorosamente o desenho. Nos ateliers, quadrícula idêntica era traçada sobre a tela gigante, e os pintores reproduziam, quadrado a quadrado, os rostos de Marilyn Monroe, Jane Wyman, Yves Montand ou Charlton Heston. Terminada a pintura, a lona seguia para o cinema, com ferros e cordas, onde era montada durante a noite.

Recordo bem esse ritual. Da janela de casa, em frente ao Cinema Roxy, acompanhei durante horas a substituição dos cartazes. Via a velha tela descer, as cordas presas, os homens sobre a estrutura metálica, a nova pintura a subir lentamente e, por fim, a fachada com uma vida completamente diferente. Na manhã seguinte, Lisboa acordava para o novo filme. Foi assim crescer na Avenida Almirante Reis nos anos 70.


Marina Tavares Dias 















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