Agosto era o mês em que Lisboa inteira parecia pôr-se a caminho de Belas (Bellas). Os lisboetas abandonavam por um dia os ofícios, as lojas, as oficinas e as casas. Carregavam cestos, garrafões, crianças e partiam para a romaria. Era o Senhor da Serra, celebrado na grande Quinta do Marquês ou Paço dos Marqueses de Belas.
Fazia-se o caminho a pé, em carroças ou charabãs. No final do século XIX, a maioria seguia já de comboio até Queluz, e daí continuava de carruagem. Esta enorme quinta é muito anterior à romaria. Documentação do início do século XIV diz que esteve ligada à família de Diogo Lopes Pacheco (um dos fidalgos envolvidos na morte de D. Inês de Castro). Passou depois para posse da Coroa e por sucessivas famílias, até ficar associada aos futuros marqueses. Ao longo de séculos, o velho paço foi transformado em propriedade de recreio com jardins, mata, alamedas, fontes, tanques, pomares e construções religiosas. A Capela do Senhor da Serra e a sua Via-Sacra são de 1740.
Em 1795, Joaquim José de Barros Laborão ergueu um grande obelisco comemorativo da estadia dos príncipes D. João e D. Carlota Joaquina. Ainda lá está, agora por baixo do viaduto da CREL. É o mesmo monumento em torno do qual, mais de cem anos depois, vários fotógrafos registaram romeiros a merendar. Em 1799, Domingos Caldas Barbosa, na ‘Descripção da Grandiosa Quinta dos Senhores de Bellas’, descreve já uma propriedade acessível a todos os visitantes. A grande peregrinação popular celebrizou-se após as epidemias da década de 1850, Já era considerada tradicional em 1896. Em Agosto, toda a imprensa lisboeta anunciava: «Ha hoje romaria para Atalaya e Senhor da Serra em Bellas», acrescentando que mais de oitenta empregados e fregueses da Sapataria Lisbonense, da Rua Augusta, seguiam para a festa. Dois anos depois, a 10 de Setembro de 1898, ‘O Occidente’ chama ao Senhor da Serra “a romaria mais notável da região”, com bailes, chinquilho, concursos e barracas de comes-e-bebes.
O jornal ‘Brasil-Portugal’ (1899) entra verdadeiramente na festa. Escrito durante a crise da peste bubónica do Porto, declarada nesse Verão e combatida pelas autoridades sanitárias dirigidas por Ricardo Jorge, o texto conta que, apesar de o círio ter nascido por ocasião da outra epidemia, a festa já se celebrava muito antes. Em 1899, «paes, filhos, mães, avós, amantes, netas, familias inteiras, tribus completas» tomam o caminho-de-ferro, «que em meia hora os põe em Queluz».
Levam vinho e merenda monumental: carneiro, leitão, cabrito, arroz, fruta. À sombra de árvores seculares, nas encostas da quinta, comem, bebem, cantam e dançam ao som dos harmónios e das gaitas de foles. O cronista resume: para que haviam de pensar naquele dia nas suas lojas e oficinas? «A verdadeira officina, a verdadeira loja, a verdadeira fabrica, é esta. Aqui respira-se, come-se, bebe-se, dança-se, ama-se, goza-se.»
Depois da merenda, começa a subida. A capela fica bem acima do local das festas, alcançada por um caminho íngreme. É, escreve o jornalista, «tão santa como pequenina e tão pequenina que até parece impossível caber lá um Senhor de tanto poder». Atribuem-se-lhe milagres: dar vista aos cegos, fazer andar os coxos e conseguir casar todos os namorados. Dentro da capela reza-se, deixam-se esmolas e compram-se medalhas e pagelas que muitos colocam na aba do chapéu, ao modo oitocentista.
Há na quinta uma rocha ainda mais antiga que a capela: chamam-lhe Pedra Alta e é monumento megalítico. O ritual manda trepá-lo e escorregar: é um costume relacionado com ritos de fertilidade. No século XXI, a pedra ainda está polida por tantas descidas. João de Barros aventou a hipótese de ali ter sido sepultado Viriato.
Voltemos a 1899. Terminadas as orações, a multidão desce novamente para Belas. «A pé, em jericos, em char-à-bancs, em carroças», rindo e cantando. No largo recomeçam os bailes, os jogos, as comidas e o vinho. A reportagem termina como comédia. Uma cigana a dançar torna-se «rainha da romaria», recebe galanteios de todos os lados e acaba por provocar ciúmes, insultos e enorme zaragata entre os admiradores.
Joshua Benoliel fotografou a romaria para a ‘Illustração Portugueza’ (2 de Setembro de 1907). Vemos a Pedra Alta cheia de homens, mulheres e crianças; romeiros, carroças e grupos espalhados. Mais uma vez, cestos abertos, garrafões no chão e famílias debaixo das árvores mostram a velha quinta aristocrática entregue, pelo menos por um dia, a todo o povo de Lisboa. Assim foi todos os anos, em Agosto, até 1940.
Marina Tavares Dias
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