O Chave d’Ouro, no Rossio (1916-1959), ocupava um prédio inteiro, incluindo zonas de restaurante, salão de chá, tabacaria, barbearia e bilhares. Inicialmente aproveitando fachada e interior de uma antiga loja de ferragens, crescera aos poucos durante três décadas, até rivalizar com o próprio Martinho (do Largo D. João da Câmara) em conforto e clientela. Todas as gerações literárias, todas as conspirações políticas, todas as ambições pessoais passavam, nesta época, pelos cafés da Baixa.
Fotografias em «Os Cafés de Lisboa» de Marina Tavares Diassábado
sexta-feira
A FEIRA POPULAR POR MARINA TAVARES DIAS
A mesa de tampo amarelo e uma rifa da Feira Popular de Lisboa servem de ponto de partida para uma evocação pessoal da Feira Popular e da própria memória de Lisboa. No nono tomo do título, publicado em 2007, a autora recorda como essa mesa desmontável a acompanhou ao longo da vida e se tornou “a mesa da paginação” de todos os volumes de Lisboa Desaparecida, simbolizando a ligação entre o trabalho de escrita e a infância passada naquele universo de luzes, carrosséis, rifas, farturas e comboios-fantasma.
A Feira Popular abriu em Palhavã a 10 de Junho de 1943, por iniciativa do jornalista João Pereira da Rosa e do jornal O Século, com o objectivo de financiar a Colónia Balnear Infantil d’O Século. Instalou-se nos terrenos da antiga Quinta de Santa Gertrudes, onde antes existira o Jardim Zoológico, e rapidamente se tornou um espaço de entretenimento popular e moderno numa Lisboa marcada pela guerra e pelas dificuldades económicas. Em 1957, a Feira encerrou em Palhavã para dar lugar ao projecto da Fundação Calouste Gulbenkian, sendo transferida para Entre-Campos, onde reabriu em 1961 com novos divertimentos e maior dimensão.
Durante décadas, a Feira Popular foi dos principais espaços de lazer dos lisboetas, atravessando gerações e adaptando-se às mudanças da cidade. O encerramento definitivo ocorreu em 2003, num contexto polémico, deixando no lugar das diversões apenas demolições, pó e, claro, especulação dos solos. O texto termina como homenagem sentimental a esse espaço desaparecido e à felicidade infantil que nele se viveu.
quinta-feira
«CHATEAR O CAMÕES»
Colocada entre a cidade tradicionalmente mais cosmopolita (o Chiado) e a o seu contrapeso popular (o Bairro Alto), a Praça Luís de Camões veio ocupar uma zona outrora povoada pelos restos do Palácio Marialva, vulgarmente chamados «Casebres do Loreto». Destas ruínas se podem hoje ver alguns vestígios, em fotografias tomadas quando da construção do parque de estacionamento que agora ocupa o subsolo do largo. Ora como zona «fronteiriça» da boémia, acontecia muitas vezes irem os janotas da Casa Havaneza para ali conversar, dando mais ou menos de caras com os bêbados oriundos das tascas do Bairro Alto. Parece que havia muita gente a candidatar-se a interlocutor de Camões que, lá do alto, permanecia imune a todas as provocações. O que não evita que ainda hoje se diga, quando queremos que alguém se cale: «Vai chatear o Camões!» Ou seja, vai falar em voz alta à estátua do dito. O mesmo que «falar para o boneco», está de ver.
Marina Tavares Dias
em «Lisboa Misteriosa»
(Continua no livro)
quarta-feira
OURIVES, FOTÓGRAFO, AMIGO DE FERNANDO PESSOA
Carlos Eugénio Moitinho d’Almeida, empresário lisboeta ligado à histórica Ourivesaria Moitinho, da Rua da Prata, onde Fernando Pessoa trabalhou durante largos anos como correspondente comercial.
Figura da burguesia mercantil da Baixa de Lisboa no final do século XIX e início do século XX, pertenceu a uma família tradicionalmente associada à ourivesaria portuguesa. Foi fotógrafo amador, distinguido com vários prémios.
O ambiente dos escritórios da firma Moitinho de Almeida inspiraria mais tarde algumas das páginas mais célebres do ‘Livro do Desassossego’.
segunda-feira
Santo António dos Capuchos
No topo da colina de Santana, o Hospital de Santo António dos Capuchos nasceu já no século XIX, sobre o antigo convento. A transformação começou com o Asilo da Mendicidade de 1836, criado por D. Maria II, evoluindo gradualmente para estas funções hospitalares.
Como unidade de saúde, foi em 1928 integrado no grupo dos Hospitais Civis de Lisboa. Antes disso, tinha funções assistenciais mistas: asilo, recolhimento, enfermarias para pobres, apoio social, etc. Em suma, um modelo muito oitocentista. A origem improvisada e adaptativa explicará, talvez, as críticas de muitos médicos: o conjunto nunca foi pensado de raiz como hospital moderno. Foi sendo adaptado: antigas celas tornadas gabinetes; corredores conventuais convertidos em circulação hospitalar; claustros fechados; enfermarias encaixadas em estruturas antigas; problemas permanentes de ventilação, acessos e infraestruturas técnicas.
Para a medicina contemporânea, com blocos operatórios, imagiologia pesada, circuitos estéreis, evacuação rápida, UTIs modernas, tudo é extremamente difícil de adaptar. Quem o critica vê-o como conjunto “romântico mas impraticável”.
Arquitectonicamente, em atmosfera, é dos sítios mais extraordinários de Lisboa. Tem algo que quase desapareceu na cidade: a sensação de continuidade histórica real. Caminha-se aqui entre camadas de convento franciscano, hospital oitocentista, azulejos barrocos, enfermarias republicanas e corredores do Estado Novo, tudo ao mesmo tempo.
Muitos hospitais modernos serão mais eficientes. Mas não têm esta densidade humana e histórica. Em Roma, Nápoles, Sevilha há locais com a mesma tensão entre património e funcionalidade. Os Capuchos pertencem a essa vasta família europeia. Com a actual tendência portuguesa para destruição dos locais com história, teme-se o pior para o seu futuro.
sábado
O MONTE DE S. GENS
quarta-feira
O NAMORO EM LISBOA
Há quem se faça valer duma espécie de telefone de cartão e fio encerado, descendo-o até à rua, para melhor captar as adoradas frases do marmanjo. Ou prendem-se cartas de amor à ponta de um cordel que a menina pendura lá do alto. E tudo isto sob a chacota de quem passa: guarda municipal, cocheiros de tipóia, galegos aguadeiros, padres de sotaina ou meretrizes cobertas de carmim. Cada namoro de janela é assunto dum bairro inteiro, fazendo as delícias da vizinhança alcoviteira.
segunda-feira
BÁRCIA, O FOTÓGRAFO INVESTIGADOR
José Artur Leitão Bárcia (Lisboa, 1873–1945) foi um dos mais interessantes fotógrafos amadores portugueses do início do século XX. Documentalista e experimentador visual, colaborou em revistas como ‘Serões’ e ‘Illustração Portugueza’, participou em inúmeras exposições e manteve estreita colaboração com Júlio de Castilho, cujos livros ilustrava.
Deixou obra fundamental para a memória visual de Lisboa: fotografias de bairros, ruas, escadinhas, pátios, igrejas e edifícios, ambientes, locais e transformações urbanas. As suas reproduções fotográficas incluem gravuras e desenhos antigos, num levantamento exaustivo de fontes olisiponenses . Nas fotografias originais, revela preocupações estéticas, enquadramentos ousados, atmosferas nocturnas e jogos de nevoeiro e luz próximos do simbolismo europeu da época.
O espólio de Bárcia, hoje repartido entre o Arquivo Municipal de Lisboa e várias colecções particulares, é composto por centenas de imagens. Inclui, por exemplo, parte do chamado ‘fundo antigo’ do arquivo camarário (fotografias realizadas para a CML entre 1896 e 1912).
Também registou fotograficamente outros locais: Palmela, Setúbal, a Quinta do Anjo, onde conviveu com populações e fixou imagens do quotidiano rural. Bárcia teve igualmente grande fascínio pela tecnologia do seu tempo: o fonógrafo de cilindros de Edison, a lanterna mágica, os equipamento de projecção, etc.
Bem lisboeta apesar das suas origens galegas, fez a primeira sistematização para registo iconográfico da cidade. Os seus postais ilustrados (albuminas que vendia em tiragens reduzidas) são hoje parte importante da arqueologia sentimental de Lisboa.
sábado
A LONTRA
Nos anos 80, A Lontra de S. Bento era o centro da boémia nocturna de Lisboa. Tanto para os jovens que não queriam pagar demasiado pelas bebidas como para os jornalistas que, ao contrário do que acontecia no Bairro Alto, podiam manter ali o anonimato. O Frágil, ou até a tasca em frente dele (o célebre Arroz Doce do ‘pontapé na ….’) eram visíveis, expostos e cheios de gente conhecida; a Lontra permitia desaparecer. Funcionava como prolongamento informal das redacções, depois do fecho e depois do Snob. Grupos do ‘Diário Popular’, do ‘Expresso’, do ‘Diário de Lisboa’ caíam ali já perto das quatro da manhã, quando a cidade ‘oficial’ acabava e começava a Lisboa subterrânea.
O espaço era exíguo para tanta animação. Dez vezes (pelo menos) por noite cantava-se, aos gritos, 'Você é luz, é raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô'. Bastavam os primeiros acordes para a casa inteira berrar o refrão em coro. Curioso como uma canção ultra-romântica e kitsch acabava transformada numa espécie de hino etílico da madrugada lisboeta. Havia pouca preocupação com o ‘bom gosto’, no sentido snob das modas do Bairro Alto.
Entre gente com camisas indianas e gente cheia de acessórios dourados, pontificavam figuras lendárias da noite lisboeta então já pretérita, como o Camoça ou o Cabeça de Vaca. Fechava só quando rompia o dia. Ia-se dali directamente para o Cacau da Ribeira.
quarta-feira
OS DELICIOSOS PEIXINHOS DA HORTA
Os peixinhos da horta não têm data de baptismo, autor ou certidão. São gestos antigos: colher o que a terra dá, passar por um polme leve e mergulhar em óleo quente. De repente, aquilo que era apenas feijão-verde transforma-se em qualquer coisa de inesperadamente delicado, dourado, humilde, perfeito.
Antes de serem petisco com nome, eram simplesmente isso: horta. Lisboa vivia cercada por um anel fértil de terras cultivadas — Alcântara, Chelas, Benfica, Campo Grande, Olivais — onde se produzia o essencial para a mesa diária. As chamadas ‘hortas fora de portas’, de que Lisboa se alimentava. Delas vinham os feijões verdes, tenros, colhidos de manhã e levados ao mercado.
A cozinha fazia o resto — ou melhor, fazia o mínimo. Cozer ligeiramente, envolver numa massa simples de farinha e ovo, fritar. Chamaram-lhes “peixinhos” por brincadeira e por engenho: nos dias de jejum, em que a carne era proibida, aquele formato alongado e dourado fazia as vezes do peixe. Um pequeno arremedo de pobreza criativa.
Depois, como tantas coisas portuguesas, viajaram. No século XVI, quando os portugueses chegaram ao Japão (à ilha de Tanegashima) levaram consigo não apenas armas e comércio, mas também hábitos. Entre eles, esta técnica de fritar legumes em polme, ligada aos dias de abstinência católica (‘tempora’, daí o nome). Os japoneses adaptaram, depuraram e nasceu a tempura. Mais leve, mais etérea, quase uma caligrafia culinária. O mundo ao contrário: um prato lisboeta, filho de hortas pobres, transformado num dos símbolos da cozinha japonesa.
A magia continua por cá. Naquele gesto simples e repetido durante séculos. Está nas mãos de quem frita sem pressa, no ponto exacto em que o dourado não pesa. Está numa Lisboa que já quase não existe: a das hortas, dos caminhos de terra, dos mercados de manhã cedo.
Magia que está, sobretudo, naquele instante breve em que um peixinho da horta sai da travessa ainda a estalar baixinho, e alguém o prova antes de todos os outros. Sem cerimónia. Como sempre foi.
domingo
OS GRANDES ÍDOLOS DOS NOSSOS ANTEPASSADOS
A Photographia Rocha especializava-se em retratos de actores. O estúdio ficava na Praça da Alegria de Baixo, n.º 111, precisamente junto da entrada norte do Passeio Público. Desapareceria com o rasgar da Avenida da Liberdade, entre 1879 e 1886.
Mas este retrato triplo conta muito mais. Os lisboetas de agora não podem imaginar como o público de 1870 adorava o teatro do seu tempo. Eram sessões seguidas, todos os dias. Lotações sempre esgotadas. Aqui estão os grandes actores Queiroz, Leone, Augusto e, à direita, Brazão. O futuro «grande Senhor» da Companhia Rosas e Brazão, aqui tão jovem, não parece o mesmo Eduardo Brazão de 1900, já coroado de glória. Parecem todos muito contentes. Tentariam replicar um quadro da peça em cena? - O futuro já não ouve, em surdina, a motivação destas poses. Mas é bom saber que, num dia qualquer, algures entre 1865 e 1870, estes cavalheiros resolveram encenar-se, em conjunto, frente à lente da câmara do Sr. Rocha, numa casa demolida para se rasgar a Aveniida.
Eduardo Brazão estreia-se em Lisboa em 1867 no Teatro do Príncipe Real, passando ainda nesse ano para o Trindade, o teatro moderno e elegante fundado por Francisco Palha. Queiroz, Leone, Augusto e Brazão encaixam no universo das companhias de comédia e drama então associadas ao Trindade e ao Gymnasio, que era o grande palco da comédia lisboeta, conhecido como “a fábrica de gargalhadas”.
Há ainda um detalhe visual importante: o retrato de grupo, descontraído mas teatralizado, parece próximo do espírito de companhia do Gymnasio, que cultivava um ambiente moderno, parisiense, de ‘ensemble’, muito ligado à vida boémia lisboeta.
O mais bonito será pensar que estes homens talvez tenham saído directamente de um ensaio ou de uma récita para subir à Praça da Alegria e posar no atelier do Rocha. O percurso era curtíssimo: o Chiado teatral e o Passeio Público pertenciam praticamente ao mesmo mundo social e nocturno.
E a maioria dos teatros onde eles representavam? -- desabaram sob o camartelo, um a um. O empresário trocou de elenco, provavelmente logo na peça seguinte. E eles, os actores, foram perdendo a juventude quase espampanante aqui exibida. O público foi morrendo, até não restar alguém que os tenha visto em palco. O clamor dos aplausos passou. Outros famosos ocupam o imaginário de outras épocas. Outros que o público futuro igualmente esquecerá. Desse tempo, dessa fama, dessa glória, desse quotidiano, desse mundo – ficou esta fotografia.
sexta-feira
O HOTEL BORGES
O hotel mais antigo e emblemático do Chiado é o Borges (agora Borges-Chiado) instalado na Rua Garrett e inaugurado a 29 de Outubro de 1882. Ocupa o primeiro andar de um edifício tal reconstruído de raiz. Pretendeu-se dirigido a um público urbano, culto e cosmopolita. A proximidade dos cafés, teatros e livrarias fazia dele local privilegiado para estadias longas. Ao contrário dos hotéis do Rossio, voltados para a circulação e chegada, o Borges era hotel onde se observava e vivia a cidade.
Atravessou sucessivas fases de adaptação ao longo do primeiro século de vida, acompanhando as transformações do Chiado, muitas vezes em tempos difíceis, como foram os anos imediatamente após o incêndio de 1988. Tal longevidade faz dele um dos raros exemplos de continuidade funcional, sobrevivente a mudanças económicas, urbanas e culturais.
quarta-feira
HERCULANO, PIONEIRO DEFENSOR DO PATRIMÓNIO
Há evidente paralelismo entre Alexandre Herculano e Victor Hugo, na forma pioneira como ambos olharam para a destruição do património histórico. Em França, Victor Hugo denunciou cedo o desaparecimento de igrejas, claustros e edifícios medievais no célebre texto “Guerre aux Démolisseurs!”, publicado em 1825 e retomado em 1832, onde acusa a especulação, o utilitarismo e o poder político de arrasarem a memória das cidades. Poucos anos depois, transformaria também 'Notre-Dame de Paris' numa espécie de grande acto de defesa da arquitectura gótica, usando o romance para devolver vida e emoção a um monumento ameaçado. Em Portugal, Herculano assume um gesto muito semelhante: a literatura como forma de resistência perante a ruína e o esquecimento.
No prólogo de 'O Monge de Cister', Herculano descreve a subida a Alfama e ao Castelo em demanda inútil de vestígios do antigo convento dos Cónegos do Evangelista (destruído pelas transformações pós-terramoto de 1755). A passagem é notável porque mistura observação urbana, melancolia histórica e crítica política: o escritor “não pode tirar os monumentos das garras dos políticos; mas tem liberdade plena de reconstruir e povoar aqueles que já não existem.” A frase aproxima-o directamente de Victor Hugo. Também Herculano entende que a ruína de um edifício representa perda da memória colectiva. E que o escritor pode, através da palavra, restituir simbolicamente aquilo que a cidade perdeu.
segunda-feira
O INESQUECÍVEL ACTOR TABORDA
O célebre Actor Taborda (Francisco António da Silva Taborda) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1824. Foi dos maiores cómicos portugueses, com longuíssima carreira e enorme popularidade, ao ponto de se dizer, do seu modo de entrar em cena e pôr logo a plateia a rir, que certas rábulas eram “género Taborda”.
Estreou-se muito jovem, em 1846 (no Teatro da Rua dos Condes). A vocação cómica revelou-se-lhe desde logo: dicção viva, gesto rápido e uma capacidade extraordinária de observar tipos urbanos e de os reproduzir em cena com precisão quase caricatural. Não era apenas actor de texto: era um criador de tipos.
Consolidou-se no reportório de comédia e de revista, passando para o Theatro do Gymnasio, onde brilhou em farsas cujos números Lisboa inteira conhecia e imitava. A sua especialidade era a criação de tipos populares lisboetas: o caixeiro, o criado esperto, o pequeno burguês pretensioso, o ‘andador de almas’, o vendedor de rua ou o rufia manhoso dos bairros populares. Essas figuras, que frequentemente davam nome às peças, eram famosas: ‘O Caixeiro da Tenda’, ‘O Brasileiro Pancrácio’, ‘O Morgado de Fafe em Lisboa’ (adaptações e versões cénicas populares) e inúmeras outras personagens cujas deixas eram apenas pretexto para a sua brilhante capacidade de improvisação. Num dos números mais famosos, “o caixeiro”, compunha retrato vivo daquela personagem da Lisboa oitocentista: rápido a falar, cheio de tiques, humor feito de apartes e demasiada familiaridade com o cliente. Igualmente célebre, o seu caricato “brasileiro de torna-viagem”, figura comum na época em que muitas fortunas portuguesas tinham sido feitas no Brasil.
O Taborda explorava as figuras com gestos largos, sotaque marcado e um sentido agudo do ridículo. Ao longo da carreira, participou em várias ‘revistas do ano’, género que começou a afirmar-se na segunda metade do século XIX. Nelas introduzia referências às cenas famosas da vida lisboeta, às bisbilhotices políticas, às modas e aos escândalos. O público adorava-o, e consumia tudo o que com o seu nome ou imagem aparecesse: bustos, fotografias, revistas ilustradas, bonecos e até latas de bolachas.
Subiu ao palco durante mais de sessenta anos. Só cessou actividade quase no fim da vida, já surdo. Em idade avançada, era a maior instituição do teatro português.
Taborda morreu em 1909, com 85 anos, deixando memória profundamente enraizada no público e nos colegas que lhe sucederam. Permaneceu como referência de um certo teatro popular lisboeta, com o actor como centro de tudo.
Na pele das suas personagens, foi o espelho da cidade. Lisboa, durante décadas, riu-se de si mesma através dele.
sábado
A RIBEIRA DE ALCÂNTARA
A ribeira de Alcântara nasce nos terrenos altos da Falagueira, onde vários regatos dispersos se juntam e começam a desenhar um vale contínuo que desce para Lisboa. Não é uma nascente única, mas antes uma rede de pequenas linhas de água que, reunidas, ganham direção e corpo.
A partir daí, o curso segue pela Damaia e por Alfragide, num corredor natural ainda hoje perceptível na topografia: uma depressão larga, com Monsanto a nascente, que conduz inevitavelmente para sul.
Ao aproximar-se de Lisboa, a ribeira entra pela zona das antigas Portas de Benfica, acompanhando de perto a estrada que ligava a cidade ao exterior. Durante séculos, este troço foi rural e pontuado por quintas muradas — Casquilha, Feiteira e outras — que tiravam partido da água e dos solos férteis do vale. Aqui, a ribeira corria a céu aberto, cruzada por pequenas pontes, como a de São Domingos de Benfica, integrando-se na vida quotidiana: lavadeiras, hortas, caminhos de terra batida.
Mais adiante, o vale abre-se e ganha amplitude na zona de Sete Rios, preparando a entrada em Campolide. É neste ponto que a ribeira atinge a sua expressão mais marcante. O vale de Alcântara, largo e bem definido, constitui uma verdadeira estrutura natural da cidade, atravessado pelo Aqueduto das Águas Livres, cuja arcaria monumental domina a paisagem.
No fundo, a ribeira serpenteava entre quintas como a da Rabicha, delimitando campos e caminhos, num cenário ainda profundamente rural até ao século XIX.
Com a modernização de Lisboa, este mesmo vale tornou-se corredor de infraestruturas: primeiro a ferrovia, depois as grandes avenidas. A ribeira foi sendo canalizada, ocultada sob a cidade que ela própria ajudara a organizar. Contudo, o seu percurso mantém-se legível.
Do alto da Falagueira até ao vale de Campolide, é ainda a linha invisível que estrutura o território, um rio enterrado que continua a dar forma à geografia de Lisboa.
A RELOJOARIA J. MAURY
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