terça-feira

OS CLÁSSICOS DO CINEMA PORTUGUÊS

Basicamente, as «fitas faladas» assumem, desde o início, uma vertente semi-subversiva, totalmente diversa daquilo que, até então, dominara os argumentos para animatógrafo. Ao longo das décadas seguintes, grandes sucessos da «comédia à portuguesa» vão reproduzir à exaustão o universo pequeno-burguês da Lisboa bairrista. Pleno de personagens argutas, bailadeiras, cinéfilas, modernaças, amantes da pinga, ambiciosas, mentirosas, pouco dadas ao trabalho e frequentemente amorais. No epílogo, quase sempre, saem triunfantes sobre os chamados «botas de elástico», através de uma inversão de valores que nem sequer propõe julgamentos. As comédias do cinema sonoro penderão, pois, para o avesso do regime que as acolheu como arte, e que nunca consegue encaminhá-las para o moralismo do «poucochinho mas honrado». Analistas e historiadores futuros falharão quase sempre ao tentarem ligar este universo, basicamente «revisteiro», herdado de Oitocentos e sedimentado na Primeira República, à opção deliberada pela propaganda do Estado Novo. (...)

Continua em «Lisboa nos Anos 40» 
de Marina Tavares Dias



Beatriz Costa e António Silva 
em 'A Canção de Lisboa' 
(Cottinelli Telmo, 1933)


quarta-feira

O MARTINHO «DA NEVE»

Em 1769, Julião Pereira de Castro nomeia Simão Duarte de José Duarte para “irem ajuntar neve à real fábrica que se acha no Cabeço do Pereiro, Serra da Lousã, e para esses avisarem os mais do lugar do Coentral para acudirem a juntá-la, por ficarem os ditos à vista da serra e verem quando cai a dita neve como também para irem ver amiúde que não haja algum prejuízo na dita fábrica causado pelos pastores ou pessoas que passem, que não quebrem telhas dos telhados ou outro qualquer prejuízo, para logo que suceda se prover de remédio e para o que lhe concedo todos os meus poderes que neste alvará são concedidos por Sua Majestade”. Além dos cestos repletos de neve, contava esta produção com um reforço de gelo, feito em pleno Inverno por meio das alagoas (tabuleiros onde a água da chuva, ao relento, ia ficando até gelar). 

Chegado o tempo quente, o povo descia de novo aos poços, onde a neve era cortada e erguida, em grandes blocos, para cima dos carros de bois. Enrolados em sarapilheiras, revestidos de palha, os fardos seguiam então pelos carreiros da serra, até Miranda do Corvo, primeira paragem para muda de animais, e mais tarde até ao pequeno porto de Constância. A neve chegava de barco ao estuário do Tejo, sendo rapidamente distribuída pelos botequins da Baixa lisboeta. Já em 1782 é consumida esta neve no “botequim da Praça do Commercio”, o actual Martinho da Arcada. [...]

Marina Tavares Dias 
em «Os Cafés de Lisboa»




CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...