Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA
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quinta-feira

O PEZINHO DO SENHOR DOS PASSOS

No passado dia 1 de Março, a Procissão do Senhor dos Passos voltou a percorrer Lisboa. A presença de Marcelo Rebelo de Sousa, que se associou ao cortejo, sublinha o valor simbólico de uma das poucas tradições que continuam vivas no centro da cidade. 

A implantação da República não suprimiu definitivamente a tradição, logo no ano seguinte (1911). Mas desarticulou-lhe o percurso, que apenas nas décadas seguintes se recompôs, mas sem o traçado antigo completo. Já neste século, foi retomada a saída da Igreja de São Roque. Tradicionalmente, daí desce ao Chiado, onde a paragem na Igreja da Encarnação marca ainda um momento interior da via-sacra. 

Ao entrar no Rossio, o cortejo ganhava amplitude: era aqui que existia um dos passos mais importantes, com capela própria até ao século XIX, desaparecida nas posteriores remodelações da praça. Seguia para a Mouraria, onde outro passo, documentado desde o século XVII, a parava junto ao antigo arco do Marquês de Alegrete. Depois, do Terreirinho (na Rua dos Cavaleiros, onde persiste memória de uma estação antiga), era a subida pela Calçada de Santo André. Aí se conserva o único testemunho físico do sistema original: o pequeno passo, embebido na muralha. Por fim, a chegada à Igreja da Graça encerrava o percurso, como momento mais intenso da procissão.

Este itinerário foi fixado entre os séculos XVI e XVII, e organizava-se nos sete passos com capelinhas próprias. Ao longo do século XIX, a cidade apagou quase todas essas estruturas. Em 1900, a procissão era já uma via-sacra urbana, feita de paragens reconhecidas mas semi-ausentes. Essa continuidade — agora reforçada pela atenção mediática — faz com que Lisboa continue a percorrer, ano após ano, um trajecto ancestral.

Nos capítulos recentes, a história da procissão está por fazer. Perdeu-se lembrança da localização dos passos mais frequentados até ao século XIX (ainda assinalados nos mapas anteriores a 1850). E perderam-se episódios deliciosos como este:

A imagem do Senhor dos Passos era veneradíssima, e a tradição mandava que, à passagem do andor, se lhe beijasse o único pé destapado. Ao longo do percurso, eram centenas os fiéis que conseguiam proximidade para tal fazerem. Conspurcada por inúmeros afectos, chegava a imagem à presença da família real. Porém, antes que D. Carlos ou D. Amélia dela se acercassem, vinham dois mordomos desaparafusar o pezinho, substituindo-o por outro. Mantinha-se, impoluto e guardado, um pé solto suplente. Só para ósculos reais.


A Procissão do Senhor dos Passos 
no início do século XX
 (Alberto Carlos Lima)