Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

quarta-feira

A FLORESTA EGÍPCIA

A actual Rua da Escola Politécnica, antes de fixar o topónimo com que é conhecida, foi sendo muitas ruas dentro da mesma rua. Mudaram-lhe designações como mudavam os tempos, os donos, as ambições, os pontos de referência. Para quem subia para o Rato, aquele troço ainda guardava, em pleno século XVIII, qualquer coisa de arrabalde e de quinta, mesmo quando já se começava a vestir de arquitectura urbana. Entre muros, terrenos fundos e casas que olhavam a cidade com prudência, foi ali que se ergueu a grande morada dos Cruz Alagoa.

 O fundador não vinha de linhagem antiga. Era produto de «dinheiro novo» bem conduzido, da oportunidade aproveitada a tempo, da inteligência prática que cresce à sombra do poder. José Francisco da Cruz fizera caminho depressa. Filho de condição modesta, passara pelo Brasil, pelo comércio, pelos contratos, pelas companhias, pelos cargos da Fazenda, até se transformar num daqueles homens que, sem terem nascido nobres, começavam a viver como se o fossem há gerações. A casa que mandou levantar dizia precisamente isso: não era um palácio no sentido pleno, mas já não era apenas uma habitação rica. Era uma declaração.

 A fachada longa, severa, quase sem adornos, impunha-se menos pelo luxo do que pela extensão. Havia nela qualquer coisa de disciplinado e obstinado, como se a pedra quisesse convencer a cidade da respeitabilidade dos donos. Por dentro, a sobriedade abria-se em acomodações amplas, salas de aparato, capela privativa, criadagem numerosa, carruagens, pratarias, louças orientais, espelhos, música, jogos e a arte delicada de receber. Não se tratava só de morar: tratava-se de ocupar um lugar no mundo.

 Como sempre nas fortunas erguidas com rapidez, também esta teve alguma coisa de precário. O fundador mal chegou a usufruir da sua obra. Morreu poucos anos depois de concluída a casa, deixando viúva, filhos, rendimentos, prestígio e também tensões, dependências e interesses familiares que não costumam tardar quando o dinheiro é muito e os afectos poucos. A residência continuou viva, mas já como cenário de continuidade imperfeita. Entravam e saíam moradores de nome sonante, fidalgos arrendatários, viúvas ilustres, generais, condes, marquesas, funcionários régios, gente de brasão e renda, como se o edifício, nascido de uma ascensão social, precisasse de títulos alheios para confirmar o estatuto que a origem lhe não dera inteiramente.

Entretanto, a própria Lisboa mudava em redor. O que fora espaço de transição entre a quinta e a cidade tornava-se cada vez mais urbano, mais atravessado, mais exposto à circulação das classes, dos negócios e das modas. E foi nesse ambiente, já a meio do século XIX, que o lugar conheceu o que deu História aos terrenos anexos: a célebre Floresta Egípcia.

O nome, só por si, bastava para prometer um mundo. Não era floresta, nem egípcia, e daí o seu encanto. A Lisboa oitocentista tinha fome de exotismo, de surpresa, de espectáculo, de qualquer simulacro que quebrasse a monotonia do quotidiano. A Floresta Egípcia respondeu a esse desejo com a imaginação de uma feira tradicional. Havia lagos, palmeiras, quiosques, refrescos, música, dança, pequenos engenhos de diversão, iluminações, fogo-de-artifício, teatro e um ar de fantasia acessível, onde se misturavam famílias, namorados, curiosos, janotas e basbaques.

O seu criador, José Osti, italiano de expediente e invenção, parecia personagem saída do próprio recinto. Pirotécnico, industrial, homem de iniciativas brilhantes e finanças menos seguras, trouxe a Lisboa esse gosto de maravilha mecânica e luminosa que faz as multidões esquecer por algumas horas a gravidade dos dias. A Floresta era menos jardim do que máquina de espanto. Lisboa, que tantas vezes se aborrecia de si mesma, ia ali beber capilés, ouvir a orquestra, ver as luzes e entregar-se à ilusão de estar noutro sítio — mais moderno, talvez mais europeu, ou simplesmente mais alegre.

Também ali houve acidentes, falências, exageros, improvisações. A mesma matéria inflamável que alimentava o deslumbramento serviu de presságio e ruína. Um episódio absurdo e triste: um rapaz com a roupa em chamas atirado ao lago, e a morte onde se esperava apenas o susto. Resumo quase simbólico da fragilidade daquele universo. Brilhava muito mas ardia depressa.

Desaparecida a Floresta Egípcia, ficou o eco. E o velho edifício, sobrevivendo aos seus donos, aos seus inquilinos e às modas da cidade, entrou noutra fase da existência quando passou para as mãos de José Vaz Monteiro. Médico de formação, agrário, político, capitalista, homem de múltiplos interesses, foi a figura mais forte a habitar a antiga casa depois da linhagem fundadora. Com ele, o edifício recuperou a centralidade social que parecia perdida: jantares longos, serões musicais, luzes, flores, damas de toilette apurada, convidados em abundância. O lugar voltou a representar alguma coisa no teatro da capital.

Mas era já outro século. Na antiga casa nobre, que nascera quase rural, que se fizera palácio por aspiração e costume, começava lentamente a entrar a dança do tempo. À volta abriram-se ruas, fraccionaram-se terrenos, passaram companhias, sociedades, instituições, proprietários. O que fora domínio contínuo tornou-se parcela. O que fora jardim imaginário acabou loteado. O que fora memória de família converteu-se em imóveis adaptáveis.

Hoje, ao olharmos aquela massa comprida e transformada, custa imaginar tudo o que ali coube: a ambição de um negociante protegido pelo poder, a devoção doméstica de uma capela privada, criados e cocheiras, fidalgos arrendatários, crianças expostas acolhidas de passagem, música de 'soirées', risos da feira romântica, clarões de fogueteório, decadência lenta dos interiores. No entanto, a cidade é assim mesmo: sucessão de vidas sobrepostas, palco onde as pedras ficam e os enredos se substituem.

Da Floresta Egípcia não resta a frescura inventada dos lagos nem a prometida sombra das palmeiras. Ficou apenas o nome histórico que ainda parece abrir, por instantes, uma porta improvável no coração da História de Lisboa. Cheira a artifício, a Verão, a infância. E talvez seja essa a sua última verdade: ter sido menos um lugar real do que um sonho urbano. Breve e cintilante, na cidade que nunca deixou de gostar de se imaginar maior do que era.


Antiga entrada para a Floresta Egípcia, 
na Rua da Escola Politécnica 



segunda-feira

O CÉLEBRE 92

 A célebre Loja 92 da Rua Nova do Almada, no Chiado, foi fundada em 6 de julho de 1876 por Albino José José Baptista. Vendia bengalas, leques, sombrinhas, guarda-chuvas e outros acessórios de moda, muitos deles exclusivos e inspirados nas novidades parisienses. Tornou-se uma referência no comércio lisboeta do final do século XIX. O número da porta — 92 — acabou por dar nome ao estabelecimento, que era conhecido simplesmente como ‘Loja 92’. No início do século XX a firma prosperou e abriu também uma sucursal na Rua do Ouro, nº 110. 

Entre os hábitos da casa estava o de oferecer brindes aos melhores clientes (final do século XIX e primeiros anos do século XX). Os pratos decorativos, com o ano inscrito e produzidos especialmente para a loja, eram oferecidos como recordação, mediante a entrega de vários ‘coupons’ de compras. São hoje peças muito procuradas pelos coleccionadores de objectos lisboetas.

O 92 ardeu no incêndio de 25 de Agosto de 1988. Ainda se instalou provisoriamente numa rua da Baixa, onde Marina Tavares Dias entrevistou os proprietários, em Dezembro desse ano. Esperavam regressar ao Chiado após as obras de reconstrução. Nunca aconteceu.





sábado

RENDEZ-VOUS DAS GALINHAS

Designação cosmopolita e sofisticada para uma venda que seria tudo menos isso. Na década de 1920, ainda podia matar-se a criação à frente do cliente. Coisa que decerto não impressionaria estes vendedores, felizes por poderem posar para o retrato.

O Mercado das Picoas, oficialmente chamado Mercado 31 de Janeiro, foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa em 1905, quando a zona das Avenidas Novas começava a urbanizar-se rapidamente. Destinava-se a abastecer os novos bairros que cresciam em torno das Picoas, do Saldanha e de São Sebastião da Pedreira. Ao contrário de outros mercados municipais construídos em pavilhão, o das Picoas funcionou durante muito tempo de forma simples, com bancas e pequenas lojas voltadas para a rua, formando um mercado muito vivo e popular. Ali vendiam-se os produtos essenciais da alimentação quotidiana — hortaliça, fruta, peixe, carne, ovos — e era frequente encontrar aves vivas, como galinhas ou coelhos, que eram preparadas no próprio local. 

Em 1929, participou no concurso 'Rainha dos Mercados de Lisboa', organizado pelo Diário de Lisboa, iniciativa que envolveu vendedeiras de vários mercados da cidade. O prémio com que foi distinguido esteve inscrito numa placa até ao fim. Durante todo o século XX, o 31 de Janeiro manteve-se como importante ponto de abastecimento da zona, muito frequentado pelos moradores. Continuou em funcionamento até ao início da década de 1990. Foi o penúltimo mercado tradicional de Lisboa a encerrar. O último seria o de Santa Clara.






quarta-feira

O CINEMA DA GRAÇA

 Agapito Serra Fernandes (1863-1939), natural da Galiza e radicado em Lisboa desde os onze anos, dirigia a fábrica de biscoitos Confiança, fornecedora do exército. Mais tarde foi dono de lojas: uma tabacaria no Largo do Regedor e o restaurante Estrela d’Ouro na Rua da Prata. 


Em 1908 iniciou na Graça a construção do bairro operário Estrela d’Ouro, destinado a trabalhadores das suas empresas. Em 1928, a Empresa do Royal Cine Lda., também sua propriedade, pediu à Câmara de Lisboa autorização para erguer ali uma grande sala de animatógrafo, num edifício especialmente para tal concebido (projecto do arquitecto Norte Júnior). A fachada pretendia-se monumental, no contexto da estreia Rua da Graça, ostentando arco de entrada, colunas estriadas e vitrais coloridos . No interior, a sala tinha cerca de 900 lugares, orquestra, balcão, camarotes laterais, bar e salão de baile.


O Royal Cine inaugurou a 26 de Dezembro de 1929 com o filme ‘O Cadáver Vivo’, de Fedor Ozep. Além da programação, oferecia ‘matinées’ dançantes às quartas-feiras. Poucos meses depois, a 5 de Abril de 1930, ocorreu ali a primeira apresentação do cinema sonoro em Portugal, com ‘Sombras Brancas nos Mares do Sul’ (‘White Shadows of the South Seas', dirigido por WS Van Dyke), na presença do Presidente da República. Embora dificilmente se possa considerar ‘sonoro’, o filme trazia efeitos sonoros e música na própria película, coisa até então nunca ouvida em Lisboa. Outra novidade: é o primeiro filme em que está gravado o rugido do leão da Metro (MGM).


Agapito Serra morreu em 1939. O Royal Cine, a que os moradores do bairro chamavam ‘o rolhas’, manteve-se em actividade até 1983. Subsiste o edifício, agora albergando um supermercado. Fachada e átrio ficaram intactos, assim como vitrais, relógio, lambris e escadaria. Foi tudo restaurado em 2025, mantendo a memória daquela que era a sala de cinema mais importante do bairro da Graça.













segunda-feira

OS TÁXIS DO ROSSIO

A partir da década de 1920, o Rossio funciona como placa giratória do trânsito lisboeta. Destruído o inicial tabuleiro de mosaico ondulado, é no centro da praça que convergem carreiras de eléctricos e circuitos de distribuição. Torna-se o verdadeiro nó da mobilidade moderna: eléctricos, automóveis particulares, carrinhas de abastecimento e, sobretudo, os primeiros táxis organizados em ponto fixo. A praça deixa de ser acolhedora, e torna-se o centro nervoso do tráfego citadino.

É nesse contexto que surge a fotografia do táxi com matrícula GG-10-55, estacionado junto ao passeio, tendo por fundo um eléctrico com a tabuleta “Rossio”. A matrícula já pertence ao sistema nacional introduzido em 1 de Janeiro de 1937, composto por duas letras e dois grupos de algarismos (AA-00-00). A sequência “GG” insere-se nas combinações atribuídas à área de Lisboa, o que confirma o registo local do veículo e situa a imagem necessariamente após 1937.

O automóvel, de grelha estreita composta por múltiplas barras horizontais atravessadas por uma barra vertical central, faróis montados nos guarda-lamas e frisos laterais no capot - corresponde muito provavelmente a um Chevrolet Master (ou Master Deluxe) do ano-modelo de 1938, produzido entre finais de 1937 e 1938. Esse desenho frontal é característico da marca norte-americana nesse exacto período, distinguindo-se dos modelos de 1937, mais verticais, e dos de 1939, já com grelhas mais largas e integradas.

Assim, o carro terá sido adquirido novo em 1938 ou pouco depois, passando rapidamente ao serviço de táxi. Algo comum na Lisboa do final da década de 1930, quando veículos americanos, robustos e relativamente económicos, eram preferidos para transporte público urbano.

A fotografia deverá situar-se entre 1938 e 1941. O vestuário do motorista, sobretudo o sobretudo comprido e o boné de pala, é típico dos anos da Segunda Grande Guerra. Apesar da neutralidade portuguesa, o período marcou uma fase de intensa circulação e vigilância na capital, que se tornaria ponto de passagem internacional. O Rossio, como primeira praça de táxis da cidade, era também o primeiro contacto de muitos viajantes com Lisboa.

O conjunto revela uma cidade em transição: ainda com eléctricos dominando a paisagem, mas já com automóveis a assumir protagonismo; uma praça oitocentista convertida em plataforma de trânsito.





quinta-feira

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

A minha relação com António Lobo Antunes começou mal. O primeiro livro que li foi o primeiro que ele escreveu. Eu não teria mais de 18 anos. Pensei: ‘Que grande dor de corno, escrever isto.’ Arrumei o volume da Vega na prateleira e não comprei o segundo. 

Fast-forward seis anos. Conheci o Zé quando ele trazia um livro do António debaixo do braço. O Acácio Barradas atirou, com um sorriso: ‘Aqui tens o descobridor de talentos.’ O Zé fizera a primeira entrevista ao António, e tinham ficado muito amigos. Perguntei-lhe pelo livro que levava. Estendeu a mão e disse: ‘Lê tu, e logo me dizes o que pensas.’ Nessa tarde, na Pastelaria Orion, fiz a segunda imersão na prosa do António. Maravilhada, fui pedir emprestados todos os outros livros. 

Conheci o António nesse ano, depois de mais uma entrevista para o ‘DP’. Achei-o muito diferente do escritor que tinha lá dentro. Parecia estar sempre um pouco alheado da conversa, ponderado em cada resposta, vagamente enfastiado. Tínhamos ido comprar cromos, eu e o Zé. Perante o meu entusiasmo ao abrir cada pacotinho, o António começou a falar dos futebolistas que faziam as antigas colecções de ‘cromos da bola’, compradas com os rebuçados das mercearias. De repente, acendeu-se aquele belo sorriso. Estava encontrado o âmago dos seus livros, em que tudo era intenso e fascinante só por ser humano.

Fotografei-os juntos e emoldurei o retrato ao lado de outro, mais antigo, que o Zé tinha com ele. Mais tarde, juntei na mesma moldura mais uma fotografia: com o neto, a apontar para a câmara. Tirando as entrevistas, nunca falámos da obra dele. Nunca lhe pedi livros ou autógrafos, nunca lhe dei os parabéns por nada. Fiquei surpreendida por não ter sido o primeiro escritor português a ganhar o Nobel. Nunca lho disse. 

Quando o Zé morreu, o António publicou uma crónica em que repreendia a Deus. Que tivesse levado outro cuja falta não se fizesse sentir tanto. Que tivesse levado quem lhe faria menos falta a ele. No meio de tantos elogios fúnebres, foi o mais sincero. Dava o devido valor a quem o estimava.

Voltei a falar com ele, anualmente, nos meses da Feira do Livro. Uma tarde, encontrei-o ‘pastoreado’ na sessão de autógrafos pelo antigo distribuidor dos meus próprios livros. ‘És amigo deste gajo?’ E ele, com o sorriso encavacado: ‘Ninguém é perfeito.’ Adoeci e deixei de ir à Feira, às habituais sessões de exposição circense. Quando cessaram as crónicas e se interrompeu aquela cadência certa com que os livros novos apareciam nas livrarias, tentei saber como estaria. Que já não podia escrever, que não se dava com ninguém. Não tentei saber mais. Reservado como era, decerto teria preferido que eu não soubesse.

Há coisa de dois anos, enquanto revolvia pela enésima vez as estantes, em busca de um livro que não encontrei, caíram-me aos pés várias folhas com os poemas que nunca publicou, e cujo original tipo-escrito tinha ficado com o Zé. Comovi-me um bocado nesse dia, e fui para o FB publicar fotografias dele. Mas não o tenho retratado no cenário em que mais vezes o encontrei: um armazém vazio e asséptico, vagamente pertencente a um primo, ali ao Conde de Redondo. 

O António escrevia sem precisar de nada à sua volta. Metia-me espécie, e ele ria. Talvez por isso, quando comprou uma casa nova fez questão de mostrar que a decorara. O Zé sabia mais ou menos o que iria encontar. Com um desvelo que raramente dedicava à decoração das casas, o António tinha colado na parede um cromo do Benfica.


Marina Tavares Dias 












quarta-feira

A BAIXA QUE CONHECI

Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.

A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.
Para mim, a Baixa era o mundo inteiro. Para onde foi esse mundo, tão próximo e tão distante? Desço hoje a Rua do Ouro e, entre lojas paquistanesas e hotéis recém-inaugurados, nada já parece estar na mesma cidade.


Marina Tavares Dias



terça-feira

O MERCADO DE ALCÂNTARA

Houve um tempo em que Lisboa acabava aqui. Ou deixara já de o ser, Alcântara era subúrbio, limitada a oeste estava a cidade pela Rua Maria Pia, à época Estrada da Circunvalação. Eis-nos, pois, face a esta imagem remota, no limite da Lisboa suburbana. E frente ao seu mercado, em 1906 aberto. 

O postal não no-lo mostra, mas na fronteira entre Alcântara e Lisboa havia então soldados, guaritas onde se abrigavam e... um posto alfandegário. Talvez - quem sabe? - algumas destas gentes para sempre anónimas, que vemos em silhueta a mercar na praça ou simplesmente passando, se dirigissem depois a Lisboa. Ou rumassem a Belém, que fora sede de concelho. Ao certo, todavia, nada sabemos delas. 

O mercado, na sua arquitectura modesta de ferro e vidro (parente pobre da Praça da Figueira) impõe-se ao nosso olhar. Como um monumento. Que haveria, também ele, de perecer, como os que neste postal lhe emprestam vida. Em seu lugar não há agora coisa nenhuma. Ou há: a terra de ninguém dos que - de e para novos subúrbios - todos os dias entram em Lisboa e saem dela. A cidade cresceu sobre os escombros de si própria, às vezes mesmo sobre o mais nobre de um lugar. Quem haveria de dizer que a torre da igreja, lá no alto, ou a gare ferroviária de Alcântara-Terra, à esquerda na imagem, iriam sobreviver a este mercado? 


Texto do livro

'Os Melhores Postais de Lisboa' (1995)