sexta-feira

CHAPÉUS HÁ MUITOS

 «Chapéus há muitos, seu palerma!» A frase de Vasco Santana atravessou gerações e continua a ser repetida muito depois de os chapéus terem desaparecido do quotidiano da maioria dos lisboetas. Durante séculos, claro, Portugal foi um país de chapéus. Distinguiam classes sociais, profissões e gerações. 

O lisboeta ‘chapéu à Patuleia’, hoje quase esquecido, sobrevive na velha canção do boleeiro Timpanas, transformado em personagem do filme ‘A Severa’ (Leitão de Barros, 1931) — que fala do «Pinóia na boleia, de chapéu à Patuleia». Era o chapéu típico dos boleeiros das antigas seges lisboetas, associado à arraia-miúda, à «patuleia», armado em fino.

Se o chapéu à Patuleia pertence à Lisboa popular, o tricórnio transporta-nos para o século XVIII. Com as suas três pontas características, foi usado por militares, magistrados, comerciantes e fidalgos (reinado de D. João V e a época pombalina). Júlio Dantas recordava uma história lisboeta ligada a este chapéu. Durante escavações no Quartel do Carmo, foi descoberta uma dependência entaipada onde jaziam dois esqueletos. Junto ao homem encontrava-se um tricórnio. Envergava ainda restos de uma casaca roxa; a mulher conservava véu sobre o crânio e um único sapato de fivela. Teriam ficado ali presos durante mais de cem anos.  O tricórnio foi guardado durante décadas, sob uma redoma, no quartel. Dantas observou que ninguém era enterrado de chapéu, muito menos um casal o teria sido daquela forma. Ficou por resolver o mistério daqueles dois desconhecidos, esquecidos atrás de uma parede.

No final do século XVIII, o tricórnio deu lugar ao bicórnio, o célebre «chapéu de dois bicos». Foi o chapéu dos altos funcionários, dos conselheiros, dos magistrados e dos oficiais do liberalismo oitocentista. A sua memória chegou até aos nossos dias por caminhos inesperados. Muitas crianças portuguesas cantaram durante décadas «O meu chapéu tem dois bicos» (celebrizada por João Maria Tudella), sem suspeitarem que estavam a evocar uma moda que era comum nas ruas da cidade do início de Oitocentos. Tal como o chapéu à Patuleia ou o tricórnio do Quartel do Carmo, o bicórnio sobreviveu na memória colectiva.

Em época sem chapéus cerimoniosos, restam os bicórnios e os tricórnios das gravuras antigas, das canções e filmes de época; restam livros de memórias e até expressões populares. O tricórnio lembra a Lisboa pombalina; o bicórnio evoca o início do século XIX; o chapéu à Patuleia faz regressar os boleeiros das seges. Na tela ou no écrã, Vasco Santana continua a lembrar-nos que o chapéu faz parte da memória colectiva da cidade. Chapéus há muitos. Todos com uma história.



'Costumes Portuguezes' por George Landmann
(gravura de Daniel Lerch, publicada em Londres, 1818-1820)


Archeiro da Guarda Real. 
Aguarela de Alfredo Roque Gameiro, 
publicada no Álbum de Costumes Portugueses (1888)

Três tipos populares lisboetas à porta do café. 
Desenho de José António Severini, século XIX. 
A gravura mostra a diversidade dos chapéus 
usados na Lisboa oitocentista

O actor Silvestre Alegrim no papel de Timpanas, 
famoso boleeiro de seges da Lisboa oitocentista, 
com o seu 'chapéu à Patuleia'
('A Severa', de Leitão de Barros, 1931)








VAMOS AO BAETA

A Ourivesaria Baeta da Rua do Ouro foi uma das mais conhecidas casas da Baixa de Lisboa. As suas origens remontam à antiga Joalharia Pontes, uma das mais antigas e notáveis do género na capital, que executou diversos trabalhos para a Casa Real. Segundo testemunhos da época, a tradição do estabelecimento recuava ainda mais longe, sucedendo a uma outra ourivesaria pertencente a um comerciante de apelido Seixas. Um dos proprietários da Joalharia Pontes, Joaquim Luís Pontes, era não só dono do estabelecimento como também do prédio onde este se encontrava instalado.

Em 1886, entrou para a firma João Martins Ferreira Baeta, cujo apelido acabaria por identificar o estabelecimento. Após a sua morte, em 1908, a casa passou para o filho, Alberto Seabra Baeta, nascido em 1893, que contava então apenas dezassete anos, mas já possuía sólida experiência de oficina. Tornou-se gerente em 1918 e único proprietário em 1922, conduzindo a empresa durante mais de meio século nos números 55 a 67 da Rua do Ouro. Sob a sua direcção, a firma alcançou grande prestígio, sendo Alberto Seabra Baeta agraciado com a Comenda do Mérito Industrial, além de exercer funções como director do Grémio dos Ourives e presidente da Associação de Socorros Mútuos dos Ourives de Prata. O seu filho, Carlos Alberto Borba Baeta, colaborou igualmente na empresa.

Remodelada, a joalharia reabriu ao público a 18 de Janeiro de 1939 com fachada e lettering feitos pelo escultor João da Silva (os mesmos que se reconhecem nas fotografias da década de 1940). Novas obras tiveram lugar em Outubro de 1970, mas a histórica casa acabaria por encerrar definitivamente a 31 de Janeiro de 1979. A frontaria da loja esteve anos ao abandono, até ser transformada para instalação de mais um banco.

O apelido Baeta encontra-se documentado em Portugal pelo menos desde o século XVII, através da família de Domingos Simões Baeta, de Álvares, no concelho de Góis. Curiosamente, o nome sobrevive também na linguagem popular lisboeta através da expressão «ir ao baeta», usada durante gerações para significar uma ida ao barbeiro ou ao cabeleireiro. Provavelmente, a família era já um nome de referência na Baixa.


Baeta em 1939. À porta, 
Alberto Seabra Baeta


Baeta em 1947. À porta, 
o Sr. Machado e o Sr. Arnaldo

Baeta com a fachada nova,
fotografado nos
anuários comerciais




OS PINTORES DOS CINEMAS DE LISBOA

Os grandes cartazes pintados à mão começaram a transformar as fachadas dos cinemas de Lisboa quando surgiram as grandes salas construídas nas décadas de 1930, 40 e 50. O Éden, o Condes, o Monumental, o São Jorge, o Alvalade, o Império ou o Restelo não anunciavam apenas os filmes: convertiam toda a fachada num espectáculo. Retratos gigantes das vedetas, títulos, cenas de acção e composições concebidas para serem vistas à distância ocupavam paredes inteiras e mudavam ao ritmo das estreias. Os primeiros artistas desta tradição continuam, em grande parte, por identificar. Os nomes que hoje recupero pertencem sobretudo à última geração do ofício, activa entre o fim dos anos 50 e o princípio da década de 1990.

O trabalho de Adriano Rodrigues (Roiz) está documentado entre 1957 e 1988. Pintou para o Condes, o Alvalade e o Chiado Terrasse. Os seus álbuns, entregues à Cinemateca em 2005, conservam centenas de fotografias de cartazes e do próprio artista a trabalhar.

Luís Furtado, nascido em Loulé em 1941 e falecido em 2021, chegou a Lisboa com treze anos e entrou num atelier de cartazes como ajudante. Pintou para o Condes, o Monumental, o São Jorge e o Alvalade. Recordava, entre outros, os cartazes de 'Camelot', 'O Vale do Arco-Íris', 'Jesus de Nazaré' e 'Willow'. 

As telas podiam atingir onze metros. Preparavam-se com farinha e pintavam-se com tinta de água. Terminada exibição, eram lavadas e reutilizadas. Em 1991, 'O Jornal' ainda cita vários profissionais da especialidade. No ano seguinte, o 'Público' apresentava-o já como «o último dos grandes pintores de cartazes».

O artigo de 28 de Junho de 1991 permite recuperar dois nomes quase esquecidos: João Teodoro e Carlos Dias. Uma fotografia da execução dos cartazes da fachada do Éden, em 1982, identifica ainda José Luís Seixas, acompanhado por Carlos Dias, Vicente Rita e Carlos Rodrigues. Outro texto documenta trabalhos no Cinema Castil, em Outubro de 1981.

Luís Furtado pertenceu também ao mundo da cenografia. Trabalhou para o Teatro Nacional de São Carlos, para o Teatro Maria Vitória, na televisão e em concursos como 'Jogos sem Fronteiras'. 

Esta arte começou antes destes homens. Não foram os fundadores, mas os últimos herdeiros de uma tradição nascida com os grandes palácios cinematográficos. Quando as salas fecharam, foram divididas ou substituíram a pintura por impressões fotográficas e processos informáticos, desapareceram também os ateliers e as enormes telas. 

Quase nada sobreviveu, porque os panos eram lavados e voltavam a servir. Restaram as fotografias das fachadas — e alguns nomes que agora tento fazer a sair do esquecimento.


Marina Tavares Dias



Alameda D. Afonso Henriques
 vista do cartaz de Cinema Império 
(Fotografia de Mestre Horácio Novaes, 1954)

A 'subida' do cartaz do Monumental 
na década de 1970

O Tivoli nos anos 50

O Condes em 1992

Roiz ao trabalho

Luís Furtado,
último dos grandes
artistas dos
cartazes lisboetas 




















OLD ENGLAND

Desde 1903 na esquina da Rua Augusta com a Rua de São Nicolau, o Old England tornou-se o primeiro grande ponto de referência da moda pronto-a-vestir de Lisboa.

Inicialmente ocupando apenas a loja e três andares do edifício, passou em 1908 para a firma Sarmento & C.ª, dirigida por Praxedes Sarmento Barata, comerciante que transformou o estabelecimento numa referência nacional da alfaiataria e confeção. O crescimento foi rápido: em 1914 foram acrescentados mais dois andares, mais tarde anexou-se o prédio contíguo, e a casa passou a dispor de elevador para os clientes, sinal de modernidade pouco comum no comércio lisboeta da época. 

Na década de 40 ocupava praticamente todo o edifício, distribuido pelas secções de camisaria e chapelaria, gabinetes de prova, oficinas e escritórios. A sua clientela estendia-se muito para além de Lisboa, graças ao sistema de encomendas para a província e à reputação dos seus fatos feitos por medida.

Durante quase todo o século XX, o Old England foi um dos grandes símbolos comerciais da Baixa. A publicidade apresentava-o como «rei da elegância», destacando qualidade dos tecidos, rigor do corte e competência dos seus mestres alfaiates. A esquina da Rua Augusta, com o lettering ao alto de toda a fachada, tornou-se imagem familiar para gerações de lisboetas, aparecendo em numerosas fotografias. 

Após décadas de prosperidade, a loja acompanhou o declínio do comércio tradicional. Encerrou em 1998, mas o edifício permanece na memória como grande centro comercial da Lisboa elegante. A esquina da Rua Augusta com a Rua de São Nicolau era ponto privilegiado de visibilidade, e as duas fachadas do gaveto funcionavam como um enorme painel publicitário. A própria arquitectura desaparecia quase por completo, sob os inúmeros títulos pintados.


Praxedes Sarmento Barata 

Publicidade da casa em
jornais de 1909


Publicidade da casa
em anuários e revistas 
(1937-1950)



terça-feira

COMO SE CHAMA A RUA?

Durante séculos, a designação das ruas de Lisboa foi essencialmente oral, de uso quotidiano e memória colectiva. 

A mudança para toponímia oficial surge no contexto da reconstrução após o Terramoto de 1755: ao longo da década de 1760, com a reorganização pombalina da Baixa, começam a ser fixados nomes oficiais e a marcar-se os arruamentos. As primeiras “placas” não eram peças aplicadas, mas inscrições gravadas directamente na pedra dos cunhais. 

Esse modelo manteve-se durante décadas, e ainda hoje podem ver-se exemplos na Baixa. Já no século XIX, com a necessidade de ordenar serviços de correio e polícia, generaliza-se a identificação sistemática das ruas e dos números de porta. Surgem soluções mais económicas, como inscrições pintadas (letras brancas sobre fundo escuro) nas fachadas, muito características de bairros antigos como Alfama e Castelo.

Ao longo do século XX, a diversidade aumenta, tornando mais fácil datar modelos. Placas de azulejo branco com filete e letras azuis difundem-se sobretudo a partir de 1910 (com maior expansão entre as décadas de 1930 e 40. Nos anos seguintes, começa o uso das placas de cantaria em lioz, gravadas e pintadas. São ainda o modelo mais comum, especialmente nas zonas de expansão urbana posterior a 1950. Nas décadas finais do século XX surgem variantes decorativas (placas com bordadura heráldica) e passa a ser frequente incluir legendas biográficas nos topónimos. 

A evolução das placas toponímicas de Lisboa não foi linear. Hoje em dia, restam sobreviventes de quase todas as épocas. Conhecer-lhes as diferenças permite um curioso passeio pela história da cidade.










NUNES & CORRÊA, ALFAIATES

Fundada em 1856, a firma J. Nunes Corrêa & C.ª foi das melhores alfaiatarias de Lisboa e uma das mais antigas de Portugal. Jacinto Nunes Corrêa (1830-1905), iniciou actividade como sócio de Manuel Igreja e de Jerónimo José de Abreu. Instalaram-se no ângulo da Rua Augusta com a Rua de São Julião. Segundo tradição da própria casa, Jacinto já estaria familiarizado com o ofício, que iniciara sob orientação paterna. Foi ele quem deu à empresa uma dimensão inédita, trazendo novidades regularmente de Paris e Londres, e escolhendo criteriosamente todos os tecidos que acompanhavam a moda masculina.

A Nunes & Corrêa destacou-se também pela modernidade das oficinas. Foram os primeiros comerciantes a importar directamente fazendas do estrangeiro e a introduzir em Portugal uma máquina de costura Singer. Na alfaiataria chegaram a trabalhar sessenta costureiras, dirigidas por seis contra-mestres de várias nacionalidades.

Dos alfaiates que passaram pelas oficinas destacam-se Miguel Pereira Lourenço, António Marques, Alfredo Augusto Faria, Alberto Pereira da Silva, Manuel Antunes Cabral e António Pena, vários dos quais viriam mais tarde a estabelecer-se por conta própria. A reputação da casa foi senrdo consolidada pelos sucessivos prémios. Em 1861, Jacinto Nunes Corrêa recebeu a medalha de mérito na exposição organizada pela Associação Industrial Portuguesa, distinção repetida em 1867, na Exposição Universal de Paris. Seguiram-se novos galardões em Paris, em 1878, e nas exposições do Rio de Janeiro de 1879, 1905 e 1908. 

O crescimento do negócio obrigou à transferência, em 1871, para instalações mais amplas na Rua do Ouro, números 40 a 42, (tornejando para a Rua de São Julião, 150 a 156). Em 1897, o aumento constante de clientela levou ainda à anexação dos números 46 a 48. Era então o maior complexo de alfaiataria da capital.

Entre os clientes havia muitas figuras conhecidas, como António da Costa e Silva, os condes de Arnoso e de Ficalho, Hermenegildo de Mendonça, o Actor João Anastácio Rosa, o marquês de Soveral e o escritor Ramalho Ortigão. A ligação à Casa Real tornou-se, por isso, praticamente inevitável. Segundo recorda Luís Pastor de Macedo, começou com uma encomenda do Infante D. Augusto, em 1880. O sucesso foi tal que a casa passou a vestir D. Luís, D. Amélia, o Príncipe Real D. Luís Filipe, o futuro Rei D. Manuel II e outros membros da família. Em 1900, por exemplo, a Rainha D. Amélia gastou ali 151$500 réis em casacos e ‘tailleurs’, e o Infante D. Manuel encomendou 310$000 réis de peças novas para o guarda-roupa.

Jacinto Nunes Corrêa morreu no dia 10 de Novembro de 1905, com setenta e cinco anos. A firma prosseguiu sob direcção dos colaboradores e dos sucessores, entre os quais Domingos José Ferreira Ribeiro, Jacinto Augusto Marques, Manuel Ferreira Ribeiro, Augusto José Ferreira Ribeiro, João Alberto Pinheiro, Alfredo do Nascimento, Eugénio Augusto, António do Nascimento, José Maria dos Santos, Adelino Gonçalves Ribeiro e Jacinto Ribeiro Pires de Sousa. Em 1919, após venda do edifício da Rua do Ouro (ao Bank of London & South America), a empresa transferiu-se para sede definitiva, na Rua Augusta, números 250-252 (esquina da Rua de Santa Justa), onde permaneceu durante o século seguinte. Mantendo a tradição iniciada em 1856, tornou-se a mais duradoura e respeitada alfaiataria portuguesa.

Após 1956, tomou a designação J. Nunes Corrêa & C.ª, Lda. O edifício foi remodelado em 1974 e classificado como imóvel de interesse público em 1978. A firma manteve-se ali até 2015, altura em que foi alvo de processo de despejo. As vendas continuaram on-line, mas o encerramento da centenária Nunes & Corrêa é dos episódios mais tristes na cronologia da Rua Augusta. 


Marina Tavares Dias 



A alfaiataria em 1885

Jacinto Nunes Corrêa 




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A Rua Augusta actual








O BABÁ AO RUM LISBOETA

Se há doce ao qual não consigo resistir é o babá. Raramente se encontra como sobremesa em restaurantes, mas há pastelarias em que por vezes o faço de sobremesa às refeições. Esse apetite levou-me também a querer conhecer a sua história — como nasceu em França e como depois se espalhou pelo mundo.

A narrativa clássica leva-nos à Polónia e à figura de Stanisław Leszczyński, rei deposto que viveu exilado em França, na Lorena. Conta-se que achava demasiado seco um bolo de tipo kugelhopf e terá mandado embebê-lo em vinho ou licor, dando origem à ideia do que viria a ser o babá. Esta tradição, tantas vezes repetida ao longo do século XIX em livros de cozinha e de pastelaria franceses, liga-se depois à corte de França: a sua filha, Maria Leszczyńska, casa com Louis XV em 1725, levando consigo hábitos, pessoas e gostos.

É aqui que entra a figura decisiva de Nicolas Stohrer, o pasteleiro  de Lunéville que acompanha a nova rainha quando esta se instala em Paris. Em 1730, funda a sua casa da Rue Montorgueil, a célebre Stohrer, frequentemente apontada como o primeiro local onde o babá se fixou como especialidade. A pastelaria parisiense, então em plena afirmação, era já um universo sofisticado, com técnicas codificadas, montras sedutoras e um público que começava a procurar o doce não apenas como complemento, mas como prazer em si mesmo. E o babá, com a sua textura leve e embebição alcoólica, encaixava perfeitamente nesse gosto novo: mais húmido, mais aromático, mais “luxuoso”.

Ao longo do século XIX, o doce aparece com frequência em tratados franceses, sob diversas formas — baba, savarin — e com variações de calda, licor e forma. Mas quando atravessa fronteiras, nem sempre mantém a mesma identidade.

Em Portugal, o rasto é mais discreto, mas não inexistente. Possivelmente a primeira receita entre nós surge com João da Matta, no livro Arte de Cozinha (1876), sob o nome “Babá Polonais”. A preparação difere bastante do que hoje reconhecemos: massa com farinha, fermento de cerveja, açúcar, sal, uvas passas de Corinto e de Alicante, cidrão, enriquecida com creme de leite, ovos, vinho da Madeira e manteiga. Não há ainda o banho generoso em álcool — trata-se de um bolo mais compacto, destinado a ser cortado à fatia.

No ano seguinte, 1877, surge o Cozinheiro dos Cozinheiros, de Paulo Plantier. No índice aparece “Baba”, mas na página correspondente lê-se “Bobas ao natural”, provavelmente por gralha tipográfica repetida. A massa é próxima da dos bolos sovados, enriquecida com uvas moscatel e de Corinto, cidrão e açafrão. Num acrescento revelador, o autor explica: “A boba com rhum, kirsch ou vinho da Madeira faz-se do mesmo modo…”, introduzindo já o princípio da aromatização alcoólica — ainda que integrada na massa, não como embebição final.

No virar do século, Carlos Bento da Maia, no Tratado Completo de Cozinha e Copa (1903), apresenta um “Babá polaco” mais elaborado, com doze ingredientes: farinha, ovos, levedura, açúcar, manteiga, uvas passas, leite-creme, açafrão para cor e vinho da Madeira. Continua a ser uma receita rica e complexa, mas ainda distante da leveza e da saturação líquida do modelo francês.

Só com Agarena de Leão, já nos anos 1920, encontramos aproximação mais clara ao babá moderno. A receita termina com uma indicação decisiva: “Desenforma-se depois para um prato, rega-se com rhum e serve-se.” Aqui, finalmente, o bolo é embebido depois de cozido — gesto essencial que define o babá como hoje o entendemos.

Esta evolução mostra bem o percurso do doce em Portugal: conhecido, adaptado, transformado — mas nunca verdadeiramente fixado na tradição das pastelarias. Ao contrário de Paris, onde o babá se tornou uma peça de vitrina desde o século XVIII, em Lisboa permaneceu mais como receita de livro e de cozinha doméstica ou erudita. Talvez por isso, ainda hoje, quando aparece, surge quase como descoberta — um luxo inesperado. Embora seja já raro que nele seja usado o rum da receita original.

É talvez essa raridade que explica o fascínio. Não é apenas um doce: é uma promessa. Uma memória de Paris, da sua pastelaria brilhante, das vitrinas da Rua Montorgueil — e, para alguns de nós, a desculpa perfeita para escolher o sítio onde jantar.


Marina Tavares Dias




Os deliciosos babás do Galeto,
na Avenida da República




CHAPÉUS HÁ MUITOS

  «Chapéus há muitos, seu palerma!» A frase de Vasco Santana atravessou gerações e continua a ser repetida muito depois de os chapéus terem ...