Há cem anos, na madrugada de 31 de Março de 1926, Lisboa acordava para um crime que rapidamente se tornaria obsessão pública: o assassinato da actriz de revista Maria Alves, figura conhecida do meio teatral do Parque Mayer. O corpo foi encontrado na Rua Francisco Foreiro, ao Regueirão dos Anjos, com sinais evidentes de violência. A autópsia confirmou o essencial: morte por estrangulamento, com luta. Não fora um ataque furtivo, mas confronto físico e próximo.
Nos dias seguintes, o ‘Diário de Notícias’, ‘O Século’ e outros jornais alimentaram a cidade com versões, hipóteses e rumores. Falou-se de um “gravateiro” interessado nas joias da actriz, de vingança amorosa vinda do Porto, de crime cometido noutro local com posterior transporte do corpo. Perguntava-se: teria morrido ali, ou fora deixada já sem vida? Quem era o homem que deu o alerta? Onde estava o sapato desaparecido?
A investigação policial avançava lentamente, ouvindo vizinhos, colegas de teatro e conhecidos do empresário Augusto Gomes, companheiro da vítima, residente no Conde de Redondo.
O funeral, realizado no Sábado de Aleluia de 1926, foi, em si mesmo, um espectáculo de rua . Centenas de pessoas acompanharam o féretro desde a morgue até ao Cemitério dos Prazeres. O Grémio dos Artistas de Teatro organizou todas as cerimónias; vieram familiares do Porto; não faltaram coristas, actores e curiosos. Nas fotografias desse dia vislumbram-se algumas celebridades, como Luiza Satanela. O cortejo fez dezasseis turnos até à sepultura, prolongando-se por toda a tarde. Entre os presentes, Augusto Gomes destacava-se: emocionado, trazendo flores com dedicatória à “querida companheira”. Semanas depois, esse ramo seria retirado da tumba. Durante o funeral, um pequeno ladrão foi detido por suspeita: tinha um arranhão no rosto. Poucos repararam que Gomes apresentava marcas semelhantes, explicadas como resultado de noites agitadas e interrogatórios no Governo Civil de Lisboa, de onde saía sempre em liberdade.
A imprensa não largava o caso. Pressionava a polícia, acusando-a de inércia. Era uma verdadeira competição entre jornais, que transformaram o crime em novela diária. Paradoxalmente, seriam os próprios jornalistas a dar a pista decisiva: a ligação ao taxi nº 9297 e ao seu ‘chauffeur’, João Fernandes. A investigação fechou o cerco. Confrontado, Augusto Gomes acabou por confessar. O motivo era clássico: ciúme. “Fiz o que qualquer homem de bem faria. Matei-a porque me atraiçoava”, declarou.
O julgamento, iniciado cerca de 20 meses depois (final de 1927), foi mais um espectáculo público. A sala enchia-se como nas noites de estreia. Compareceu até Miquelina, a mulher legítima de Gomes, firme ao lado do marido. O tribunal condenou-o inicialmente a 25 anos de degredo. O taxista, arrastado para o processo, acabaria afastado da responsabilidade principal.
O caso não terminou no tribunal. Tornou-se fenómeno cultural: livros, peças, folhetins e o filme ‘O Táxi nº 9297’, inspirado nas reportagens de Reinaldo Ferreira, então activo na imprensa diária. Outros nomes, como António Ferro, também exploraram o episódio. Até a tradição popular reagiu: um folheto vendido a cinco tostões divulgava o “grande e horrível crime”, acompanhado de cantigas como ‘Tumba Fria’ e ‘Fado da Maldição'.
Assim se construiu um dos primeiros grandes escândalos mediáticos que Lisboa conheceu. Imprensa, espectáculo e justiça confundiram-se entre si. A cidade inteira participou, venderam-se milhares e milhares de jornais. Há exactamente um século, estava inaugurada a era do jornalismo sensacionalista.

Sem comentários:
Enviar um comentário
Obrigados pelo seu comentário. Aquilo que os leitores nos dizem é da máxima importância. Se quiser denunciar plágios ou cópias de imagens ou informações, por favor deixe explicito qual o site ou perfil que devemos investigar.