Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

segunda-feira

O JORNAL QUE LISBOA ESQUECEU

Em 1911, juntamente com ‘O Século’ e ainda antes do ‘Diário de Notícias’, o diário ‘O Mundo’ inaugurou a transformação toponímica que visava homenagear a Imprensa da cidade. Três grandes jornais deram novas designações às ruas onde estavam situados: Rua Formosa (‘O Século’), Rua de S, Roque (‘O Mundo’) e Rua dos Calafates (‘Diário de Notícias’).

‘O Mundo’ foi um dos títulos mais influentes da imprensa dita progressista. Fundado em 1900 por França Borges, defendia claramente o Partido Republicano. Destacava-se pela linguagem directa, irónica e muitas vezes violenta. Atacava a corrupção da política e a rotatividade dos partidos, preparando o ambiente ideológico que conduziria à implantação da República.

Em Outubro de 1910, o jornal não perdeu relevância: passou a criticar também divisões internas entre republicanos. Manteve-se próximo de correntes jacobinas e anticlericais. Era lido por uma classe média urbana e politizada, e muitos dos leitores apreciavam-lhe, sobretudo, os repetidos excessos panfletários. 

A instabilidade política da Primeira República reflectiu-se nas páginas do jornal. Pouco depois, a morte de França Borges, em 1912, agravou a situação. Com o golpe militar do 28 de Maio de 1926, que instaurou a ditadura militar (e depois o Estado Novo), seguiu-se o destino previsível. A censura apertou, sobretudo, a imprensa considerada combativa. Jornais identificados com o republicanismo e com a agitação política tornaram-se alvos preferenciais.

'O Mundo’ acabaria por desaparecer em 1927, na sequência da repressão e das dificuldades financeiras agravadas. Foi o fim de um certo tipo de jornalismo, mais directamente empenhado na luta política quotidiana. Durante uma década decisiva, este tipo de Imprensa estivera no centro da transformação política que levou à queda da Monarquia. A nova ditadura não tolerou tais excessos, e tudo correu de feição a que ‘O Mundo’ desaparecesse da memória de Lisboa. 

Um branqueamento total seria feito, depois, na toponímia. Outros jornais foram respeitados, mas ‘O Mundo’ rapidamente se fez designação inconveniente. A Câmara decidiu retirar a homenagem e, no final da década de 20, atribuiu novo topónimo (mais um) à artéria: Rua da Misericórdia. 

A meio da subida, do lado esquerdo, o edifício do jornal foi sendo reaproveitado sem grande critério, até ficar totalmente em ruínas. Chegou a albergar jornais ligados ao regime do Estado Novo, como o ‘Diário da Manhã’ e ‘A Época’. O globo que adornava a fachada foi apeado e os pisos inferiores, feitos para tipografia de grandes tiragens, perderam a utilidade. 

Mas o destino tem estranhas reviravoltas e a história não fica por aqui. Muitos anos depois da queda do regime que determinou o fecho do jornal, a morada de ‘O Mundo’ alberga agora a Associação 25 de Abril.




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