Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

quinta-feira

DE GERMÂNIA A PORTUGÁLIA



A pequena cervejaria primitiva da fábrica da Avenida Almirante Reis — ainda sob o nome de Germânia — não nasceu como casa autónoma, mas como apêndice directo da produção. Já em 1911–1912, quando a nova unidade industrial se instala no grande quarteirão, existia, no interior do pátio, junto ao gaveto da Rua Pascoal de Melo, um espaço modesto onde se servia cerveja aos clientes que ali iam comprar barris. 

Era um lugar funcional, quase improvisado, mas com uma vida própria. Quem entrava na fábrica — atravessando o movimento dos carros, das pipas e dos operários — encontrava ali um abrigo fresco, de mesas simples, onde se provava a cerveja antes de a levar. Não era ainda a cervejaria monumental inaugurada em 1925, mas um núcleo inicial, íntimo, quase secreto, cuja existência é confirmada por fotografias de interior hoje raras. 

Esse primeiro espaço tinha um carácter muito particular: misturava o ambiente industrial com o gesto social do beber. O cheiro do malte e da fermentação entrava pelas portas abertas; a cerveja era literalmente bebida no lugar onde nascia. Não havia separação entre fábrica e consumo — apenas um pátio onde o comércio se fazia de forma direta e quase artesanal.

Na memória da cidade, esse cheiro persistiu muito para além desse tempo inicial. Ainda na década de 1960, quem passava na Avenida Almirante Reis reconhecia imediatamente a presença da fábrica pelo odor intenso, quente e adocicado, que se espalhava pela rua — uma espécie de assinatura invisível daquele quarteirão industrial, tão forte quanto qualquer fachada.

Depois, como tantas estruturas fabris de Lisboa, o espaço entrou numa fase de transição, quando a produção foi deslocada para a Vialonga. Partes da antiga fábrica foram sendo reutilizadas. Na década de 1970, instala-se ali uma companhia de teatro, A Barraca, fundada em 1975, representativa do movimento de teatro independente que procurava espaços alternativos e precários para ensaio e criação. É um contraste quase perfeito: onde antes se provava cerveja entre barris e vapor, surgem actores, cenários improvisados e palavras ditas em liberdade. O pátio industrial transforma-se em palco. Na década de 1990, abriu um centro comercial no gaveto sul, em edifício entretanto construído. Hoje, todo o quarteirão, maioritariamente demolido, espera solução urbanística. A cervejaria, agora com sucursais, continua sempre cheia.

Assim, aquela pequena loja inicial — parte da fábrica — acabou por ser o primeiro gesto de uma longa história de apropriações: do fabrico ao convívio, do convívio ao teatro, do teatro ao comércio a retalho e da indústria à memória.


Nas imagens: o quarteirão na época da Germânia, ainda com o gaveto por construir, e a primeira versão da Cervejaria Portugália, ainda com pátio e esplanada.





Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigados pelo seu comentário. Aquilo que os leitores nos dizem é da máxima importância. Se quiser denunciar plágios ou cópias de imagens ou informações, por favor deixe explicito qual o site ou perfil que devemos investigar.