A actual Rua da Escola Politécnica, antes de fixar o topónimo com que é conhecida, foi sendo muitas ruas dentro da mesma rua. Mudaram-lhe designações como mudavam os tempos, os donos, as ambições, os pontos de referência. Para quem subia para o Rato, aquele troço ainda guardava, em pleno século XVIII, qualquer coisa de arrabalde e de quinta, mesmo quando já se começava a vestir de arquitectura urbana. Entre muros, terrenos fundos e casas que olhavam a cidade com prudência, foi ali que se ergueu a grande morada dos Cruz Alagoa.
O fundador não vinha de linhagem antiga. Era produto de «dinheiro novo» bem conduzido, da oportunidade aproveitada a tempo, da inteligência prática que cresce à sombra do poder. José Francisco da Cruz fizera caminho depressa. Filho de condição modesta, passara pelo Brasil, pelo comércio, pelos contratos, pelas companhias, pelos cargos da Fazenda, até se transformar num daqueles homens que, sem terem nascido nobres, começavam a viver como se o fossem há gerações. A casa que mandou levantar dizia precisamente isso: não era um palácio no sentido pleno, mas já não era apenas uma habitação rica. Era uma declaração.
A fachada longa, severa, quase sem adornos, impunha-se menos pelo luxo do que pela extensão. Havia nela qualquer coisa de disciplinado e obstinado, como se a pedra quisesse convencer a cidade da respeitabilidade dos donos. Por dentro, a sobriedade abria-se em acomodações amplas, salas de aparato, capela privativa, criadagem numerosa, carruagens, pratarias, louças orientais, espelhos, música, jogos e a arte delicada de receber. Não se tratava só de morar: tratava-se de ocupar um lugar no mundo.
Como sempre nas fortunas erguidas com rapidez, também esta teve alguma coisa de precário. O fundador mal chegou a usufruir da sua obra. Morreu poucos anos depois de concluída a casa, deixando viúva, filhos, rendimentos, prestígio e também tensões, dependências e interesses familiares que não costumam tardar quando o dinheiro é muito e os afectos poucos. A residência continuou viva, mas já como cenário de continuidade imperfeita. Entravam e saíam moradores de nome sonante, fidalgos arrendatários, viúvas ilustres, generais, condes, marquesas, funcionários régios, gente de brasão e renda, como se o edifício, nascido de uma ascensão social, precisasse de títulos alheios para confirmar o estatuto que a origem lhe não dera inteiramente.
Entretanto, a própria Lisboa mudava em redor. O que fora espaço de transição entre a quinta e a cidade tornava-se cada vez mais urbano, mais atravessado, mais exposto à circulação das classes, dos negócios e das modas. E foi nesse ambiente, já a meio do século XIX, que o lugar conheceu o que deu História aos terrenos anexos: a célebre Floresta Egípcia.
O nome, só por si, bastava para prometer um mundo. Não era floresta, nem egípcia, e daí o seu encanto. A Lisboa oitocentista tinha fome de exotismo, de surpresa, de espectáculo, de qualquer simulacro que quebrasse a monotonia do quotidiano. A Floresta Egípcia respondeu a esse desejo com a imaginação de uma feira tradicional. Havia lagos, palmeiras, quiosques, refrescos, música, dança, pequenos engenhos de diversão, iluminações, fogo-de-artifício, teatro e um ar de fantasia acessível, onde se misturavam famílias, namorados, curiosos, janotas e basbaques.
O seu criador, José Osti, italiano de expediente e invenção, parecia personagem saída do próprio recinto. Pirotécnico, industrial, homem de iniciativas brilhantes e finanças menos seguras, trouxe a Lisboa esse gosto de maravilha mecânica e luminosa que faz as multidões esquecer por algumas horas a gravidade dos dias. A Floresta era menos jardim do que máquina de espanto. Lisboa, que tantas vezes se aborrecia de si mesma, ia ali beber capilés, ouvir a orquestra, ver as luzes e entregar-se à ilusão de estar noutro sítio — mais moderno, talvez mais europeu, ou simplesmente mais alegre.
Também ali houve acidentes, falências, exageros, improvisações. A mesma matéria inflamável que alimentava o deslumbramento serviu de presságio e ruína. Um episódio absurdo e triste: um rapaz com a roupa em chamas atirado ao lago, e a morte onde se esperava apenas o susto. Resumo quase simbólico da fragilidade daquele universo. Brilhava muito mas ardia depressa.
Desaparecida a Floresta Egípcia, ficou o eco. E o velho edifício, sobrevivendo aos seus donos, aos seus inquilinos e às modas da cidade, entrou noutra fase da existência quando passou para as mãos de José Vaz Monteiro. Médico de formação, agrário, político, capitalista, homem de múltiplos interesses, foi a figura mais forte a habitar a antiga casa depois da linhagem fundadora. Com ele, o edifício recuperou a centralidade social que parecia perdida: jantares longos, serões musicais, luzes, flores, damas de toilette apurada, convidados em abundância. O lugar voltou a representar alguma coisa no teatro da capital.
Mas era já outro século. Na antiga casa nobre, que nascera quase rural, que se fizera palácio por aspiração e costume, começava lentamente a entrar a dança do tempo. À volta abriram-se ruas, fraccionaram-se terrenos, passaram companhias, sociedades, instituições, proprietários. O que fora domínio contínuo tornou-se parcela. O que fora jardim imaginário acabou loteado. O que fora memória de família converteu-se em imóveis adaptáveis.
Hoje, ao olharmos aquela massa comprida e transformada, custa imaginar tudo o que ali coube: a ambição de um negociante protegido pelo poder, a devoção doméstica de uma capela privada, criados e cocheiras, fidalgos arrendatários, crianças expostas acolhidas de passagem, música de 'soirées', risos da feira romântica, clarões de fogueteório, decadência lenta dos interiores. No entanto, a cidade é assim mesmo: sucessão de vidas sobrepostas, palco onde as pedras ficam e os enredos se substituem.
Da Floresta Egípcia não resta a frescura inventada dos lagos nem a prometida sombra das palmeiras. Ficou apenas o nome histórico que ainda parece abrir, por instantes, uma porta improvável no coração da História de Lisboa. Cheira a artifício, a Verão, a infância. E talvez seja essa a sua última verdade: ter sido menos um lugar real do que um sonho urbano. Breve e cintilante, na cidade que nunca deixou de gostar de se imaginar maior do que era.
