Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

segunda-feira

OS MENINOS DAS RENDAS

Lisboa ainda falava francês. E chique era chamar, às "rendas", "dentelles". E enobrecer com o vocábulo "marchands" o duro ofício de (sobre)viver destes miúdos da rua. Miúdos que o sagaz olhar do fotógrafo colheu ao acaso. Uma pausa no ambulante dia de dois trabalhadores quase crianças. Após ela, tudo lhes terá sido como dantes. Ou como imediatamente depois. Mas esta pausa que não lhes terá ocupado mais do que uns breves minutos no calcorrear da jornada, transcenderia, afinal, o instante. Eles não sabiam. Julgavam - sem o julgar talvez - que olhavam apenas o fotógrafo. E afinal, vai-se a ver, posavam para a posteridade. Graças a este postal. Porque hoje, 120 anos depois, tudo se foi: os dois miúdos e o fotógrafo, as rendas e o que terão enfeitado, a própria máquina fotográfica que embalsamou o tempo, este cidade até, que na sua alma é já outra. Resta o que resta: um postal e o olhar deles. Dos dois miúdos que, entre o recesoso e o desconfiado, um dia olharam o fotógrafo, sem saberem que seria a nós quem, num futuro longínquo e inimaginável, iriam olhar. Porque, postados outrora na calçada de uma rua qualquer, hoje é a nós que eles nos olham. Nos olhos. De frente. Desafiando-nos o imaginário. Até quando Lisboa terá ouvido o pregão das rendas?



'Os Melhores Postais de Lisboa', 

de Marina Tavares Dias, 1995

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