Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

terça-feira

A FÁBRICA DE TABACO DE XABREGAS

 Fora um filme, desses dos primitivos Lumière (ou do nosso Aurélio Paz dos Reis) e o título poderia ser «À Saída da Fábrica...». Da Fábrica de Tabacos de Xabregas, neste caso, a fazer fé na legenda do postal. Mas, porque é um postal e não um filme, em vez de título há legenda e em vez de quem sai da fábrica temos a fábrica tão somente. E quem nela trabalha? Ao fotógrafo (e ao editor) tal não parece ter interessado. O filme, de quem saísse, em primeiro (talvez trémulo) plano, daria o rosto. No postal rostos não há: apenas vultos, silhuetas, a mole confusa dos operários - anónimos. Que fazen eles (e elas) ali à porta? Será que saem? Será que entram? Ou será que não entram nem saem - estão em greve, por exemplo, contra o alongado horário, a dureza do labor, a má paga do salário? Não sabemos. Em frente da fábrica está uma guarita e, junto dela, percebem-se dois homens a cavalo. Soldados? Talvez. Com um deles fala uma mulher. Que se irá passar? Nunca o iremos saber. Os parcos dizeres deste postal dizem tudo. Ou nada: aqui não há antes, nem depois, porque essa água que corre do destino das gentes não a quis fixar o fotógrafo. Apenas a fábrica, que aliás mal se vê. Ah, se, paralela à História, houvesse uma História dos Olhares.






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