Estarão quase a chegar, ou terão já partido, após um dia inteiro de trabalho e de pregões? Este aspecto da Praça da Figueira é, sem dúvida, pouco comum. E, vá lá saber-se porquê, foi escolhido para o único postal que ostenta fotografia do interior do mercado. De longe, ainda há quem repare no retrato.
Mas cestos pousados sobre bancas vazias sugerem o final de tarde de um dia de Verão. Ninguém se lembra da praça assim. Porque ela seria, sobretudo, o seu recheio, o seu ruído. As manhãs apressadas ou - uma vez por ano - grinaldas, balões, tronos de Santo António. Bailes, mangericos, banda desafinada.
Memórias difusas para gerações posteriores à demolição de 1949. Para estas, a única referência imediata parece ser uma imagem de Maria das Neves no filme "O Pátio das Cantigas": "Senhora Rosa, chegou a sua filha!". Vendida em hasta pública e arrematada ainda de pé, a construção de ferro e vidro foi desmantelada para sucata. Muitos anos depois, houve quem afirmasse tê-la visto reconstruída em Inglaterra ou numa obscura parte do continente africano. Lendas que o imaginário confere ao que não quer perder.
Não há tema mais procurado, nos postais topográficos de Lisboa, do que a Praça da Figueira. De certo modo, ela nunca foi abaixo. Os mitos, como as árvores, morrem sempre de pé.

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