Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

sábado

A RIBEIRA DE ALCÂNTARA

A ribeira de Alcântara nasce nos terrenos altos da Falagueira, onde vários regatos dispersos se juntam e começam a desenhar um vale contínuo que desce para Lisboa. Não é uma nascente única, mas antes uma rede de pequenas linhas de água que, reunidas, ganham direção e corpo. 

A partir daí, o curso segue pela Damaia e por Alfragide, num corredor natural ainda hoje perceptível na topografia: uma depressão larga, com Monsanto a nascente, que conduz inevitavelmente para sul.

Ao aproximar-se de Lisboa, a ribeira entra pela zona das antigas Portas de Benfica, acompanhando de perto a estrada que ligava a cidade ao exterior. Durante séculos, este troço foi rural e pontuado por quintas muradas — Casquilha, Feiteira e outras — que tiravam partido da água e dos solos férteis do vale. Aqui, a ribeira corria a céu aberto, cruzada por pequenas pontes, como a de São Domingos de Benfica, integrando-se na vida quotidiana: lavadeiras, hortas, caminhos de terra batida.

Mais adiante, o vale abre-se e ganha amplitude na zona de Sete Rios, preparando a entrada em Campolide. É neste ponto que a ribeira atinge a sua expressão mais marcante. O vale de Alcântara, largo e bem definido, constitui uma verdadeira estrutura natural da cidade, atravessado pelo Aqueduto das Águas Livres, cuja arcaria monumental domina a paisagem. 

No fundo, a ribeira serpenteava entre quintas como a da Rabicha, delimitando campos e caminhos, num cenário ainda profundamente rural até ao século XIX.

Com a modernização de Lisboa, este mesmo vale tornou-se corredor de infraestruturas: primeiro a ferrovia, depois as grandes avenidas. A ribeira foi sendo canalizada, ocultada sob a cidade que ela própria ajudara a organizar. Contudo, o seu percurso mantém-se legível. 

Do alto da Falagueira até ao vale de Campolide, é ainda a linha invisível que estrutura o território, um rio enterrado que continua a dar forma à geografia de Lisboa.







quinta-feira

O ANIVERSÁRIO DE CASTILHO

A 30 de Abril assinala-se o aniversário de Júlio de Castilho, nascido em 1840. Uma das figuras mais persistentes e apaixonadas na fixação da memória de Lisboa. Filho do escritor António Feliciano de Castilho, cresceu em ambiente culto, mas foi na observação da cidade que encontrou o seu território literário. Percorreu ruas, recolheu tradições, anotou topónimos, ouviu histórias e fixou tudo com um detalhe que continua insubstituível.

A sua ‘Lisboa Antiga’ é o grande repositório duma memória feita de bairros, pátios, igrejas, hábitos e personagens, onde a erudição convive com o gosto pelo pormenor curioso. Embora se dedicasse ao levantamento de episódios históricos, Castilho não era só um investigador de gabinete: fez-se caminhante na cidade, e também escrevia a partir do terreno. Sem ele, muito do que sabemos sobre a Lisboa oitocentista teria simplesmente desaparecido, diluído nas transformações urbanas e no esquecimento.




Júlio de Castilho 
fotografado por 
José Artur Bárcia
no quintal da sua casa, no Lumiar.
Em cima, com o retrato do pai.
Em baixo, ao lado de fotógrafo 




terça-feira

A PRIMEIRA DÉCADA DO PRIMEIRO LIVRO

Em:

«JORNAL DE LETRAS»

(1997)



A "Lisboa Desaparecida" completa a sua primeira década. Pedem-me agora que sobre ela escreva, o que se me afigura tarefa espinhosa: nunca tal fiz, ao longo de todo este tempo.
[.../...]

Naquela época, julguei fácil convencer uma editora a investir nos textos do "Popular" (alguns, entretanto, publicados também no "Expresso"), porque contavam já com o que eu julgava ser um público fiel. Ninguém embandeirou em arco, houve hesitações e recusas até ao dia em que, sentada à minha secretária na Redacção, recebi uma chamada: "Somos uma editora nova e gostamos imenso das suas páginas de Sábado". Meses depois, eu e essa "editora nova" estávamos a lançar o primeiro volume da "Lisboa Desaparecida" no Café Nicola.

Muito pouco daquilo que era o meu estilo desse tempo (aos vinte e poucos anos) permanece. Muito pouco do que foram as motivações iniciais é hoje prioritário. Desapareceu o "Diário Popular" - o seu público fiel onde estará? -, a enorme Redacção em «open-space» está vazia, o precioso arquivo talvez perdido. O Bairro Alto deixou de ser o bairro dos jornais e os diários vespertinos cumpriram o seu ciclo temporal. Agora, existe mesmo uma "Lisboa Desaparecida" onde eu vivi. [...].


Marina Tavares Dias



Marina Tavares Dias 
com Eduardo Guerra Carneiro, 
na Redacção do
DIÁRIO POPULAR, 
no ano do lançamento 
do primeiro livro 













segunda-feira

SOUSA MARTINS: SANTIDADE IMPROVÁVEL

No Campo de Santana — hoje Campo dos Mártires da Pátria — ergue-se um dos monumentos mais estranhos de Lisboa. Não pela forma, mas pela paradoxal história que o rodeia. O de José Tomás de Sousa Martins não é apenas uma estátua: é um lugar de culto. E isso começa logo na sua morte, em 1897. 

A comoção foi imediata. Médico dos pobres, professor na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, figura respeitada mas sem qualquer aura religiosa em vida, Sousa Martins morre relativamente novo e em circunstâncias trágicas. O funeral transforma-se numa manifestação de massas. Não é ainda devoção organizada, mas já não é simples homenagem. 

Há ali qualquer coisa de mais fundo: uma transferência afectiva directa, quase visceral, de quem dele ouviu falar. Nos meses seguintes, surge no Campo de Santana um primeiro monumento (hoje quase esquecido) de carácter alegórico. Representava a Ciência, a Caridade, o Povo, a Pátria. Tudo na base, com a figura do homenageado pelo meio. Académico, retórico, perfeitamente alinhado com a escultura oficial do tempo, falhou no essencial. O povo não queria alegorias. Queria-o a ele.

Porque, entretanto, algo de mais inesperado estava a acontecer: começava a fervorosa devoção popular. Não lenta, não construída: imediata. Crentes que acendiam velas, faziam promessas, atribuiam curas. Sem Igreja, sem canonização, sem doutrina. Um médico laico, formado no ambiente positivista de Lisboa académica, passa a ser tratado como intercessor. Esse milagre nunca mais desaparece.

Em 1904 inaugura-se o monumento definitivo, de Costa Motta (tio). A mudança é total. Sousa Martins surge no alto, reconhecível e próximo do real. A composição deixa de ser programa simbólico e passa a ser presença visível. Não se trata apenas de escultura, é mote de uma relação. Continuaram a arder velas aos seus pés e começaram a acumular-se placas de mármore com nomes, pedidos e agradecimentos. Como se a estátua fosse uma espécie de alternativa à imagem de S. Judas Tadeu. Isto já seria notável. Torna-se ainda mais quando se lê o que ele próprio escreveu.

No volume ‘Antero de Quental – In Memoriam’ (no ensaio “Nosographia de Anthero”), Sousa Martins analisa Antero de Quental com uma frieza quase desconcertante. Não há ali tragédia metafísica, nem génio incompreendido. Há diagnóstico. Antero é, para ele, “um nevropathico”, dominado por “uma nevrose profunda, essencialmente cerebral”. O seu pessimismo não é filosofia: é “uma forma mórbida da sensibilidade”. A obra não explica o homem — é a doença que explica a obra. E o suicídio não é escolha: é “o termo fatal de uma evolução mórbida”.

É o positivismo oitocentista em toda a sua glória, no seu momento mais seguro de si: tudo reduzido ao sistema nervoso, ao determinismo biológico, à causalidade clínica. Não há alma autónoma, não há transcendência. É esse mesmo homem, que pensa assim, que recusa implicitamente qualquer sobrevivência espiritual, que se torna, após morrer, aquilo em que nunca acreditou: presença para além da morte.

O contraste entre a realidade e a imaginação popular não podia ser maior. De um lado, o médico que explica o espírito pela matéria. Do outro, o povo que transforma essa matéria em espírito. Entre ambos, um monumento que começou por ser alegoria e acabou por ser ícone à escala humana, disponível para a conversa silenciosa de quem ali vai pedir.

Tudo isto torna o caso de Sousa Martins único em Lisboa: não é apenas o culto popular, nem apenas a memória cívica. É uma espécie de curto-circuito entre duas formas de ver o mundo. Nesse choque, foi a visão mais antiga — a da necessidade de acreditar — que venceu.




O primeiro monumento a Sousa Martins,
que não granjeou simpatias, 
e a construção do que
ainda está no Campo de Santana 
(fotografias de José Artur Bárcia)


sábado

O FADO DE MARIA VICTORIA

Maria Victoria (María Victoria Pajarrón López) nasceu em Málaga, a 13 de Março de 1888, e veio ainda criança para Lisboa, trazida pela mãe. A sua formação fez-se em ambiente religioso, num convento onde aprendeu com facilidade, revelando inteligência e curiosidade pouco comuns. Esse mesmo espírito inquieto, que nunca se acomodaria a regras rígidas, levou-a a abandonar cedo a instrução, como se desde logo tivesse a vida destinada a cenários menos disciplinados e mais intensos.

Há quem tenha escrito que não soube corresponder a um grande amor que lhe foi dedicado na juventude. Que nela conviviam, de forma quase paradoxal, um sentimentalismo herdado da formação religiosa e a sensualidade espontânea que a empurrava para a boémia. Passou a dedicar-se inteiramente ao fado, canção urbana que então se afirmava como expressão maior da alma popular.

Começou em feiras e festas, nas noites de estúrdia das hortas e das tabernas. A sua voz, cavada e melancólica, tornava-a singular, e o público, sobretudo feminino, acolheu-a com entusiasmo. Para muitas mulheres, Maria Victoria encarnava uma liberdade ainda difícil de alcançar: era independente, dona de si e vivia fora de todas as convenções.

Um dos centros do seu quotidiano foi a taberna Flor da Boémia, na Travessa da Espera, coração do Bairro Alto. A casa pertencia a Joaquim Rato, com quem manteve ligação amorosa. Dessa relação nasceu um episódio dramático: o filho de Rato apaixonou-se também por ela. Sem ser correspondido, foi consumido pelo desgosto, vindo a morrer tuberculoso, de ‘tísica do abandono’, como então se dizia.

Em torno de Maria Victoria formou-se enorme roda de admiradores, jovens boémios, galãs de ocasião, que se sucediam nos arremedos do coração da fadista. Amada por tantos, terá amado pouco; as suas paixões maiores foram sempre o fado e o teatro musical.

A estreia em palco ocorreu no Casino de Santos, às Janelas Verdes, onde um crítico do jornal ‘Polichinelo’ a refere, ainda em 1908. Passaria depois pelo Salão Phantástico, na Rua dos Condes, onde a sua natureza impetuosa deu azo a episódios de rivalidade, incluindo altercações com outra actriz. Não sendo grande intérprete no sentido clássico, era, no entanto, artista de palco eficaz e presença que o público reconhecia e aplaudia. 

Foi Luiz Galhardo quem melhor soube aproveitá-la, integrando-a na revista ‘O 31’ (1913), levada à cena no Teatro Avenida. O “Fado do 31”, cantado por Maria Victoria, alcançou um dos maiores êxitos da história da revista portuguesa. Noutras interpretações, que cruzavam tradição e teatralidade, a fadista evocava figuras como Maria Severa ou Ângela Pinto. A popularidade do ‘31’ manteve-se, e ultrapassou fronteiras, chegando a Espanha em partituras Sassetti.

Doente de tuberculose — mal que então devastava meios artísticos e populares — chegou a recolher ao sanatório do Caramulo, de onde fugiu, incapaz de abandonar o palco. Continuou a actuar enquanto pôde, mesmo com a saúde debilitada. Numa viagem para o Porto, onde iria apresentar-se com ‘O 31’, uma noite húmida agravou-lhe o estado. Poucos dias depois, a 30 de Abril de 1915, morria em Lisboa, na Rua Neves Piedade, com apenas 24 anos.

O ‘Diário de Notícias’ noticiou a morte em poucas linhas e com sobriedade quase indiferente, referindo apenas a graça com que desempenhava pequenos papéis. O enterro, para o cemitério de Benfica, foi acompanhado por colegas como Zulmira Miranda e Adelaide Costa. Mais tarde, um antigo apaixonado trataria da trasladação dos seus restos mortais, episódio rodeado de pequenas histórias, como a do brinco desaparecido e afinal encontrado entre os cabelos da caveira.

Ficaram dela fotografias, partituras, referências em críticas teatrais e, sobretudo, uma recordação perene na memória de quem a viu e ouviu. Entre a lendária Maria Severa e a futura Amália Rodrigues, Maria Victoria ocupa um lugar intermédio, quase mítico, da história do fado. Viveu pouco (apenas sete anos de palco), mas o suficiente para deixar nome.

A sua maior consagração viria em 1922: uma das salas de espectáculos do recém-criado Parque Mayer passou a chamar-se Teatro Maria Vitória, perpetuando a memória dessa figura breve e intensa. 

Ao longo do século XX, o Maria Vitória manteve-se como um dos centros da revista à portuguesa, sobrevivendo a crises e incêndios. Permanece como testemunho do tempo em que uma rapariga rebelde e frenética deu voz ao fado de Lisboa.





quinta-feira

A LISBOA DE EMÍLIO BIEL

Estas duas imagens — Avenida da Liberdade (N.º 82) e Praça de D. Pedro IV (N.º 72) — pertencem a um momento muito preciso da fotografia portuguesa: a maturidade da casa de Emílio Biel, na viragem do século XIX para o século XX. São a parte mais rara (Lisboa em estereoscopia) do seu sistema de produção de imagens com numeração, legenda e marca editorial.

Emílio Biel, alemão de origem, instala-se no Porto na década de 1860 e, a partir de 1874, ao adquirir a antiga Fotografia Fritz, transforma-se numa verdadeira fábrica de produção de imagens. O estúdio deixa de ser apenas espaço de retratos e passa a funcionar como oficina múltipla: fotografia de vistas, documentação industrial, edição e circulação. A marca “Emílio Biel & C.ª – Porto”, impressa lateralmente, é o selo dessa organização.

As fotografias mostram Lisboa num tempo de transição. A Avenida da Liberdade, aberta anos antes, ainda tem o carácter ajardinado, com árvores jovens, bancos alinhados e circulação pedonal tranquila. A presença da água, do gradeamento e das alamedas revela um espaço a afirmar-se como ‘boulevard’ moderno. O Rossio é um palco urbano. O quiosque com publicidade visível e a circulação de figuras mostram uma cidade viva mas ainda longe da densidade do século XX.

Tecnicamente, são provas fotográficas (albumina) montadas em cartão, com legenda tipográfica. Não são fototipias de álbum de grande circulação, mas também não seriam provas únicas: pertencem a série numerada, provavelmente vendida em livrarias e tabacarias. A numeração (72, 82) sugere um conjunto mais vasto, hoje apenas parcialmente conhecido, onde Biel organizava o território (Porto, Lisboa, outras cidades e paisagens) como reportório visual coerente.

Ao contrário de muitos fotógrafos contemporâneos, Emílio Biel trabalhava com lógica quase industrial: as mesmas chapas podiamm dar origem a diferentes formatos (prova montada, reprodução em álbum, fototipia ou imagem estereoscópica). Essa circulação de matrizes explica a consistência visual e a repetição de certos enquadramentos.

A datas do ‘clichés’ originais estarão entre 1890 e 1900. Já a Lisboa moderna, mas ainda com ritmos oitocentistas. São mais que documentos: constituem fragmentos de um projecto maior, que era fixar visualmente o país todo, em vários tipos de suporte fotográfico. Nesse sentido, são igualmente reflexo do trabalho do próprio fotógrafo, que organizou e difundiu a imagem de Portugal como quem constrói um arquivo para o futuro.






segunda-feira

O JORNAL QUE LISBOA ESQUECEU

Em 1911, juntamente com ‘O Século’ e ainda antes do ‘Diário de Notícias’, o diário ‘O Mundo’ inaugurou a transformação toponímica que visava homenagear a Imprensa da cidade. Três grandes jornais deram novas designações às ruas onde estavam situados: Rua Formosa (‘O Século’), Rua de S, Roque (‘O Mundo’) e Rua dos Calafates (‘Diário de Notícias’).

‘O Mundo’ foi um dos títulos mais influentes da imprensa dita progressista. Fundado em 1900 por França Borges, defendia claramente o Partido Republicano. Destacava-se pela linguagem directa, irónica e muitas vezes violenta. Atacava a corrupção da política e a rotatividade dos partidos, preparando o ambiente ideológico que conduziria à implantação da República.

Em Outubro de 1910, o jornal não perdeu relevância: passou a criticar também divisões internas entre republicanos. Manteve-se próximo de correntes jacobinas e anticlericais. Era lido por uma classe média urbana e politizada, e muitos dos leitores apreciavam-lhe, sobretudo, os repetidos excessos panfletários. 

A instabilidade política da Primeira República reflectiu-se nas páginas do jornal. Pouco depois, a morte de França Borges, em 1912, agravou a situação. Com o golpe militar do 28 de Maio de 1926, que instaurou a ditadura militar (e depois o Estado Novo), seguiu-se o destino previsível. A censura apertou, sobretudo, a imprensa considerada combativa. Jornais identificados com o republicanismo e com a agitação política tornaram-se alvos preferenciais.

'O Mundo’ acabaria por desaparecer em 1927, na sequência da repressão e das dificuldades financeiras agravadas. Foi o fim de um certo tipo de jornalismo, mais directamente empenhado na luta política quotidiana. Durante uma década decisiva, este tipo de Imprensa estivera no centro da transformação política que levou à queda da Monarquia. A nova ditadura não tolerou tais excessos, e tudo correu de feição a que ‘O Mundo’ desaparecesse da memória de Lisboa. 

Um branqueamento total seria feito, depois, na toponímia. Outros jornais foram respeitados, mas ‘O Mundo’ rapidamente se fez designação inconveniente. A Câmara decidiu retirar a homenagem e, no final da década de 20, atribuiu novo topónimo (mais um) à artéria: Rua da Misericórdia. 

A meio da subida, do lado esquerdo, o edifício do jornal foi sendo reaproveitado sem grande critério, até ficar totalmente em ruínas. Chegou a albergar jornais ligados ao regime do Estado Novo, como o ‘Diário da Manhã’ e ‘A Época’. O globo que adornava a fachada foi apeado e os pisos inferiores, feitos para tipografia de grandes tiragens, perderam a utilidade. 

Mas o destino tem estranhas reviravoltas e a história não fica por aqui. Muitos anos depois da queda do regime que determinou o fecho do jornal, a morada de ‘O Mundo’ alberga agora a Associação 25 de Abril.




sábado

O TÁXI DE MARIA ALVES

Há cem anos, na madrugada de 31 de Março de 1926, Lisboa acordava para um crime que rapidamente se tornaria obsessão pública: o assassinato da actriz de revista Maria Alves, figura conhecida do meio teatral do Parque Mayer. O corpo foi encontrado na Rua Francisco Foreiro, ao Regueirão dos Anjos, com sinais evidentes de violência. A autópsia confirmou o essencial: morte por estrangulamento, com luta. Não fora um ataque furtivo, mas confronto físico e próximo.

Nos dias seguintes, o ‘Diário de Notícias’, ‘O Século’ e outros jornais alimentaram a cidade com versões, hipóteses e rumores. Falou-se de um “gravateiro” interessado nas joias da actriz, de vingança amorosa vinda do Porto, de crime cometido noutro local com posterior transporte do corpo. Perguntava-se: teria morrido ali, ou fora deixada já sem vida? Quem era o homem que deu o alerta? Onde estava o sapato desaparecido? 

A investigação policial avançava lentamente, ouvindo vizinhos, colegas de teatro e conhecidos do empresário Augusto Gomes, companheiro da vítima, residente no Conde de Redondo.

O funeral, realizado no Sábado de Aleluia de 1926, foi, em si mesmo, um espectáculo de rua . Centenas de pessoas acompanharam o féretro desde a morgue até ao Cemitério dos Prazeres. O Grémio dos Artistas de Teatro organizou todas as cerimónias; vieram familiares do Porto; não faltaram coristas, actores e curiosos. Nas fotografias desse dia vislumbram-se algumas celebridades, como Luiza Satanela. O cortejo fez dezasseis turnos até à sepultura, prolongando-se por toda a tarde. Entre os presentes, Augusto Gomes destacava-se: emocionado, trazendo flores com dedicatória à “querida companheira”. Semanas depois, esse ramo seria retirado da tumba. Durante o funeral, um pequeno ladrão foi detido por suspeita: tinha um arranhão no rosto. Poucos repararam que Gomes apresentava marcas semelhantes, explicadas como resultado de noites agitadas e interrogatórios no Governo Civil de Lisboa, de onde saía sempre em liberdade.

A imprensa não largava o caso. Pressionava a polícia, acusando-a de inércia. Era uma verdadeira competição entre jornais, que transformaram o crime em novela diária. Paradoxalmente, seriam os próprios jornalistas a dar a pista decisiva: a ligação ao taxi nº 9297 e ao seu ‘chauffeur’, João Fernandes. A investigação fechou o cerco. Confrontado, Augusto Gomes acabou por confessar. O motivo era clássico: ciúme. “Fiz o que qualquer homem de bem faria. Matei-a porque me atraiçoava”, declarou.

O julgamento, iniciado cerca de 20 meses depois (final de 1927), foi mais um espectáculo público. A sala enchia-se como nas noites de estreia. Compareceu até Miquelina, a mulher legítima de Gomes, firme ao lado do marido. O tribunal condenou-o inicialmente a 25 anos de degredo. O taxista, arrastado para o processo, acabaria afastado da responsabilidade principal.

O caso não terminou no tribunal. Tornou-se fenómeno cultural: livros, peças, folhetins e o filme ‘O Táxi nº 9297’, inspirado nas reportagens de Reinaldo Ferreira, então activo na imprensa diária. Outros nomes, como António Ferro, também exploraram o episódio. Até a tradição popular reagiu: um folheto vendido a cinco tostões divulgava o “grande e horrível crime”, acompanhado de cantigas como ‘Tumba Fria’ e ‘Fado da Maldição'.

Assim se construiu um dos primeiros grandes escândalos mediáticos que Lisboa conheceu. Imprensa, espectáculo e justiça confundiram-se entre si. A cidade inteira participou, venderam-se milhares e milhares de jornais. Há exactamente um século, estava inaugurada a era do jornalismo sensacionalista. 





quarta-feira

S. JORGE APRISIONADO

A antiga procissão do Corpo de Deus, quinze dias após o Domingo de Páscoa, já não existe na forma grandiosa que teve durante séculos. Foi profundamente alterada no século XIX e interrompida após a Implantação da República, regressando mais tarde sem o aparato que a tornava única. 

Era a maior cerimónia pública de Lisboa: saía da Sé, atravessava a Baixa e reunia não apenas o clero e as confrarias, mas também os ofícios, os seus estandartes e máquinas, figuras alegóricas, monstros, músicos, tropas e até o próprio rei, que acompanhava o Santíssimo sob o pálio, fazendo da procissão uma verdadeira encenação do corpo político da cidade.

No meio desse cortejo exuberante e precedidas pelos seus arautos (‘pretos de S. Jorge’), surgiam duas figuras singulares: o santo em madeira, montado a cavalo, e o santo como general e patrono militar, noutra montada, de armadura e lança em riste. Por trás da imagem heróica escondia-se realidade diferente. O ‘homem de ferro’ era real, encerrado em armadura falsa, pesada e fechada, que o isolava do mundo exterior. Literalmente aparafusado lá dentro. Durante horas, sob o calor, avançava rigidamente, incapaz de se mover, de ver claramente ou de abandonar a montada. Um S. Jorge aprisionado e a ferros, mais hirto que o boneco de pau.

As descrições dos jornais deixam perceber movimentos descompostos, gestos involuntários, rigidez que transformava o herói num corpo quase mecânico. O povo não via o santo guerreiro. Via sobretudo o esforço vindo de dentro de uma armadura transformada em prisão. Esse contraste — entre a glória simbólica e a condição penosa — dava à figura um carácter entre o solene e o grotesco.

Assim, este São Jorge da procissão lisboeta não foi imagem de devoção ou de poder. Personificava o vestígio vivo do sacrifício humano. Como que saído de tempo tão antigo como o padroeiro. Um tempo em que fé, combates e teatro se confundiam com lendas, santidade e – sobretudo – pungentes sacrifícios. Que o seu sacrifício fosse também encarado como espectáculo semi-cómico mostra até que ponto eram variadas as emoções desse dia. Um dia solene, fantástico e quase surreal para os lisboetas.



S. Jorge da procissão, 
conhecido como
'Homem de Ferro'. 
Em baixo:
As duas versões do santo,
de armadura e como
boneco de madeira






sábado

MEU QUERIDO PORQUINHO

Nasci no centro de Lisboa, e aquela era a minha geografia de infância. Ia com a mãe à Baixa, lanchávamos na Suíça, e depois ela passava pela Charcutaria Favorita, na Rua do Ouro, para comprar croquetes. Para mim, um pequeno suplício. A loja era diminuta (tentavam remediar isso com uma parede inteira de espelhos) e havia quase sempre muita gente à porta, à espera de vez.

Enquanto aguardava na rua, no desespero dos meus cinco anos, só tinha olhos para o porquinho luminoso que marcava a entrada da casa. Desenhado em tubos de néon, de avental e barrete de cozinheiro, o pequeno animal parecia saudar quem passava. À noite, quando as luzes se acendiam na Baixa, juntava-se aos muitos reclamos luminosos que faziam do Rossio e das ruas vizinhas uma verdadeira cidade de néons.

Só muitos anos depois de a Favorita fechar viria eu a descobrir que aquele porquinho não era só uma fantasia luminosa destinada a atrair os clientes da Rua do Ouro. Fazia parte da pequena rede de charcutarias ligadas à Fábrica Aveirense, instalada no n.º 31 da Rua da Arrábida, fundada em 1949 por Horácio Melo e António Costa.

A Favorita da Rua do Ouro foi a primeira loja, mas outras casas vendiam os mesmos produtos: a Riviera, na Avenida da Igreja, a Diplomata, na Avenida João XXI, a Brasília, na Rua Alexandre Herculano, e o único porquinho que resta: a Dava das Avenidas Novas. À porta dessas casas aparecia sempre o maravilhoso bichinho, de avental e barrete, formado por tubos de néon que davam uma ilusão de movimento: lambia-se e mexia a virgulazinha do rabo.

O reclame luminoso era obra da firma Simões Júnior, instalada na Rua Gama Barros, uma das oficinas que produziram muitos dos letreiros de néon que iluminavam o centro de Lisboa nas décadas de 1950 e 1960. Mas, para mim, «o meu porquinho» não fazia publicidade. Estava simplesmente ali, no alto da porta, como um animal doméstico que guardava a loja. É dele e minha uma das mais duradouras memórias da Baixa dos anos 60.


Marina Tavares Dias 


















quinta-feira

DE GERMÂNIA A PORTUGÁLIA



A pequena cervejaria primitiva da fábrica da Avenida Almirante Reis — ainda sob o nome de Germânia — não nasceu como casa autónoma, mas como apêndice directo da produção. Já em 1911–1912, quando a nova unidade industrial se instala no grande quarteirão, existia, no interior do pátio, junto ao gaveto da Rua Pascoal de Melo, um espaço modesto onde se servia cerveja aos clientes que ali iam comprar barris. 

Era um lugar funcional, quase improvisado, mas com uma vida própria. Quem entrava na fábrica — atravessando o movimento dos carros, das pipas e dos operários — encontrava ali um abrigo fresco, de mesas simples, onde se provava a cerveja antes de a levar. Não era ainda a cervejaria monumental inaugurada em 1925, mas um núcleo inicial, íntimo, quase secreto, cuja existência é confirmada por fotografias de interior hoje raras. 

Esse primeiro espaço tinha um carácter muito particular: misturava o ambiente industrial com o gesto social do beber. O cheiro do malte e da fermentação entrava pelas portas abertas; a cerveja era literalmente bebida no lugar onde nascia. Não havia separação entre fábrica e consumo — apenas um pátio onde o comércio se fazia de forma direta e quase artesanal.

Na memória da cidade, esse cheiro persistiu muito para além desse tempo inicial. Ainda na década de 1960, quem passava na Avenida Almirante Reis reconhecia imediatamente a presença da fábrica pelo odor intenso, quente e adocicado, que se espalhava pela rua — uma espécie de assinatura invisível daquele quarteirão industrial, tão forte quanto qualquer fachada.

Depois, como tantas estruturas fabris de Lisboa, o espaço entrou numa fase de transição, quando a produção foi deslocada para a Vialonga. Partes da antiga fábrica foram sendo reutilizadas. Na década de 1970, instala-se ali uma companhia de teatro, A Barraca, fundada em 1975, representativa do movimento de teatro independente que procurava espaços alternativos e precários para ensaio e criação. É um contraste quase perfeito: onde antes se provava cerveja entre barris e vapor, surgem actores, cenários improvisados e palavras ditas em liberdade. O pátio industrial transforma-se em palco. Na década de 1990, abriu um centro comercial no gaveto sul, em edifício entretanto construído. Hoje, todo o quarteirão, maioritariamente demolido, espera solução urbanística. A cervejaria, agora com sucursais, continua sempre cheia.

Assim, aquela pequena loja inicial — parte da fábrica — acabou por ser o primeiro gesto de uma longa história de apropriações: do fabrico ao convívio, do convívio ao teatro, do teatro ao comércio a retalho e da indústria à memória.


Nas imagens: o quarteirão na época da Germânia, ainda com o gaveto por construir, e a primeira versão da Cervejaria Portugália, ainda com pátio e esplanada.





domingo

O MEU PROFESSOR ANTÓNIO LOPES RIBEIRO

Há figuras que pertencem à história, e outras que permanecem, sobretudo, na memória viva de quem com elas privou. António Lopes Ribeiro era, curiosamente, ambas. Quando o conheci, no IADE, eu tinha 19 anos e começava a escrever para os jornais; ele já trazia consigo um mundo inteiro de cinema, vivido por dentro e contado com uma naturalidade desarmante.

Falava-nos de encontros com Sergei Eisenstein, Fritz Lang, Erich von Stroheim ou Irving Thalberg — nomes que para nós eram quase mitológicos — como quem evoca conversas de café. Conhecera todos. E, no entanto, nunca havia ostentação: antes uma espécie de pudor elegante, uma modéstia genuína que contrastava com a dimensão da sua experiência.

Levou-nos à Cinemateca, que ajudara a fundar, para vermos os seus filmes. Numa dessas sessões, o ‘Amor de Perdição’. Foi aí que nos apresentou ao António Vilar. Já envelhecido, Vilar conservava intacto o porte do ‘Carlos Bonito’ de outros tempos. Aproximou-se de nós com uma lentidão cerimonial e beijou a mão de cada rapariga da turma. Ficámos sideradas — tão jovens, nem sabíamos o que fazer após tal gesto.

A Leonor Nunes, colega na revista ‘Mulheres’, frequentou um ano do curso comigo. No dia em que morreu Francisco Ribeiro (Ribeirinho), irmão dele, todos pensámos que não havia aula. Só nós duas aparecemos nessa tarde. Lopes Ribeiro chegou inesperadamente, agiu como se fosse um dia como os outros, tirou a gabardina, pendurou-a na cadeira, sentou-se com calma. E como se a sala não estivesse quase vazia, começou a aula: “Vamos falar de uma arte que imortalizou o meu irmão.”

Agora recordo, sobretudo, a amizade inesperada que nasceu. Tornámo-nos próximos, e eu ia visitá-lo ao Círculo Eça de Queiroz. Entrevistei-o várias vezes, e reencontrei sempre o mesmo homem: atento, discreto, quase surpreendido com o interesse que despertava.

Anos mais tarde, quando o Chiado ardeu — esse golpe tão fundo na memória da cidade —, foi ele quem me ajudou, na Redacção do ‘Diário de Lisboa’, a construir uma espécie de fotonovela de jornal, a partir do seu filme ‘O Pai Tirano’. Perante a destruição real, recorríamos à ficção para recompor, ainda que provisoriamente, a cidade perdida. Estava lá toda: Grandella, Perfumaria da Moda, Cardoso dos chapéus, Café Chiado com a sua tabacaria, etc, etc.

Assim o guardo: não apenas como o realizador associado a um tempo e a um regime, mas como um homem de cultura rara, generoso no saber e no gesto, que aproximava os outros — mesmo os mais novos — de um mundo já distante. Porque tudo, com ele, ficava subitamente próximo e outra vez vivo.


Marina Tavares Dias 






quinta-feira

O PEZINHO DO SENHOR DOS PASSOS

No passado dia 1 de Março, a Procissão do Senhor dos Passos voltou a percorrer Lisboa. A presença de Marcelo Rebelo de Sousa, que se associou ao cortejo, sublinha o valor simbólico de uma das poucas tradições que continuam vivas no centro da cidade. 

A implantação da República não suprimiu definitivamente a tradição, logo no ano seguinte (1911). Mas desarticulou-lhe o percurso, que apenas nas décadas seguintes se recompôs, mas sem o traçado antigo completo. Já neste século, foi retomada a saída da Igreja de São Roque. Tradicionalmente, daí desce ao Chiado, onde a paragem na Igreja da Encarnação marca ainda um momento interior da via-sacra. 

Ao entrar no Rossio, o cortejo ganhava amplitude: era aqui que existia um dos passos mais importantes, com capela própria até ao século XIX, desaparecida nas posteriores remodelações da praça. Seguia para a Mouraria, onde outro passo, documentado desde o século XVII, a parava junto ao antigo arco do Marquês de Alegrete. Depois, do Terreirinho (na Rua dos Cavaleiros, onde persiste memória de uma estação antiga), era a subida pela Calçada de Santo André. Aí se conserva o único testemunho físico do sistema original: o pequeno passo, embebido na muralha. Por fim, a chegada à Igreja da Graça encerrava o percurso, como momento mais intenso da procissão.

Este itinerário foi fixado entre os séculos XVI e XVII, e organizava-se nos sete passos com capelinhas próprias. Ao longo do século XIX, a cidade apagou quase todas essas estruturas. Em 1900, a procissão era já uma via-sacra urbana, feita de paragens reconhecidas mas semi-ausentes. Essa continuidade — agora reforçada pela atenção mediática — faz com que Lisboa continue a percorrer, ano após ano, um trajecto ancestral.

Nos capítulos recentes, a história da procissão está por fazer. Perdeu-se lembrança da localização dos passos mais frequentados até ao século XIX (ainda assinalados nos mapas anteriores a 1850). E perderam-se episódios deliciosos como este:

A imagem do Senhor dos Passos era veneradíssima, e a tradição mandava que, à passagem do andor, se lhe beijasse o único pé destapado. Ao longo do percurso, eram centenas os fiéis que conseguiam proximidade para tal fazerem. Conspurcada por inúmeros afectos, chegava a imagem à presença da família real. Porém, antes que D. Carlos ou D. Amélia dela se acercassem, vinham dois mordomos desaparafusar o pezinho, substituindo-o por outro. Mantinha-se, impoluto e guardado, um pé solto suplente. Só para ósculos reais.


A Procissão do Senhor dos Passos 
no início do século XX
 (Alberto Carlos Lima)



quarta-feira

A FLORESTA EGÍPCIA

A actual Rua da Escola Politécnica, antes de fixar o topónimo com que é conhecida, foi sendo muitas ruas dentro da mesma rua. Mudaram-lhe designações como mudavam os tempos, os donos, as ambições, os pontos de referência. Para quem subia para o Rato, aquele troço ainda guardava, em pleno século XVIII, qualquer coisa de arrabalde e de quinta, mesmo quando já se começava a vestir de arquitectura urbana. Entre muros, terrenos fundos e casas que olhavam a cidade com prudência, foi ali que se ergueu a grande morada dos Cruz Alagoa.

 O fundador não vinha de linhagem antiga. Era produto de «dinheiro novo» bem conduzido, da oportunidade aproveitada a tempo, da inteligência prática que cresce à sombra do poder. José Francisco da Cruz fizera caminho depressa. Filho de condição modesta, passara pelo Brasil, pelo comércio, pelos contratos, pelas companhias, pelos cargos da Fazenda, até se transformar num daqueles homens que, sem terem nascido nobres, começavam a viver como se o fossem há gerações. A casa que mandou levantar dizia precisamente isso: não era um palácio no sentido pleno, mas já não era apenas uma habitação rica. Era uma declaração.

 A fachada longa, severa, quase sem adornos, impunha-se menos pelo luxo do que pela extensão. Havia nela qualquer coisa de disciplinado e obstinado, como se a pedra quisesse convencer a cidade da respeitabilidade dos donos. Por dentro, a sobriedade abria-se em acomodações amplas, salas de aparato, capela privativa, criadagem numerosa, carruagens, pratarias, louças orientais, espelhos, música, jogos e a arte delicada de receber. Não se tratava só de morar: tratava-se de ocupar um lugar no mundo.

 Como sempre nas fortunas erguidas com rapidez, também esta teve alguma coisa de precário. O fundador mal chegou a usufruir da sua obra. Morreu poucos anos depois de concluída a casa, deixando viúva, filhos, rendimentos, prestígio e também tensões, dependências e interesses familiares que não costumam tardar quando o dinheiro é muito e os afectos poucos. A residência continuou viva, mas já como cenário de continuidade imperfeita. Entravam e saíam moradores de nome sonante, fidalgos arrendatários, viúvas ilustres, generais, condes, marquesas, funcionários régios, gente de brasão e renda, como se o edifício, nascido de uma ascensão social, precisasse de títulos alheios para confirmar o estatuto que a origem lhe não dera inteiramente.

Entretanto, a própria Lisboa mudava em redor. O que fora espaço de transição entre a quinta e a cidade tornava-se cada vez mais urbano, mais atravessado, mais exposto à circulação das classes, dos negócios e das modas. E foi nesse ambiente, já a meio do século XIX, que o lugar conheceu o que deu História aos terrenos anexos: a célebre Floresta Egípcia.

O nome, só por si, bastava para prometer um mundo. Não era floresta, nem egípcia, e daí o seu encanto. A Lisboa oitocentista tinha fome de exotismo, de surpresa, de espectáculo, de qualquer simulacro que quebrasse a monotonia do quotidiano. A Floresta Egípcia respondeu a esse desejo com a imaginação de uma feira tradicional. Havia lagos, palmeiras, quiosques, refrescos, música, dança, pequenos engenhos de diversão, iluminações, fogo-de-artifício, teatro e um ar de fantasia acessível, onde se misturavam famílias, namorados, curiosos, janotas e basbaques.

O seu criador, José Osti, italiano de expediente e invenção, parecia personagem saída do próprio recinto. Pirotécnico, industrial, homem de iniciativas brilhantes e finanças menos seguras, trouxe a Lisboa esse gosto de maravilha mecânica e luminosa que faz as multidões esquecer por algumas horas a gravidade dos dias. A Floresta era menos jardim do que máquina de espanto. Lisboa, que tantas vezes se aborrecia de si mesma, ia ali beber capilés, ouvir a orquestra, ver as luzes e entregar-se à ilusão de estar noutro sítio — mais moderno, talvez mais europeu, ou simplesmente mais alegre.

Também ali houve acidentes, falências, exageros, improvisações. A mesma matéria inflamável que alimentava o deslumbramento serviu de presságio e ruína. Um episódio absurdo e triste: um rapaz com a roupa em chamas atirado ao lago, e a morte onde se esperava apenas o susto. Resumo quase simbólico da fragilidade daquele universo. Brilhava muito mas ardia depressa.

Desaparecida a Floresta Egípcia, ficou o eco. E o velho edifício, sobrevivendo aos seus donos, aos seus inquilinos e às modas da cidade, entrou noutra fase da existência quando passou para as mãos de José Vaz Monteiro. Médico de formação, agrário, político, capitalista, homem de múltiplos interesses, foi a figura mais forte a habitar a antiga casa depois da linhagem fundadora. Com ele, o edifício recuperou a centralidade social que parecia perdida: jantares longos, serões musicais, luzes, flores, damas de toilette apurada, convidados em abundância. O lugar voltou a representar alguma coisa no teatro da capital.

Mas era já outro século. Na antiga casa nobre, que nascera quase rural, que se fizera palácio por aspiração e costume, começava lentamente a entrar a dança do tempo. À volta abriram-se ruas, fraccionaram-se terrenos, passaram companhias, sociedades, instituições, proprietários. O que fora domínio contínuo tornou-se parcela. O que fora jardim imaginário acabou loteado. O que fora memória de família converteu-se em imóveis adaptáveis.

Hoje, ao olharmos aquela massa comprida e transformada, custa imaginar tudo o que ali coube: a ambição de um negociante protegido pelo poder, a devoção doméstica de uma capela privada, criados e cocheiras, fidalgos arrendatários, crianças expostas acolhidas de passagem, música de 'soirées', risos da feira romântica, clarões de fogueteório, decadência lenta dos interiores. No entanto, a cidade é assim mesmo: sucessão de vidas sobrepostas, palco onde as pedras ficam e os enredos se substituem.

Da Floresta Egípcia não resta a frescura inventada dos lagos nem a prometida sombra das palmeiras. Ficou apenas o nome histórico que ainda parece abrir, por instantes, uma porta improvável no coração da História de Lisboa. Cheira a artifício, a Verão, a infância. E talvez seja essa a sua última verdade: ter sido menos um lugar real do que um sonho urbano. Breve e cintilante, na cidade que nunca deixou de gostar de se imaginar maior do que era.


Antiga entrada para a Floresta Egípcia, 
na Rua da Escola Politécnica 



segunda-feira

O CÉLEBRE 92

 A célebre Loja 92 da Rua Nova do Almada, no Chiado, foi fundada em 6 de julho de 1876 por Albino José José Baptista. Vendia bengalas, leques, sombrinhas, guarda-chuvas e outros acessórios de moda, muitos deles exclusivos e inspirados nas novidades parisienses. Tornou-se uma referência no comércio lisboeta do final do século XIX. O número da porta — 92 — acabou por dar nome ao estabelecimento, que era conhecido simplesmente como ‘Loja 92’. No início do século XX a firma prosperou e abriu também uma sucursal na Rua do Ouro, nº 110. 

Entre os hábitos da casa estava o de oferecer brindes aos melhores clientes (final do século XIX e primeiros anos do século XX). Os pratos decorativos, com o ano inscrito e produzidos especialmente para a loja, eram oferecidos como recordação, mediante a entrega de vários ‘coupons’ de compras. São hoje peças muito procuradas pelos coleccionadores de objectos lisboetas.

O 92 ardeu no incêndio de 25 de Agosto de 1988. Ainda se instalou provisoriamente numa rua da Baixa, onde Marina Tavares Dias entrevistou os proprietários, em Dezembro desse ano. Esperavam regressar ao Chiado após as obras de reconstrução. Nunca aconteceu.





sábado

RENDEZ-VOUS DAS GALINHAS

Designação cosmopolita e sofisticada para uma venda que seria tudo menos isso. Na década de 1920, ainda podia matar-se a criação à frente do cliente. Coisa que decerto não impressionaria estes vendedores, felizes por poderem posar para o retrato.

O Mercado das Picoas, oficialmente chamado Mercado 31 de Janeiro, foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa em 1905, quando a zona das Avenidas Novas começava a urbanizar-se rapidamente. Destinava-se a abastecer os novos bairros que cresciam em torno das Picoas, do Saldanha e de São Sebastião da Pedreira. Ao contrário de outros mercados municipais construídos em pavilhão, o das Picoas funcionou durante muito tempo de forma simples, com bancas e pequenas lojas voltadas para a rua, formando um mercado muito vivo e popular. Ali vendiam-se os produtos essenciais da alimentação quotidiana — hortaliça, fruta, peixe, carne, ovos — e era frequente encontrar aves vivas, como galinhas ou coelhos, que eram preparadas no próprio local. 

Em 1929, participou no concurso 'Rainha dos Mercados de Lisboa', organizado pelo Diário de Lisboa, iniciativa que envolveu vendedeiras de vários mercados da cidade. O prémio com que foi distinguido esteve inscrito numa placa até ao fim. Durante todo o século XX, o 31 de Janeiro manteve-se como importante ponto de abastecimento da zona, muito frequentado pelos moradores. Continuou em funcionamento até ao início da década de 1990. Foi o penúltimo mercado tradicional de Lisboa a encerrar. O último seria o de Santa Clara.






quarta-feira

O CINEMA DA GRAÇA

 Agapito Serra Fernandes (1863-1939), natural da Galiza e radicado em Lisboa desde os onze anos, dirigia a fábrica de biscoitos Confiança, fornecedora do exército. Mais tarde foi dono de lojas: uma tabacaria no Largo do Regedor e o restaurante Estrela d’Ouro na Rua da Prata. 


Em 1908 iniciou na Graça a construção do bairro operário Estrela d’Ouro, destinado a trabalhadores das suas empresas. Em 1928, a Empresa do Royal Cine Lda., também sua propriedade, pediu à Câmara de Lisboa autorização para erguer ali uma grande sala de animatógrafo, num edifício especialmente para tal concebido (projecto do arquitecto Norte Júnior). A fachada pretendia-se monumental, no contexto da estreia Rua da Graça, ostentando arco de entrada, colunas estriadas e vitrais coloridos . No interior, a sala tinha cerca de 900 lugares, orquestra, balcão, camarotes laterais, bar e salão de baile.


O Royal Cine inaugurou a 26 de Dezembro de 1929 com o filme ‘O Cadáver Vivo’, de Fedor Ozep. Além da programação, oferecia ‘matinées’ dançantes às quartas-feiras. Poucos meses depois, a 5 de Abril de 1930, ocorreu ali a primeira apresentação do cinema sonoro em Portugal, com ‘Sombras Brancas nos Mares do Sul’ (‘White Shadows of the South Seas', dirigido por WS Van Dyke), na presença do Presidente da República. Embora dificilmente se possa considerar ‘sonoro’, o filme trazia efeitos sonoros e música na própria película, coisa até então nunca ouvida em Lisboa. Outra novidade: é o primeiro filme em que está gravado o rugido do leão da Metro (MGM).


Agapito Serra morreu em 1939. O Royal Cine, a que os moradores do bairro chamavam ‘o rolhas’, manteve-se em actividade até 1983. Subsiste o edifício, agora albergando um supermercado. Fachada e átrio ficaram intactos, assim como vitrais, relógio, lambris e escadaria. Foi tudo restaurado em 2025, mantendo a memória daquela que era a sala de cinema mais importante do bairro da Graça.













segunda-feira

OS TÁXIS DO ROSSIO

A partir da década de 1920, o Rossio funciona como placa giratória do trânsito lisboeta. Destruído o inicial tabuleiro de mosaico ondulado, é no centro da praça que convergem carreiras de eléctricos e circuitos de distribuição. Torna-se o verdadeiro nó da mobilidade moderna: eléctricos, automóveis particulares, carrinhas de abastecimento e, sobretudo, os primeiros táxis organizados em ponto fixo. A praça deixa de ser acolhedora, e torna-se o centro nervoso do tráfego citadino.

É nesse contexto que surge a fotografia do táxi com matrícula GG-10-55, estacionado junto ao passeio, tendo por fundo um eléctrico com a tabuleta “Rossio”. A matrícula já pertence ao sistema nacional introduzido em 1 de Janeiro de 1937, composto por duas letras e dois grupos de algarismos (AA-00-00). A sequência “GG” insere-se nas combinações atribuídas à área de Lisboa, o que confirma o registo local do veículo e situa a imagem necessariamente após 1937.

O automóvel, de grelha estreita composta por múltiplas barras horizontais atravessadas por uma barra vertical central, faróis montados nos guarda-lamas e frisos laterais no capot - corresponde muito provavelmente a um Chevrolet Master (ou Master Deluxe) do ano-modelo de 1938, produzido entre finais de 1937 e 1938. Esse desenho frontal é característico da marca norte-americana nesse exacto período, distinguindo-se dos modelos de 1937, mais verticais, e dos de 1939, já com grelhas mais largas e integradas.

Assim, o carro terá sido adquirido novo em 1938 ou pouco depois, passando rapidamente ao serviço de táxi. Algo comum na Lisboa do final da década de 1930, quando veículos americanos, robustos e relativamente económicos, eram preferidos para transporte público urbano.

A fotografia deverá situar-se entre 1938 e 1941. O vestuário do motorista, sobretudo o sobretudo comprido e o boné de pala, é típico dos anos da Segunda Grande Guerra. Apesar da neutralidade portuguesa, o período marcou uma fase de intensa circulação e vigilância na capital, que se tornaria ponto de passagem internacional. O Rossio, como primeira praça de táxis da cidade, era também o primeiro contacto de muitos viajantes com Lisboa.

O conjunto revela uma cidade em transição: ainda com eléctricos dominando a paisagem, mas já com automóveis a assumir protagonismo; uma praça oitocentista convertida em plataforma de trânsito.





quinta-feira

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

A minha relação com António Lobo Antunes começou mal. O primeiro livro que li foi o primeiro que ele escreveu. Eu não teria mais de 18 anos. Pensei: ‘Que grande dor de corno, escrever isto.’ Arrumei o volume da Vega na prateleira e não comprei o segundo. 

Fast-forward seis anos. Conheci o Zé quando ele trazia um livro do António debaixo do braço. O Acácio Barradas atirou, com um sorriso: ‘Aqui tens o descobridor de talentos.’ O Zé fizera a primeira entrevista ao António, e tinham ficado muito amigos. Perguntei-lhe pelo livro que levava. Estendeu a mão e disse: ‘Lê tu, e logo me dizes o que pensas.’ Nessa tarde, na Pastelaria Orion, fiz a segunda imersão na prosa do António. Maravilhada, fui pedir emprestados todos os outros livros. 

Conheci o António nesse ano, depois de mais uma entrevista para o ‘DP’. Achei-o muito diferente do escritor que tinha lá dentro. Parecia estar sempre um pouco alheado da conversa, ponderado em cada resposta, vagamente enfastiado. Tínhamos ido comprar cromos, eu e o Zé. Perante o meu entusiasmo ao abrir cada pacotinho, o António começou a falar dos futebolistas que faziam as antigas colecções de ‘cromos da bola’, compradas com os rebuçados das mercearias. De repente, acendeu-se aquele belo sorriso. Estava encontrado o âmago dos seus livros, em que tudo era intenso e fascinante só por ser humano.

Fotografei-os juntos e emoldurei o retrato ao lado de outro, mais antigo, que o Zé tinha com ele. Mais tarde, juntei na mesma moldura mais uma fotografia: com o neto, a apontar para a câmara. Tirando as entrevistas, nunca falámos da obra dele. Nunca lhe pedi livros ou autógrafos, nunca lhe dei os parabéns por nada. Fiquei surpreendida por não ter sido o primeiro escritor português a ganhar o Nobel. Nunca lho disse. 

Quando o Zé morreu, o António publicou uma crónica em que repreendia a Deus. Que tivesse levado outro cuja falta não se fizesse sentir tanto. Que tivesse levado quem lhe faria menos falta a ele. No meio de tantos elogios fúnebres, foi o mais sincero. Dava o devido valor a quem o estimava.

Voltei a falar com ele, anualmente, nos meses da Feira do Livro. Uma tarde, encontrei-o ‘pastoreado’ na sessão de autógrafos pelo antigo distribuidor dos meus próprios livros. ‘És amigo deste gajo?’ E ele, com o sorriso encavacado: ‘Ninguém é perfeito.’ Adoeci e deixei de ir à Feira, às habituais sessões de exposição circense. Quando cessaram as crónicas e se interrompeu aquela cadência certa com que os livros novos apareciam nas livrarias, tentei saber como estaria. Que já não podia escrever, que não se dava com ninguém. Não tentei saber mais. Reservado como era, decerto teria preferido que eu não soubesse.

Há coisa de dois anos, enquanto revolvia pela enésima vez as estantes, em busca de um livro que não encontrei, caíram-me aos pés várias folhas com os poemas que nunca publicou, e cujo original tipo-escrito tinha ficado com o Zé. Comovi-me um bocado nesse dia, e fui para o FB publicar fotografias dele. Mas não o tenho retratado no cenário em que mais vezes o encontrei: um armazém vazio e asséptico, vagamente pertencente a um primo, ali ao Conde de Redondo. 

O António escrevia sem precisar de nada à sua volta. Metia-me espécie, e ele ria. Talvez por isso, quando comprou uma casa nova fez questão de mostrar que a decorara. O Zé sabia mais ou menos o que iria encontar. Com um desvelo que raramente dedicava à decoração das casas, o António tinha colado na parede um cromo do Benfica.


Marina Tavares Dias 












quarta-feira

A BAIXA QUE CONHECI

Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.

A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.
Para mim, a Baixa era o mundo inteiro. Para onde foi esse mundo, tão próximo e tão distante? Desço hoje a Rua do Ouro e, entre lojas paquistanesas e hotéis recém-inaugurados, nada já parece estar na mesma cidade.


Marina Tavares Dias