sábado

CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre durante a noite. Enquanto a cidade dormia, equipas de pintores e montadores substituíam o enorme cartaz da fachada por outro, preparado para a estreia do dia seguinte. As telas, com cerca de dez ou onze metros de largura, eram içadas, esticadas sobre armações metálicas e fixadas em poucas horas. Ao nascer do dia, quem passava encontrava um cinema completamente transformado.

Antes disso, havia muitas horas de trabalho invisível. As distribuidoras forneciam fotografias promocionais dos actores, que eram cobertas com uma quadrícula que permitia ampliar rigorosamente o desenho. Nos ateliers, quadrícula idêntica era traçada sobre a tela gigante, e os pintores reproduziam, quadrado a quadrado, os rostos de Marilyn Monroe, Jane Wyman, Yves Montand ou Charlton Heston. Terminada a pintura, a lona seguia para o cinema, com ferros e cordas, onde era montada durante a noite.

Recordo bem esse ritual. Da janela de casa, em frente ao Cinema Roxy, acompanhei durante horas a substituição dos cartazes. Via a velha tela descer, as cordas presas, os homens sobre a estrutura metálica, a nova pintura a subir lentamente e, por fim, a fachada com uma vida completamente diferente. Na manhã seguinte, Lisboa acordava para o novo filme. Foi assim crescer na Avenida Almirante Reis nos anos 70.


Marina Tavares Dias 















sexta-feira

PASTELARIA FERRARI

Fundada em 1846 pelo confeiteiro italiano Mathias Ferrari, a Maison Ferrari da Rua Nova do Almada tornou-se uma das mais afamadas confeitarias de Lisboa. Era fornecedora da Casa Real, do teatro lírico e de numerosos hotéis, restaurantes e estabelecimentos históricos da cidade. Durante quase século e meio, os seus bolos, cristalizados, doces, gelados e serviços de confeitaria acompanharam banquetes, recepções, espectáculos e muitas das grandes celebrações da vida lisboeta.

Em 1919, foi a confeitaria trespassada a Alfredo de Araújo Mourão. Era um comerciante regressado de Lourenço Marques, onde explorara, com a mulher, D. Maria Judite, o Hotel de Paris. O casal ficou igualmente ligado ao Martinho da Arcada: Alfredo Mourão tomou conta da confeitaria da Rua Nova do Almada, enquanto D. Maria Judite dirigia o velho café do Terreiro do Paço. Neste, costumava convidar Fernando Pessoa para o jantar, já depois de encerrado o café, nas noites em que o poeta por ali aparecia.

Após a morte do pai (1960) a direcção dos estabelecimentos passou para a filha, Albertina de Sá Mourão. Não foi apenas depositária do nome antigo: dirigiu a Ferrari, administrou o Martinho da Arcada e procurou assegurar a continuidade de ambos, associando à exploração deste último alguns dos seus empregados mais antigos. Conservava também objectos e documentos ligados a Fernando Pessoa, entre eles um poema autógrafo escrito em papel timbrado da Ferrari. Fotografei tudo isso em 1986.~

A confeitaria manteve-se na Rua Nova do Almada até ao incêndio do Chiado, a 25 de Agosto de 1988. Destruído o salão histórico, mas poupadas as cozinhas, instaladas num anexo, D. Albertina ainda tentou manter a actividade em instalações provisórias na Calçada de S. Francisco. A velha Ferrari, porém, não sobreviveria por muito tempo à perda da casa onde funcionou durante 142 anos.

Fotografias de Marina Tavares Dias
'LISBOA DESAPARECIDA', volume II (1989)




      Interior da Pastelaria Ferrari em 1987


Fachada após o incêndio de 1988

Fachada antes do incêncio


Publicidade, c.1911






sábado

A ANTIGA CASA JOSÉ ALEXANDRE

Desde 1833 que a Casa José Alexandre exibia as suas montras resplandecentes, ocupando grande parte do primeiro quarteirão da Rua Garrett. Os olisipógrafos reconheceram nesta antiga loja de quinquilheiro um dos símbolos do Chiado oitocentista. Já Júlio de Castilho, no seu "Bairro Alto", lhe chama o "protótipo do que havia de melhor em Londres e Paris". Gustavo de Matos Sequeira aponta, no livro "O Carmo e a Trindade", os principais produtos além das bugigangas: "hortaliça e flores em caixinhas".

A casa iniciou actividade instalada apenas nos números 10 e 12 da Rua Garrett (expandindo-se, mais tarde, para as portas do 8 ao 18) e coexistiu com o famoso "Magalhães do Chiado", grande centro de tertúlia e de maledicência...

Após o terramoto, o edifício construído na esquina nordeste do Chiado serviu uma livraria, de cujo proprietário se conhece o nome: Nuno José da Cruz. Na primeira metade do século XIX existiu uma capelista no número 8, pertencente a Ricardo dos Prazeres, também ele contemporâneo do comerciante José Alexandre.

João José Alexandre de Oliveira começou por dedicar-se ao comércio de ferragens; segundo Mário Costa ("O Chiado Pitoresco e Elegante"), foi o filho deste, José Vicente de Oliveira, quem tomou de trespasse a capelista ao lado. As restantes portas, incluindo a esquina para a Calçada do Sacramento, só passariam a pertencer à loja já no início do século XX (mais exactamente 1901), quando o estabelecimento pertencia a José de Carvalho. Até lá, João Cardoso tinha tomado conta da famosa casa de modas do "Magalhães do Chiado". Esta, no entanto, perdera já o seu brilho de meados de Oitocentos.

Nenhum investigador nos dá uma data exacta para a fundação deste centro de tertúlia chiadense. João Pinto de Carvalho (Tinop) revela, contudo, a época áurea:

«Na loja de modas do Magalhães, esquina do Chiado e da Calçada do Sacramento, juntava-se, antes de 1870, um grupeto de gralhadores: o poeta Eduardo Vidal, o José Maria de Andrade Ferreira ou o “Literato dos pés grandes” e o arqueólogo e poeta Estácio da Veiga, a quem chamavam o 'Cri, cri nela' (palavras com que principiava uma poesia sua) e o "Poeta Grelo" (por ser alto e louro), a quem Bulhão Pato epigramatizou na sua "Paquita", depois dele ter cantado, em verso, a "Rosa do Palais-Royal", proprietária de um conhecido prostíbulo em 1858». A propósito das tertúlias da época, já nestas páginas evocámos Estácio da Veiga e a alcunha por que era conhecido entre os outros membros do seu "gremiozinho de palestradores".

Alfredo Gallis, que foi afilhado do Magalhães, deixou-nos o seu testemunho sobre a célebre loja, no livro "Nota da Capital": 

«A loja do Magalhães, e ele próprio constituíam um destes postos de reunião característicos das grandes e pequenas cidades, onde a política e o escândalo, o último decreto e o último adultério, o estado das finanças e as aventuras dos homens mais conhecidos, assentavam os seus arraiais, e durante dias, desde a manhã até às nove da noite, eram discutidas, apreciadas, corrigidas e ampliadas por todos esses que, antes de jantar e depois do almoço, antes de S. Carlos e depois do café, ali iam invariavelmente dar um aperto de mão ao Magalhães, fumar um cigarro e cavaquear um quarto de hora. O que não se soubesse na loja do Magalhães não se sabia em parte alguma de Lisboa. A própria Havaneza, com toda a sua sumptuosidade e bons charutos, não conseguiu desbancar a fama aristocrata daquele estabelecimento, onde entraram os vultos mais eminentes da nossa política e da nossa fidalguia. Havia uma certa roda de bons velhotes, afidalgados, de grandes brilhantes nos anéis e sobrecasacas muito limpas, que eram os amigos velhos do dono da loja (...). Havia trinta e cinco anos que o Magalhães se estabelecera no Chiado, naquela mesma loja, que foi o vibrar da última nota da rua aristocrática da nossa capital.

Pouco a pouco, neste período que representa a meia existência que passa pela escala da infância, puberdade e juventude, que é, por assim dizer, o espaço em que se aninham todos os sonhos e todas as ilusões, ele viu o Chiado transformar-se vagarosamente desde o Marrare do Polimento até ao incêndio do Palácio Barcelinhos, desde a luz Jablochkof até à colocação do novo nome daquela rua, onde ele era o último representante.»

Mário Costa consultou ainda o diário do Magalhães, e nele viu mencionados os clientes da famosa loja, que em parte enumerou: "Fontes Pereira de Mello, Rodrigo da Fonseca, José Palha, D. José Coutinho, o quinto marquês de Castelo-Melhor, os condes de Anadia, de Cabral, da Figueira e da Lapa, o poeta Eduardo Vidal, Estácio da Veiga, José Ribeiro da Cunha, Miguel MacBride, Henrique Zenóglio, Fidié, Lopes Pastor, barão de Sabrosa, Carlos Krus, Pedro Galveias, Costa Cabral e Fortunato Chamiço." Após a morte do Magalhães, ficou este seu diário na posse da família de Alfredo Keil, de quem o comerciante era, desde sempre, "protégé".

A partir de 1901, a área da antiga loja de modas foi anexada pela Casa José Alexandre. Foram os herdeiros de José de Carvalho que, já em 1957, abriram a ligação com o primeiro andar. Ainda no século XIX, a casa publicitava os seus produtos assim: "Genuíno e superior vinho do Porto da Quinta da Cachucha (Alto Douro), talheres e vários artigos de christofle, perfumarias, esponjas, espanadores, de penas e de cerdas, escovas, cutelaria fina, tinta para escrever, medidas, artigos para engenharia e grande variedade de objectos para todos os usos".

Herdeira das tradições do Chiado e renovando-se ao sabor de novos confortos, a Antiga Casa José Alexandre (como passou a chamar-se na primeira metade do século XX) atravessou as últimas décadas mantendo para si o privilégio das "melhores prendas" e o exclusivo da preferência nas listas de casamento da Lisboa elegante. As montras resplandecentes de luxo deixariam, ainda no dia 24 de Agosto de 1988, boquiaberto o próprio José Alexandre, comerciante de ferragens em 1833. Depois da tragédia do dia seguinte, a Antiga Casa José Alexandre alojou-se provisoriamente na Avenida Fontes Pereira de Melo.

Os proprietários de 1988 esperavam, como tantos outros, que Lisboa lhes pudesse devolver o que ela própria perdera no incêndio do dia 25 de Agosto desse ano: o seu lugar histórico no Chiado. Mas o Chiado reconstruído não prestou contas nenhumas à história das suas lojas.


Texto original do

Volume II da LISBOA DESAPARECIDA

de MARINA TAVARES DIAS

(1989)













A ESTÁTUA DA FAMA POR BAIXO DA CREL

Estas duas fotografias que fiz em 1995 têm valor documental que na altura não seria de prever. Numa, vê-se o Obelisco dos Regentes, ainda recortado contra o céu e rodeado pela vegetação da Quinta do Senhor da Serra, em Belas; na outra, a poucos metros dali, o enorme painel da Brisa anuncia aquilo que estava prestes a transformar para sempre aquela paisagem: «A9 – CREL. Construção da travessia na zona de Carenque», com conclusão prevista para 31 de Julho de 1995.

O obelisco tinha então exactamente dois séculos. Fora erguido em 1795, por iniciativa de D. José Luís de Vasconcelos e Sousa, conde de Pombeiro, senhor da Quinta de Belas, para perpetuar a visita à propriedade dos príncipes regentes D. João e D. Carlota Joaquina, futuros D. João VI e rainha de Portugal. É obra do escultor Joaquim José de Barros Laborão (1762-1820) e fazia parte duma importante transformação da quinta e dos seus jardins. Não foi colocado ao acaso: marca o extremo da alameda de entrada, então ladeada por centenas de árvores exóticas.

Com cerca de nove metros de altura, assenta sobre três degraus e um plinto quadrangular, do qual se ergue a grande pirâmide de calcário. Na face sul, Barros Laborão colocou o elemento mais teatral do conjunto: a figura da Fama alada, em mármore. Sustentava originalmente um medalhão com as efígies do futuro Rei D. João VI e de D. Carlota Joaquina. A pirâmide apresenta ainda as iniciais J, C, A e M, correspondentes aos príncipes e aos dois filhos mais velhos. O medalhão desapareceu na década de 1940.

Na minha fotografia ainda se percebe perfeitamente a intenção original. Apesar da vegetação cerrada, o obelisco domina verticalmente a várzea do Jamor. A Fama projecta-se para fora da base e a agulha sobe livremente entre as árvores. É ainda possível olhar para o monumento de baixo para cima, como fora concebido em 1795. E isto torna-se extraordinário quando se recorda que não é uma ruína esquecida sem protecção legal: o obelisco está expressamente incluído na classificação da Quinta do Marquês como Imóvel de Interesse Público desde 18 de Agosto de 1943, juntamente com o palácio, as duas fontes, a capela abobadada e a Capela do Senhor da Serra.

A segunda fotografia explica o que aconteceu a seguir. A CREL atravessou a quinta e o seu viaduto foi construído exactamente por cima do obelisco. O monumento não foi demolido nem deslocado, mas perdeu-se a relação com a paisagem. A Associação Portuguesa dos Jardins Históricos assinala expressamente o «impacto visual e sonoro» do viaduto e a consequente redução do valor patrimonial da Quinta do Senhor da Serra. O inventário patrimonial é ainda mais certeiro: o tabuleiro da CREL, diz, «absorve a escala do monumento». O obelisco continua lá, mas agora é preciso encontrá-lo debaixo de uma auto-estrada. Em 2003, a reportagem da RTP (sobre Jardins Esquecidos) mostrou ao país a nova situação do monumento e do conjunto, que continua classificado no inventário oficial do Património Cultural.

As duas fotografias de 1995 foram tiradas antes de haver um ‘depois'. Numa, o monumento de 1795 ainda com céu por cima. Na outra, o anúncio da obra que estava a tirar-lhe esse céu. Entre o obelisco e a placa da CREL há apenas alguns metros, mas há também duzentos anos de história e uma paisagem prestes a desaparecer.


Marina Tavares Dias 















domingo

OS JERÓNIMOS DO CHIADO

A fundação do estabelecimento de Jerónimo Martins remonta a 1792. O jovem Jerónimo chegara havia pouco tempo da Galiza e instalou-se inicialmente na antiga Rua de S. Francisco. Passou ao centro do Chiado no início de Oitocentos, ocupando apenas uma das portas (o número 19, tomado de trespasse à viúva do marceneiro Isidoro José), conhecida por "Tenda do Martins". Décadas mais tarde, a firma recebeu o nome colectivo de Jerónimo Martins & Filho (o filho chamava-se Domingos) e foi crescendo até ocupar as seis portas do edifício.

A Casa Jerónimo Martins e Filho foi autorizada por Suas Majestades a utilizar o distintivo de "fornecedora da Casa Real" em 1858. Em 1878, o escritor Alexandre Herculano concedeu-lhe o exclusivo da venda do azeite produzido na sua quinta de Vale de Lobos. E Bordalo Pinheiro desenhou o ilustre e austero intelectual vestido de azeiteiro, "deixando os literatos e dirigindo os passos para a mercearia do Jeronymo".

Gustavo de Matos Sequeira evocou, num folheto editado pela casa em 1942, outra das anedotas de que o estabelecimento era alvo: um dito popular revelando dois monumentos da cidade com o nome de Jerónimos — um que "falava ao espírito" e outro que "falava ao corpo".

Mas antes mesmo de ser premiada na Exposição Universal de 1900 (onde terão parado as medalhas que estiveram na fachada?), já a casa Martins recebera louvores dignos de antologia. O livro é de 1887 e chama-se "Viagens no Chiado" (de Beldemónio, claro). A longa citação — selectiva, mesmo assim — dá-nos, num estilo "fleuve", imparável, o quadro pormenorizado:

«(...) Eis-nos à “montre” do Jeronymo Martins. Há lá dentro, eternizando-se, em profundezas de 'doka' londrina, um amontoamento extraordinário de tudo que a civilização requintada d'este fim de século tem inventado para fazer da mesa de jantar um verdadeiro altar ao estômago: são as latas de trufas do Périgord, uma honra posthuma para os perus que sabem morrer com dignidade; as terrinas de 'foie-gras', obtido com fígados de pombas assassinadas pelo estiolamento em columbarios impenetraveis á luz, e que da crueldade com que foi feito se vinga, irritando ou produzindo a gotta; os rolos de queijos em altas columnas, desde o 'gruyére' até ao 'brie', passando pelo 'stílton', que tem um sabor aromático de avellãs, até ao precioso Roquefort, picante e cortado de laivos esverdinhados, aristocrático na sua argentea capa de estanho reluzente; os montículos de conservas, peixe e carne, os salmões do Rheno e o terrível 'caviar' da Rússia; suspensos do tecto, renques de presuntos de York, embrulhados nos seus sacos de lona; pelas estantes, os grandes vinhos de toda a Europa, desde o 'Bordeaux' espumoso como cerveja até ao 'Johannisberg' caro como uma jóia, desde o velho e authentico 'Porto' de 1815 até ao mais antigo 'Château-Lafite' de que rezam as chronicas das adegas da França, desde o 'Collares', fresco como uma colheita de orvalho, até ao 'Magyarather' branco da Hungria, com que os voivodes opulentos das margens do Danubio, do bello Danubio azul cantado por Strauss, alegram os festins dos castellos, por onde passou o estandarte de Kossuth; e ao fundo, finalmente, como a apotheose d'aquelle mundo de vitualhas, o castello formidável das grandes caixas de biscoitos inglezes, rectangulares, solidas como o próprio banco de Inglaterra, soberbas do seu ventre que poderia matar a fome a toda uma cidade cercada.»

O negócio próspero incluiu em tempos uma perfumaria, cujo bom gosto era assim louvado, em 1928, nas páginas do "Notícias Ilustrado": "nem as melhores perfumarias ostentam mais delicados perfumes ou artigos de 'coquetterie' feminina, que constituem, pode dizer-se, um verdadeiro arsenal de graciosidade para a mulher elegante que frequente salões de maior recorte aristocrático".

Gravemente danificado nos dois últimos andares pelo incêndio de Agosto de 1988 — e pelas obras de «rescaldo» que destruíram, por exemplo, azulejos interiores oitocentistas —, o edifício da Jerónimo Martins não ficou, ao contrário de outros, reduzido a ruínas. O piso térreo, onde funcionava o estabelecimento que mantinha o nome Jerónimos, nem sequer foi directamente atingido pelo fogo. A empresa anunciou então que a reabertura dependeria do «restabelecimento das actividades características» do Chiado. Mas procurava já destinar os últimos andares do prédio a escritórios, oferecendo em troca outro imóvel na Rua Ivens. A demora da recuperação deste edifício não resultou, portanto, apenas da morosidade geral da reconstrução: nasceu das pretensões dos proprietários. A loja nunca reabriu.

Texto original do volume II

da LISBOA DESAPARECIDA

de MARINA TAVARES DIAS (1989)












terça-feira

O DIA DO INCÊNDIO DO CHIADO

Quando o telefone tocou, às seis da manhã do dia 25 de Agosto de 1988, eu não tinha dormido mais de três horas. Julguei ouvi-lo a meio de um sonho qualquer. Deixei tocar. Foi a insistência que me acordou. Era o chefe de Redação do Diário de Lisboa e o apelo foi rápido: «Vai para o Chiado que Lisboa está a arder!» Devo ter murmurado qualquer coisa, desligando logo a seguir. Havia muitas maneiras de ter isenção de horário, mas também havia limites. Deixara a Redação depois das duas da manhã, após a última impressão de um texto de página inteira para o jornal do dia seguinte. O comboio do Porto chegara pouco antes da meia-noite e, sem ir a casa, lançara-me à escrita sobre o leilão do espólio do escritor Alberto de Serpa. 

O DL era o primeiro jornal a instalar computadores e impressoras (tal como, nos idos 60, fora o primeiro a ser impresso em offset) e, recém-chegada do vizinho Diário Popular, eu ainda não me dava muito bem com a novidade de uma coisa chamada Windows. Por isso, parecera-me mais sensato ir escrever de uma assentada, antes de «arrefecer». Após duas horas à secretária, sozinha no silêncio da Redação vazia, deixara uma cópia impressa, com as fotografias ao lado, na mesa da chefia. Enviara o texto, pela rede interna, para o paginador (era a designação sempre utilizada) que, de manhã, retomaria o trabalho. Resolvida a deitar-me assim que chegasse a casa, rumei Chiado abaixo pela Rua Garrett. Já não havia metro àquela hora, e não era meu costume gastar dinheiro em táxis para «tão perto». Por isso, passara também pela Rua do Carmo, tendo estranhado que as janelas do Grandella estivessem todas abertas. Era mais um sinal da decadência total. Quem vira aqueles armazéns e quem agora os via, entregues à venda de roupa barata e quase vazios… Quando finalmente cheguei a casa, deitei-me em cima da colcha. Sem tirar a roupa, pensei assim: «Vou tomar banho daqui a bocado». E adormeci.

Estava mais ou menos na mesma posição quando o telefone tocou pela segunda vez, insistentemente, durante uns dois minutos. Era o Rodrigues da Silva, com a voz a que chamávamos «número 35». Ou seja, a voz de serviço. «Ligaram-te da chefia? Não ligaste a televisão?» A televisão? Perguntava-me pela televisão às seis da matina uma pessoa que não queria televisão em casa? «Não há televisão a esta hora!», respondi para que parasse de me moer o juízo. «Além disso, saí do jornal há bocado!» E foi então que reparei nas horas, porque ainda tinha o relógio no pulso. «E já sei que Lisboa está em chamas, blábláblá.» Nem tinha acabado o protesto e já havia um grito do outro lado, acompanhado de um chorrilho de palavrões: Eu era olisipógrafa, precisavam de mim na rua imediatamente. Fiquei sentada, com o vestido tão amarrotado como as ideias. Alonguei-me para os pés da cama, onde a minúscula televisão repousava num banquinho, e ouvi uma voz estilo «breaking news» completamente fora de horas: o Chiado estava a arder.

Não demorei mais um quarto de hora a tomar banho, vestir de lavado, apanhar um táxi e rumar ao Rossio onde, em época anterior aos telemóveis, tentei ligar de uma cabina para o jornal: não podemos subir pela Rua do Carmo, mas deixam os jornalistas ir pelo lado da Rua do Ouro. O Grandella está totalmente queimado e talvez ameace ruir. Paro e tiro uma fotografia aos bombeiros que continuam a encher de água a lava cor de laranja e fervente. «Venha por aqui, menina». O bombeiro conduz-me até ao passeio fronteiro ao gaveto da Rua do Crucifixo: «Se quer subir, é melhor ir dar a volta pela Rua Nova do Almada. Os Armazéns do Chiado já têm o fogo deste lado». Os Armazéns do Chiado? Apercebo-me então daquilo que está em jogo. Que o Grandella, todo de ferro e vidro, construção de 1907 inovadora mas frágil, com pisos esclavrados  pela encosta do Carmo acima logo na dobra do século, apresente ameaça de destruição total, não me parece paradoxal. Mas os Armazéns do Chiado, instalados num palácio com a estrutura sólida dos antigos conventos de Lisboa?

Sopra um vento ligeiro que suponho nefasto em tais circunstâncias. O dia amanhece límpido, e o vulto do fumo negro sobre a Baixa quase inteira denuncia imediatamente uma tragédia de grandes proporções. Há gente que chora, agarrada às grades que delimitam a passagem, do lado da Rua do Ouro. «Vamos ter de deslocar isto mais lá para baixo.» O porteiro do elevador de Santa Justa (a que eu sempre chamei elevador do Carmo) olha para o polícia que dá esta ordem com um encolher de ombros que me intriga. «O Senhor estava aqui quando chamaram os bombeiros?» Que estava, e esteve toda a noite. E que deu o alerta pouco depois das três da manhã. «Mas eu passei aqui às duas, e não havia nada», adiantei. «Há quem diga que só os chamaram às cinco, mas garanto-lhe que às três já eu via fumo. Ali em cima, do lado de cá.» Eram as janelas do primeiro andar do Grandella, do lado da Rua do Ouro. Faço um esforço para recordar a distribuição temática dos pisos. Havia um resto da escada original, em madeira, ao canto do andar térreo e com acesso à papelaria. O Grandella, na sua versão definitiva, era de 1907. Galerias à parisiense, de ferro forjado, que abriam sobre a entrada pelo lado da Baixa. No entanto, eu nunca o conheci assim. Nos anos 50, muito antes de eu nascer, já estava alugado por pisos. As antigas galerias, demolidas, permitiram assoalhar todos os andares, ligados entre si pelas primeiras escadas rolantes do comércio lisboeta. No início dos anos 70, faziam as delícias diárias de várias crianças, que as desciam e subiam ao contrário vezes sem conta, enquanto as mamãs se afadigavam na escolha de um tailleur de caracul.

Restavam, até àquela manhã, três bocados das escadas antigas, de madeira com corrimão de ferro forjado. E um elevador lindíssimo, que destoava daquilo que tinham feito ao resto. Ora se alguém resolvesse incendiar o Grandella, teria de ser ali, ao canto das escadas que davam para a papelaria. Encravadas na encosta, fariam o fogo subir ao longo de vários pisos antes que pudesse ser visto cá fora. Penso assim e, com igual rapidez, desfaço o pensamento. Para arder tão depressa, o prédio teve várias frentes de fogo. Quem fez o serviço, fê-lo muito bem feito. Mas talvez não imaginasse que ia largar fogo a quarteirões inteiros. Ou talvez não se importasse.

O gaveto fronteiro ao Grandella, tornejando para a Rua do Crucifixo, foi evacuado. Ali por perto, ainda em pijama, alguns dos habitantes dos últimos andares choram convulsivamente.  Alguém me fala do gatinho que ficou para trás. «Não há direito! Toda a gente sabia que o dono disto saiu ontem da prisão!» Como se fosse por demais óbvio que o Grandella acabasse por sofrer o mesmo destino de um baratucho armazém de roupas em Tavira pertencente aos mesmos donos. Indícios de fogo-posto, em Tavira, motivaram a recusa da seguradora em pagar os danos, e a Polícia abriu inquérito. «À segunda, cai quem quer», diz o povo. Havendo segunda vez, alguém trabalharia para que os tais indícios nunca pudessem ser descobertos. 

Olhei para o Grandella como se nunca o tivesse visto, como se nunca o tivesse frequentado, como se não fosse aquele o lugar que me servia de atalho, quase todos os dias, entre a Rua do Carmo e a Rua do Ouro. Olhei para ele como se não fosse o local das escadinhas rolantes da minha infância. Olhei para ele como o vi no início daquele mês de Agosto de 1988: pisos de secções esvaziadas ou com um stock de meter medo ao menos exigente dos clientes. Janelas abertas em plena noite. O destino de encerramento praticamente traçado. Nada dos esplendores dos tempos de Francisco de Almeida Grandella, o lendário fundador. Nada do chique dos tempos em que acompanhava as minhas tias para ver as novidades da estação. Olhei para ele e, vendo a escada dos bombeiros, vi o que lá dentro se perdera. Estava vazio. Já estava vazio muito antes de ter ardido.

Os pensamentos sucedem-se, tão velozes como o próprio propagar do fogo. Do lado da Rua do Ouro, ainda não me apercebo do que pode ter ardido nos contíguos Grandes Armazéns do Chiado. Ao contrário do Grandella, cujas belas fachadas abrigavam interiores modernos, os Grandes Armazéns estão como sempre foram, ostentando ainda, intacto, o interior do antigo palácio do conde de Barcelinhos: enormes guerreiros de bronze à entrada, atalantes de estuque em cada coluna de mármore, a escadaria nobre em dois lanços, os salões temáticos do primeiro andar. Largo a correr pela Rua Nova do Almada, antes de me travarem em frente da Casa Batalha e das Escadinhas de S. Francisco. Apresso-me a procurar uma credencial qualquer. «Está bem, mas suba só até à Ferrari. O fogo já vai no Eduardo Martins.» Comunica-se assim. Toda a gente, polícia incluída, sabe o nome das lojas centenárias que dão importância àqueles quarteirões. Quando ergo o olhar, já não distingo o gaveto para a Rua Garrett. O fumo negro e as chamas ainda acesas não deixam perceber onde termina o incêndio. «Posso só ir ver os Armazéns do Chiado?» A resposta é breve, enquanto passa entre nós mais uma mangueira: «Não há nada para ver, menina. Já ardeu tudo.»

Lembro-me de que estou de serviço. Não sou dona do prédio, não sou bombeira, não sou Deus. Estou de serviço para um jornal diário, fechamos às 10 da manhã, tenho de recolher todos os dados e despachar-me depressa. Limpo uma lágrima grossa que me escorre para dentro da boca. Pleno Agosto, manga curta, braço molhado. Subo mais um bocado. A água desce em catadupas. Vinte e dois mil litros de água já estão dentro dos escombros, lançados por muitos carros e do alto de seis escadas magirus. Mobilizadas todas as corporações de bombeiros dos arrabaldes, leio nos carros o nome das terras: Barcarena, Cacilhas, Alhandra… 

Estou nisto quando dou um grito e olho para os sapatos. A sola despegou-se, a água entrou pela abertura e está a ferver. Felizmente detesto sandálias. Desvio o outro pé da corrente mais próxima e acastelo-me no primeiro degrau das escadinhas, com o prédio da Casa Batalha como proteção. É dali que, à espreita, vejo a mancha cor de laranja descer, e a silhueta do fogo propagar-se na minha direção, pelo prédio da Valentim de Carvalho. Do último andar ao rés-do-chão, não me parece que leve mais de dez minutos a arder por completo. Penso vagamente nos arquivos históricos, nas vozes da Júlia Florista, da Maria Vitória, da Júlia Mendes, do António Menano. São muitas coisas ao mesmo tempo. Lá em cima, numa das janelas que dão para as escadas, um homem brada a plenos pulmões pela ajuda dos bombeiros. Conheço o interior do quarteirão. Há lojas que, clandestinamente, usam tubos improvisados para levar mercadorias para o lado da Rua Garrett. A própria Ferrari tem a fábrica de bolos num anexo longitudinal que segue pelo interior, até ficar colado à Valentim. Deve estar tudo a arder a caminho dos prédios virados para este lado.

A voz mantém-se em tom desesperado, impossível de ignorar. Como que movida a corda, subo as escadas do segundo edifício das escadinhas e, lanço após lanço, vou sentindo mais calor. No terceiro andar, a porta da rua está escancarada. Não ouso transpô-la. A realidade desenrola-se depressa demais para adaptar hábitos. Um olhar em linha reta mostra, ao fundo do corredor, meia dúzia de homens agarrados à janela. Mal dão por mim, pedem ajuda. Estão a tentar arrancar, pelo lado de dentro, uma grade pregada, pelo lado de fora, há pelo menos um século. Têm de desimpedir a janela para as mangueiras. O dono do prédio alugou o último andar, todo remodelado, há poucos meses. «Morro aqui, mas não há-de arder!» Abeiro-me da grade. O interior do quarteirão parece um cachimbo aceso. Dou pelas chamas no anexo da Pastelaria Ferrari e desvio-me logo. A Ferrari, os lanches ancestrais, o serviço de cristofle, os pratos monogramados, a arcaria de madeira, o retrato do fundador sobre a primeira arcada centenária: Mathias, o homem que ensinou o Chiado a saborear doces de colher. Tudo a desaparecer ali em baixo, como se não existisse uma capitular na palavra História.

Pergunto-lhes se pensam que o fogo vai chegar pelas traseiras. Parecem convictos de que o travarão antes que isso possa acontecer. O tubo que vai dar ao Eduardo Martins está serrado rente à janela deste lado. Talvez tenham razão. Articulo uma desculpa qualquer, falo do jornal, do serviço, da hora de fecho. Regresso às escadinhas e rumo ao topo do Chiado. Na Brasileira, os quadros a óleo foram arrancados sem grande jeito. Há um buraco aberto em cada canto de parede onde assentavam desde que, em 1971, substituíram os originais de 1925. Também à pressa vão saindo os arquivos de um banco qualquer. Pilhas de dossiês de todas as cores juntam-se, em fila, às pessoas que rezam, penduradas na grade de segurança. Para cá dessa grade, gente de joelhos. Os comerciantes da Rua Garrett pensam que, travado a norte pelo edifício do Montepio Geral, o fogo subirá agora a encosta, não poupando uma única loja da Rua Garrett. Encontro Carlos Pinto Lima, dono da Perfumaria da Moda, na Rua do Carmo (cujos interiores «estilo caixinha de bombons» fizeram de cenário no filme «O Pai Tirano», de António Lopes Ribeiro, em 1941). Diz-me apenas, apoiado no ombro do filho: «Desapareceu. A perfumaria desapareceu completamente.» Continuam sem saber o que acontecerá à sua outra loja, A Pompadour, no segundo quarteirão da Rua Garrett.

A ampulheta do tempo muda de velocidade. Estão todos à espera. À espera de notícias, à espera de conclusões, à espera que os deixem passar. Lá em baixo, os bombeiros dobram a esquina em chamas da Casa José Alexandre, onde toda a minha família teve lista de casamento. Vão tentar criar uma barreira no topo da colina do Carmo, usando as traseiras do antigo liceu. Nota-se afluência à Calçada do Sacramento. Dentro da Brasileira, de olhos postos nos buracos onde estiveram os quadros, tento ligar para o jornal usando o pequeno telefone encarnado, mesmo à porta. Em vão. As linhas não funcionam entre o Terreiro do Paço e o Bairro Alto. Repetidas vezes, o aparelho cospe todas as moedas de vinte e cinco tostões. No torvelinho de mil conversas, alguém indaga por que não aparecem os helicópteros de combate às chamas. Logo a seguir, ouço o protesto óbvio contra os novos canteiros que o presidente da Câmara mandou colocar na Rua do Carmo: «Nenhum carro de bombeiros conseguiu passar por aquele lado!» Pergunto pela pessoa com quem costumo tomar a bica da manhã. Parece que foi para o tabuleiro do elevador. Há gente quem tenha jurado mandar dali abaixo «uns certos senhores». Ao fundo da sala, o relógio não foi apeado. Nem a tela de Noronha da Costa que o acolhe ao centro. Decerto porque não conseguiram arrancá-los à pressa. Se o fogo chegar aqui, à velocidade a que se move, arderão como tudo o resto.

São nove da manhã. O incêndio chega ao telhado do edifício do Jerónimo Martins, a mercearia mais célebre de Lisboa, para onde o próprio Alexandre Herculano vendia o seu azeite de Vale de Lobos. Do outro lado da rua, é difícil vislumbrar se ainda existe alguma coisa depois da Calçada do Sacramento. Tenho de voltar para o jornal. Ainda desço o quarteirão até à esquina da Livraria Sá da Costa. O vento sopra papelotes em todas as direções. Etiquetas de preços do Grandella, faturas do Eduardo Martins, autocolantes do Martins e Costa. Dir-me-ão mais tarde que alguns papéis foram apanhados em Almada.

Estou sentada ao computador. O chefe entra e pergunta se sei exatamente o que ardeu. Se posso fazer a história daquelas casas centenárias. Preciso de ajuda dos jornais antigos? Sei quando foram inauguradas? Quem estava lá agora? Respondo com monossílabos. «Sabes que há gente de rojo à porta da Igreja dos Mártires? Gente muito rica, gente que nunca vi sorrir aos clientes, gente de rojo a rezar.» Não sei, não sabemos ainda se o Chiado não vai arder todo. Lanço-me na prosa cheia de datas e de nomes próprios: Francisco de Almeida Grandella, Nunes dos Santos, Matheus Ferrari, Augusto Neuparth, Jerónimo Martins e filho. As lágrimas, agora livres, vão correndo. Falta fechar aquelas duas páginas. Quando estiverem prontas, a rotativa começa a andar. Alguém me levou a máquina fotográfica para o laboratório, para ver se precisam de mais alguma fotografia. Apoio-me no teclado enquanto puxo do lenço. Depois de meia hora de escrita, num gesto apenas, faço desaparecer o texto. Em vão chamam o «supervisor» da informática, os gráficos que estavam à espera, o chefe da secção de montagem. Faltam duas páginas e o jornal tem de ser impresso. Repescam o meu texto sobre o leilão de Alberto de Serpa. «Não te preocupes. Fizeste o que podias. Assim que tivermos a primeira edição na rua, imprimimos a segunda, desta vez a cores e com o teu texto. Achas que consegues escrever tudo outra vez?»

E foi assim que, nesse dia, o meu relato sobre as lojas só saiu às três da tarde, num vespertino que estava à venda às duas. O Chiado não ardeu todo. O fogo estancou no prédio do Jerónimo Martins, sem ter chegado ao rés-do-chão. Durante dias, semanas, meses, um ano, fiquei «de serviço» ao que ia acontecendo nas lojas sobreviventes. Escrevi referências para prosa alheia, linhas e linhas de protestos dos comerciantes, descrições completas dos trabalhos de rescaldo, listas daquilo que não podia perder-se. Acompanhei concursos de montras e passagens de modelos. Passei a vestir e calçar só daquelas lojas. Calças da Tatá, casacos do Ramiro Leão, lingerie da Pompadour, sapatos da Orion. Visitei todas as manhãs as mesmas ruas. Durante quatro dias, não me aventurava na área ardida sem um par de sapatos suplente. Uma semana mais tarde, a água ainda corria quente pela Rua Nova do Almada abaixo. Falei com todos os comerciantes, revolvi a coleção do DL em busca de publicidades antigas das lojas, pedi ajuda a António Lopes Ribeiro para publicarmos uma versão aos quadradinhos do seu filme «O Pai Tirano». Lancei – com António Valdemar e Appio Sottomayor – um abaixo-assinado para levar ao Presidente da República. Devia fazer-se o que estivesse ao nosso alcance para manter o Chiado como parte do património histórico da cidade. Assisti à reconstrução que, durante mais de uma década, moeu o juízo e a carteira aos donos das lojas em redor do que desaparecera. Houve surpresas boas e surpresas más. O quarteirão do Eduardo Martins deixou de ter as traseiras ocupadas por anexos, transformando-se num pátio interior com entrada para vários restaurantes. O Grandella, cuja pedra calcinada ficara demasiado frágil, teve a fachada antiga reconstituída ao pormenor dos medalhões com a divisa «Sempre por bom caminho, e segue». Mas as lojas centenárias nunca voltaram. Eduardo Martins, Martins e Costa, Perfumaria da Moda, Pastelaria Ferrari, Custódio Cardoso Pereira, Casa Aguiar, Papelaria Artis, Loja 92: tudo isto se me resume, em 2013, a um monte de souvenirs que, ao longo dos anos, fui acumulando em arquivo.

Toca o telemóvel. Insistentemente. Estou de férias longe de Lisboa muitos anos depois. Desta vez, atendo à primeira porque já sei que é por causa do Chiado. Mais um colega da rádio, muito cerimonioso, a pedir informações sobre as lojas que arderam. Trata-me por tu, pá. Eu estava de serviço naquele dia.

 

Marina Tavares Dias





Dias, semanas, meses, anos
a publicar textos em defesa do
Chiado:




















sexta-feira

A FÁBRICA DO BOM SUCESSO

Quem hoje passa pela Avenida da Índia, junto ao Centro Cultural de Belém, dificilmente imagina que ali funcionou um dos mais antigos e interessantes complexos industriais de Lisboa.

A história da Fábrica do Bom Sucesso começa ainda antes de haver caminhos-de-ferro em Portugal, quando a máquina a vapor era uma novidade quase experimental. Durante mais de um século, naquele espaço apertado entre o Convento do Bom Sucesso e o Tejo houve máquinas a vapor, fundição de ferro, serração, moagem, descasque de arroz, fabrico de vidro e grandes chaminés. O rio chegava então praticamente às paredes dos edifícios.

Em 1819, João Baptista Angello da Costa & Companhia instalou um pequeno complexo fabril nos armazéns anexos ao Convento do Bom Sucesso. Chamou-lhe Fábrica Nacional Privilegiada das Máquinas de Vapor (na época também referida como Nacional Fábrica de Máquinas Movidas a Vapor). A empresa destinava-se à serração de madeiras, moagem de cereais, descasque de arroz, fundição de metais e construção de máquinas a vapor. Terá começado a laborar em 1821, provavelmente utilizando uma máquina do sistema Wolf. Foi a primeira fábrica portuguesa movida a vapor. 

Por trás da iniciativa encontravam-se homens particularmente atentos à Revolução Industrial inglesa. Entre eles estava António Julião da Costa (1794-1869), cônsul de Portugal em Liverpool, associado a João Baptista Angello da Costa e João Pedro de Carvalho da Costa. As ligações britânicas ajudam a explicar a precocidade tecnológica do empreendimento. 

A própria companhia esteve relacionada com outra novidade extraordinária: a introdução da navegação a vapor em Portugal. Em 1821, o Conde de Palmella navegava no Tejo; no ano seguinte, o Lusitano estabelecia a ligação por vapor entre Lisboa e o Porto.

A importância da fábrica ficou registada no ‘Diário do Governo’ de 3 de Janeiro de 1822. A oficina de fundição, situada expressamente «em Belem, contígua ao Convento do Bom Sucesso», anunciava-se capaz de fundir peças de ferro e outros metais e produzia uma variedade surpreendente de objectos: prensas tipográficas, almofarizes, fogões, cabrestantes e guindastes para navios e armazéns, pesos, ferros de engomar e numerosas peças de maquinaria.

Em 1824, aparece pertencendo a Francisco António Ferreira, que em 10 de Janeiro do ano seguinte pede autorização para juntar usinas de vidro à sua «Fábrica movida por Máquinas de vapor, e Fundição de ferro, estabelecida no sítio do Bom Sucesso». A 8 de Fevereiro requere também (à Alfândega) o registo do carvão de pedra destinado ao funcionamento das suas fábricas. 

A vidraria deixou marcas extraordinárias debaixo dos edifícios. Escavações arqueológicas realizadas em 2019 e 2020 revelaram estruturas subterrâneas associadas a um grande forno de cone, com canais abobadados e alvenarias ainda marcadas pelas altas temperaturas. É um dos aspectos mais interessantes do sítio: por baixo de construções que gerações sucessivas utilizaram para outros fins sobreviveram os restos materiais de uma fábrica de vidro da primeira metade do século XIX.

Entretanto, o Bom Sucesso especializou-se progressivamente na moagem. Na carta topográfica de Filipe Folque (1857), o complexo aparece já extensamente edificado. Em 1884, a Fábrica de Moagem do Bom Sucesso era descrita no registo da contribuição predial como uma propriedade junto ao convento, «com frente para o Tejo». Quatro anos depois, em 1888, foi ampliada para o lado do rio e recebeu mais um piso. 

Em 1890 empregava 42 homens, possuía potência de 60 cavalos e produzia para todo o mercado português. Trabalhava com máquinas alimentadas por dois geradores tubulares do sistema Nayer & C.ª. Entre os proprietários oitocentistas que passaram pela fábrica contam-se António Julião da Costa, João Pedro Carvalho da Costa e a firma Reis & Ramires.

No final do século encontramos José António dos Reis à frente da moagem. A imprensa anunciava a “Fabrica do Bom Successo — Moagem de trigo a vapor, dotada de moagem por cilindros e dos aperfeiçoamentos modernos”. Vendia farinhas, cabecinha, sêmeas e outros produtos da moagem. O escritório comercial era na Rua da Alfândega, 108, 1.º.

Há um projecto de 1900 para a construção de novo edifício. Em 1904 foi ampliada a chaminé, e em 1909 José António dos Reis mandou construir três novos armazéns. Parte dessa arquitectura industrial sobrevive, incorporada nos edifícios da actual Avenida da Índia.

A partir de 1907, a propriedade começou a ser sucessivamente adquirida pela Companhia Industrial de Portugal e Colónias, uma das grandes empresas portuguesas do sector moageiro. Durante a década de 1920, o velho Bom Sucesso aparece já integrado no seu vasto património. Mas a concentração industrial começava a tornar dispensável aquela fábrica centenária. A Companhia possuía instalações maiores noutras zonas de Lisboa e foi transferindo a produção para oriente. No relatório de contas referente a 1934 dizia-se já que as fábricas de moagem da Estrela e do Bom Sucesso tinham sido incorporadas nas do Beato e de Xabregas.

O fim da moagem não significou imediatamente o desaparecimento dos edifícios. A Companhia Industrial de Portugal e Colónias ainda aparece em 1940 em documentação municipal relativa aos números 7, 9 e 11 da Rua da Praia do Bom Sucesso. Mas a grande transformação urbanística provocada pela Exposição do Mundo Português e, depois, a abertura e regularização da Avenida da Índia alterariam definitivamente aquela frente ribeirinha.

Quando os arqueólogos voltaram ao lugar, em 2019-2020, encontraram uma espécie de cidade industrial enterrada. Quinze sondagens deram lugar à escavação de cerca de 2500 metros quadrados. Sob os pavimentos permaneciam fundações, canais, fornos, condutas, paredes e sucessivas reconstruções correspondentes a diferentes tecnologias e épocas.

E apareceu algo ainda mais antigo do que alguns dos edifícios fabris: grandes estruturas de pedra acompanhando a antiga margem. Os paredões da frente flúvio-marítima poderiam ter funcionado como ancoradouro ou varadouro para embarcações que abasteciam as fábricas. Uma delas chegava quase aos três metros de altura. 

É talvez a melhor imagem para compreender o Bom Sucesso de então. Antes da Avenida da Índia, antes dos aterros e antes do Centro Cultural de Belém, a fábrica estava verdadeiramente à beira do Tejo. O carvão, as matérias-primas e as mercadorias podiam chegar de barco. Ali começou a trabalhar uma máquina a vapor quando o vapor ainda era notícia; ali se fundiu ferro, se fabricou vidro, se descascou arroz e se moeu trigo durante mais de cem anos. E alguns dos discretos edifícios que hoje sobrevivem junto à Avenida da Índia são os últimos restos à superfície de uma história industrial começada em 1819.



Panorama do Bom Sucesso em 1939,
com o edifício da fábrica de moagem
à esquerda (fotografia de Eduardo Portugal)


Rua da Praia do Bom Sucesso
(fotografias de Eduardo Portugal, 1939)







quinta-feira

QUANDO LISBOA IA A BELAS

Agosto era o mês em que Lisboa inteira parecia pôr-se a caminho de Belas (Bellas). Os lisboetas abandonavam por um dia os ofícios, as lojas, as oficinas e as casas. Carregavam cestos, garrafões, crianças e partiam para a romaria. Era o Senhor da Serra, celebrado na grande Quinta do Marquês ou Paço dos Marqueses de Belas. 


Fazia-se o caminho a pé, em carroças ou charabãs. No final do século XIX, a maioria seguia já de comboio até Queluz, e daí continuava de carruagem. Esta enorme quinta é muito anterior à romaria. Documentação do início do século XIV diz que esteve ligada à família de Diogo Lopes Pacheco (um dos fidalgos envolvidos na morte de D. Inês de Castro). Passou depois para posse da Coroa e por sucessivas famílias, até ficar associada aos futuros marqueses. Ao longo de séculos, o velho paço foi transformado em propriedade de recreio com jardins, mata, alamedas, fontes, tanques, pomares e construções religiosas. A Capela do Senhor da Serra e a sua Via-Sacra são de 1740. 


Em 1795, Joaquim José de Barros Laborão ergueu um grande obelisco comemorativo da estadia dos príncipes D. João e D. Carlota Joaquina. Ainda lá está,  agora por baixo do viaduto da CREL. É o mesmo monumento em torno do qual, mais de cem anos depois, vários fotógrafos registaram romeiros a merendar. Em 1799, Domingos Caldas Barbosa, na ‘Descripção da Grandiosa Quinta dos Senhores de Bellas’, descreve já uma propriedade acessível a todos os visitantes. A grande peregrinação  popular celebrizou-se após as epidemias da década de 1850, Já era considerada tradicional em 1896. Em Agosto, toda a imprensa lisboeta anunciava: «Ha hoje romaria para Atalaya e Senhor da Serra em Bellas», acrescentando que mais de oitenta empregados e fregueses da Sapataria Lisbonense, da Rua Augusta, seguiam para a festa. Dois anos depois, a 10 de Setembro de 1898, ‘O Occidente’ chama ao Senhor da Serra “a romaria mais notável da região”, com bailes, chinquilho, concursos e barracas de comes-e-bebes. 


O jornal ‘Brasil-Portugal’ (1899) entra verdadeiramente na festa. Escrito durante a crise da peste bubónica do Porto, declarada nesse Verão e combatida pelas autoridades sanitárias dirigidas por Ricardo Jorge, o texto conta que, apesar de o círio ter nascido por ocasião da outra epidemia, a festa já se celebrava muito antes. Em 1899, «paes, filhos, mães, avós, amantes, netas, familias inteiras, tribus completas» tomam o caminho-de-ferro, «que em meia hora os põe em Queluz».


Levam vinho e merenda monumental: carneiro, leitão, cabrito, arroz, fruta. À sombra de árvores seculares, nas encostas da quinta, comem, bebem, cantam e dançam ao som dos harmónios e das gaitas de foles. O cronista resume: para que haviam de pensar naquele dia nas suas lojas e oficinas? «A verdadeira officina, a verdadeira loja, a verdadeira fabrica, é esta. Aqui respira-se, come-se, bebe-se, dança-se, ama-se, goza-se.»


Depois da merenda, começa a subida. A capela fica bem acima do local das festas, alcançada por um caminho íngreme. É, escreve o jornalista, «tão santa como pequenina e tão pequenina que até parece impossível caber lá um Senhor de tanto poder». Atribuem-se-lhe milagres: dar vista aos cegos, fazer andar os coxos e conseguir casar todos os namorados. Dentro da capela reza-se, deixam-se esmolas e compram-se medalhas e pagelas que muitos colocam na aba do chapéu, ao modo oitocentista.


Há na quinta uma rocha ainda mais antiga que a capela: chamam-lhe Pedra Alta e é monumento megalítico. O ritual manda trepá-lo e escorregar: é um costume relacionado com ritos de fertilidade. No século XXI, a pedra ainda está polida por tantas descidas. João de Barros aventou a hipótese de ali ter sido sepultado Viriato.


Voltemos a 1899. Terminadas as orações, a multidão desce novamente para Belas. «A pé, em jericos, em char-à-bancs, em carroças», rindo e cantando. No largo recomeçam os bailes, os jogos, as comidas e o vinho. A reportagem termina como comédia. Uma cigana a dançar torna-se «rainha da romaria», recebe galanteios de todos os lados e acaba por provocar ciúmes, insultos e enorme zaragata entre os admiradores.


Joshua Benoliel fotografou a romaria para a ‘Illustração Portugueza’ (2 de Setembro de 1907). Vemos a Pedra Alta cheia de homens, mulheres e crianças; romeiros, carroças e grupos espalhados. Mais uma vez, cestos abertos, garrafões no chão e famílias debaixo das árvores mostram a velha quinta aristocrática entregue, pelo menos por um dia, a todo o povo de Lisboa. Assim foi todos os anos, em Agosto, até 1940. 


Marina Tavares Dias

















sexta-feira

CHAPÉUS HÁ MUITOS

 «Chapéus há muitos, seu palerma!» A frase de Vasco Santana atravessou gerações e continua a ser repetida muito depois de os chapéus terem desaparecido do quotidiano da maioria dos lisboetas. Durante séculos, claro, Portugal foi um país de chapéus. Distinguiam classes sociais, profissões e gerações. 

O lisboeta ‘chapéu à Patuleia’, hoje quase esquecido, sobrevive na velha canção do boleeiro Timpanas, transformado em personagem do filme ‘A Severa’ (Leitão de Barros, 1931) — que fala do «Pinóia na boleia, de chapéu à Patuleia». Era o chapéu típico dos boleeiros das antigas seges lisboetas, associado à arraia-miúda, à «patuleia», armado em fino.

Se o chapéu à Patuleia pertence à Lisboa popular, o tricórnio transporta-nos para o século XVIII. Com as suas três pontas características, foi usado por militares, magistrados, comerciantes e fidalgos (reinado de D. João V e a época pombalina). Júlio Dantas recordava uma história lisboeta ligada a este chapéu. Durante escavações no Quartel do Carmo, foi descoberta uma dependência entaipada onde jaziam dois esqueletos. Junto ao homem encontrava-se um tricórnio. Envergava ainda restos de uma casaca roxa; a mulher conservava véu sobre o crânio e um único sapato de fivela. Teriam ficado ali presos durante mais de cem anos.  O tricórnio foi guardado durante décadas, sob uma redoma, no quartel. Dantas observou que ninguém era enterrado de chapéu, muito menos um casal o teria sido daquela forma. Ficou por resolver o mistério daqueles dois desconhecidos, esquecidos atrás de uma parede.

No final do século XVIII, o tricórnio deu lugar ao bicórnio, o célebre «chapéu de dois bicos». Foi o chapéu dos altos funcionários, dos conselheiros, dos magistrados e dos oficiais do liberalismo oitocentista. A sua memória chegou até aos nossos dias por caminhos inesperados. Muitas crianças portuguesas cantaram durante décadas «O meu chapéu tem dois bicos» (celebrizada por João Maria Tudella), sem suspeitarem que estavam a evocar uma moda que era comum nas ruas da cidade do início de Oitocentos. Tal como o chapéu à Patuleia ou o tricórnio do Quartel do Carmo, o bicórnio sobreviveu na memória colectiva.

Em época sem chapéus cerimoniosos, restam os bicórnios e os tricórnios das gravuras antigas, das canções e filmes de época; restam livros de memórias e até expressões populares. O tricórnio lembra a Lisboa pombalina; o bicórnio evoca o início do século XIX; o chapéu à Patuleia faz regressar os boleeiros das seges. Na tela ou no écrã, Vasco Santana continua a lembrar-nos que o chapéu faz parte da memória colectiva da cidade. Chapéus há muitos. Todos com uma história.



'Costumes Portuguezes' por George Landmann
(gravura de Daniel Lerch, publicada em Londres, 1818-1820)


Archeiro da Guarda Real. 
Aguarela de Alfredo Roque Gameiro, 
publicada no Álbum de Costumes Portugueses (1888)

Três tipos populares lisboetas à porta do café. 
Desenho de José António Severini, século XIX. 
A gravura mostra a diversidade dos chapéus 
usados na Lisboa oitocentista

O actor Silvestre Alegrim no papel de Timpanas, 
famoso boleeiro de seges da Lisboa oitocentista, 
com o seu 'chapéu à Patuleia'
('A Severa', de Leitão de Barros, 1931)








CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...