Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

segunda-feira

SOUSA MARTINS: SANTIDADE IMPROVÁVEL

No Campo de Santana — hoje Campo dos Mártires da Pátria — ergue-se um dos monumentos mais estranhos de Lisboa. Não pela forma, mas pela paradoxal história que o rodeia. O de José Tomás de Sousa Martins não é apenas uma estátua: é um lugar de culto. E isso começa logo na sua morte, em 1897. 

A comoção foi imediata. Médico dos pobres, professor na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, figura respeitada mas sem qualquer aura religiosa em vida, Sousa Martins morre relativamente novo e em circunstâncias trágicas. O funeral transforma-se numa manifestação de massas. Não é ainda devoção organizada, mas já não é simples homenagem. 

Há ali qualquer coisa de mais fundo: uma transferência afectiva directa, quase visceral, de quem dele ouviu falar. Nos meses seguintes, surge no Campo de Santana um primeiro monumento (hoje quase esquecido) de carácter alegórico. Representava a Ciência, a Caridade, o Povo, a Pátria. Tudo na base, com a figura do homenageado pelo meio. Académico, retórico, perfeitamente alinhado com a escultura oficial do tempo, falhou no essencial. O povo não queria alegorias. Queria-o a ele.

Porque, entretanto, algo de mais inesperado estava a acontecer: começava a fervorosa devoção popular. Não lenta, não construída: imediata. Crentes que acendiam velas, faziam promessas, atribuiam curas. Sem Igreja, sem canonização, sem doutrina. Um médico laico, formado no ambiente positivista de Lisboa académica, passa a ser tratado como intercessor. Esse milagre nunca mais desaparece.

Em 1904 inaugura-se o monumento definitivo, de Costa Motta (tio). A mudança é total. Sousa Martins surge no alto, reconhecível e próximo do real. A composição deixa de ser programa simbólico e passa a ser presença visível. Não se trata apenas de escultura, é mote de uma relação. Continuaram a arder velas aos seus pés e começaram a acumular-se placas de mármore com nomes, pedidos e agradecimentos. Como se a estátua fosse uma espécie de alternativa à imagem de S. Judas Tadeu. Isto já seria notável. Torna-se ainda mais quando se lê o que ele próprio escreveu.

No volume ‘Antero de Quental – In Memoriam’ (no ensaio “Nosographia de Anthero”), Sousa Martins analisa Antero de Quental com uma frieza quase desconcertante. Não há ali tragédia metafísica, nem génio incompreendido. Há diagnóstico. Antero é, para ele, “um nevropathico”, dominado por “uma nevrose profunda, essencialmente cerebral”. O seu pessimismo não é filosofia: é “uma forma mórbida da sensibilidade”. A obra não explica o homem — é a doença que explica a obra. E o suicídio não é escolha: é “o termo fatal de uma evolução mórbida”.

É o positivismo oitocentista em toda a sua glória, no seu momento mais seguro de si: tudo reduzido ao sistema nervoso, ao determinismo biológico, à causalidade clínica. Não há alma autónoma, não há transcendência. É esse mesmo homem, que pensa assim, que recusa implicitamente qualquer sobrevivência espiritual, que se torna, após morrer, aquilo em que nunca acreditou: presença para além da morte.

O contraste entre a realidade e a imaginação popular não podia ser maior. De um lado, o médico que explica o espírito pela matéria. Do outro, o povo que transforma essa matéria em espírito. Entre ambos, um monumento que começou por ser alegoria e acabou por ser ícone à escala humana, disponível para a conversa silenciosa de quem ali vai pedir.

Tudo isto torna o caso de Sousa Martins único em Lisboa: não é apenas o culto popular, nem apenas a memória cívica. É uma espécie de curto-circuito entre duas formas de ver o mundo. Nesse choque, foi a visão mais antiga — a da necessidade de acreditar — que venceu.




O primeiro monumento a Sousa Martins,
que não granjeou simpatias, 
e a construção do que
ainda está no Campo de Santana 
(fotografias de José Artur Bárcia)


Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigados pelo seu comentário. Aquilo que os leitores nos dizem é da máxima importância. Se quiser denunciar plágios ou cópias de imagens ou informações, por favor deixe explicito qual o site ou perfil que devemos investigar.