Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

domingo

O MEU PROFESSOR ANTÓNIO LOPES RIBEIRO

Há figuras que pertencem à história, e outras que permanecem, sobretudo, na memória viva de quem com elas privou. António Lopes Ribeiro era, curiosamente, ambas. Quando o conheci, no IADE, eu tinha 19 anos e começava a escrever para os jornais; ele já trazia consigo um mundo inteiro de cinema, vivido por dentro e contado com uma naturalidade desarmante.

Falava-nos de encontros com Sergei Eisenstein, Fritz Lang, Erich von Stroheim ou Irving Thalberg — nomes que para nós eram quase mitológicos — como quem evoca conversas de café. Conhecera todos. E, no entanto, nunca havia ostentação: antes uma espécie de pudor elegante, uma modéstia genuína que contrastava com a dimensão da sua experiência.

Levou-nos à Cinemateca, que ajudara a fundar, para vermos os seus filmes. Numa dessas sessões, o ‘Amor de Perdição’. Foi aí que nos apresentou ao António Vilar. Já envelhecido, Vilar conservava intacto o porte do ‘Carlos Bonito’ de outros tempos. Aproximou-se de nós com uma lentidão cerimonial e beijou a mão de cada rapariga da turma. Ficámos sideradas — tão jovens, nem sabíamos o que fazer após tal gesto.

A Leonor Nunes, colega na revista ‘Mulheres’, frequentou um ano do curso comigo. No dia em que morreu Francisco Ribeiro (Ribeirinho), irmão dele, todos pensámos que não havia aula. Só nós duas aparecemos nessa tarde. Lopes Ribeiro chegou inesperadamente, agiu como se fosse um dia como os outros, tirou a gabardina, pendurou-a na cadeira, sentou-se com calma. E como se a sala não estivesse quase vazia, começou a aula: “Vamos falar de uma arte que imortalizou o meu irmão.”

Agora recordo, sobretudo, a amizade inesperada que nasceu. Tornámo-nos próximos, e eu ia visitá-lo ao Círculo Eça de Queiroz. Entrevistei-o várias vezes, e reencontrei sempre o mesmo homem: atento, discreto, quase surpreendido com o interesse que despertava.

Anos mais tarde, quando o Chiado ardeu — esse golpe tão fundo na memória da cidade —, foi ele quem me ajudou, na Redacção do ‘Diário de Lisboa’, a construir uma espécie de fotonovela de jornal, a partir do seu filme ‘O Pai Tirano’. Perante a destruição real, recorríamos à ficção para recompor, ainda que provisoriamente, a cidade perdida. Estava lá toda: Grandella, Perfumaria da Moda, Cardoso dos chapéus, Café Chiado com a sua tabacaria, etc, etc.

Assim o guardo: não apenas como o realizador associado a um tempo e a um regime, mas como um homem de cultura rara, generoso no saber e no gesto, que aproximava os outros — mesmo os mais novos — de um mundo já distante. Porque tudo, com ele, ficava subitamente próximo e outra vez vivo.


Marina Tavares Dias 






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