quinta-feira

JERÓNIMO MARTINS


Desde 1878, era para aqui (de Vale de Lobos, onde voluntariamente se exilara) que Alexandre Herculano exportava em exlusivo o seu azeite de médio proprietário agrícola. Este "aqui" era uma casa referencial de Lisboa e sê-lo-ia até ao incêndio do Chiado de 1988: o Jerónimo Martins. Ei-la, talvez no máximo do seu esplendor de múltiplas montras ostentatórias quer da variedade e do exotismo dos produtos à venda, quer do dourado das suas medalhas, quer ainda do pergaminho da data setencista da sua fundação (1792). Tem de tudo esta casa única no seu género no Chiado da época: víveres, leques e perfumes, louças da China e do Japão, novidades, chás... Será um chá isso que a dama do chapéu escolhe? E que faz ali, parada no passeio, a rapariga de avental? Um homem, apressado, sobe a Rua Garrett. Outro, mais vagaroso, desce-a. Um marçano estacou a meio para dois dedos de conversa com alguém encoberto pelo candeeiro (ainda a gás? já de electricidade?). Numa porta, e mal se vê, enfastia-se um lojista posterior a Cesário, doutra parece ir sair um rapaz com um saco. De chapéu na cabeça, três outros olham a objectiva, como o faz a rapariga do avental. Nenhum tem nada nas mãos, e as mãos sobram-lhes. Como o tempo que por este Chiado passa. É Lisboa, 1903. Lentas escorrem as horas frente ao Jerónimo Martins...

Texto do livro «Os Melhores Postais de Lisboa» de Marina Tavares Dias. Imagem: Arquivo MTD.



segunda-feira

Menu do salão de chá, pastelaria e restaurante dos Grandes Armazéns do Chiado, 1955. Em: «Lisboa Desaparecida», volume IX, capítulo «Restaurantes e Petiscos». Peça do Arquivo Marina Tavares Dias.







domingo

 Correu até ao fim

Placa toponímica da Rua Francisco Lázaro, representando em painel de azulejos - mais ou menos fantasista - o maratonista português que morreu em Estocolmo durante os Jogos Olímpicos de 1912.

A lenda do desportista foi acalentada pela tragédia. Do diminuto grupo português da nossa primeira presença nas Olimpíadas, a grande estrela era o recordista dos 100 metros: António Stromp. Foi ele quem primeiro pisou um estádio olímpico, em competição, com a camisola das quinas. A Rua António Stromp é no Lumiar. Mas painel assim (cópia do original da década de 1920), só existe este, na transversal da Rua dos Anjos.



quarta-feira

O ELÉCTRICO PARA A BOLA


O domingo em todo o seu esplendor. Dia de futebol. Carro "à cunha" . Só homens, a caminho dos estádios. Para ir ver o Benfica ao Campo Grande, ou o Sporting ao Lumiar, viajar de eléctrico, mesmo nas piores condições, podia ser uma aventura. Disso é prova o aspecto alegre destes "penduras" em fato domingueiro. Em plena Avenida da República, vislumbra-se, à esquerda, o edifício da Ideal das Avenidas, hoje demolido (fotografia c. 1948, arquivo M.T.D. - direitos reservados).




sábado

 COLUNAS AO CONTRÁRIO

NA RUA DA MOURARIA


O Colégio dos Meninos Órfãos foi construído em 1273, por iniciativa da Rainha D. Brites, mulher de D. Afonso III. Séculos mais tarde, no século XVI, esteve sob protecção de D. Leonor, mulher de D. João III. Dessa data serão estas colunas posteriormente derrubadas pelo teramoto de 1755.
Quando o portal foi reconstruído, as colunas foram colocadas ao contrário: as bases em cima e os capitéis em baixo.
Assim podem ainda ver-se, no edifício que albergou a esquadra da Mouraria.


Fotografia: Marina Tavares Dias, Outubro do 2024






quarta-feira

Fotografia única do Rei D. Carlos


A mais extraordinária fotografia do Rei Dom Carlos é provavelmente esta, tirada por Joshua Benoliel durante um torneio de florete presidido pelo Rei, na Tapada da Ajuda, em 1907.


Ao lado, fardado, o Infante D. Afonso. O Rei muito mais informal, traja casaco sem bandas e colete de gola, calça 'pied-de-poule' e chapéu mole. Pela primeira vez e talvez única vez, o fotógrafo apanhou-lhe o sorriso rasgado, revelando dois dentes nitidamente tortos. Não se preocupa, sequer, em esconder o curativo que lhe protege o dedo queimado pelo calor do charuto.


A imagem foi considerada tão excepcional que vários editores de postais ilustrados a reproduziram na época, mas a riqueza de pormenores apenas é perceptível numa ampliação razoável e a partir do original, como a que aqui mostramos.


Negativo e prova originais
pertencentes ao ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS.

Emprestada para celebração do centenário, em 2008, foi depois abusivamente copiada por vários «sites», decerto cedida por quem organizou o evento.




terça-feira

 LISBOA DE FERNANDO PESSOA



LISBOA NOS PASSOS DE FERNANDO PESSOA

LISBON IN FERNANDO PESSOA'S FOOTSTEPS
- NOW IN ENGLISH AND PORTUGUESE EDITION

Not a turistical guide. Not a collection of modern photographs. A story of the Poet's life illustrated by sellected images during a 25-year old research. The city exactly as Pessoa saw it during his lifetime.


Lisboa e Fernando Pessoa são indissociáveis, como o demonstra Marina Tavares Dias, profunda conhecedora da cidade e também da vida e obra do poeta.

Viagem única através de textos e de imagens inéditas da
época, este passeio pela Lisboa pessoana remete-nos para uma Baixa Pombalina alegre e animada, muito diferente da actual, e para uma cidade em que bairros residenciais, como Campo de Ourique, eram ainda considerados pitorescos e muito longínquos do centro.

Um passeio memorável e uma vivência ímpar de cenários que o
poeta conheceu, tal como ele os conheceu. 

Eis o que Marina Tavares Dias nos oferece nestas páginas.





COD INTERNO
28309
ISBN
978-989-672-115-2
EAN
9789896721152
TITULO
Lisboa nos Passos de Fernando Pessoa
AUTOR
Dias, Marina Tavares
EDITORA
OBJECTIVA
PVP
22,00 €

TEMATICA:
Monografias




 CHIADO ACIMA, CHIADO ABAIXO


É comum encontrar uma dúzia de conhecidos enquanto se percorrem os quarteirões da Rua Garrett. O que levaria cinco minutos a descer transforma-se em derrame duma manhã inteira. Mas ninguém se importa com isso. Há tempo para tudo, ou assim parece. Toma-se café sempre sentado e à espera de companhia. As misturas são aromáticas e diversas - provenientes das colónias ou dos negócios rentáveis com o Brasil - mas vêm mornas. Não é hábito encher a chávena atrás do balcão: os criados trazem-na vazia até à mesa onde aviam da mesma cafeteira todos os convivas. A palavra “bica” está, portanto, por inventar. A melhor moka do século XIX não passa daquilo que, no futuro, se chamará “café de saco”.

(in Lisboa Desaparecida de Marina Tavares Dias, volume IV)

Em baixo: Interior dos Grandes Armazéns do Chiado
Fotografia de Marina Tavares Dias, 1985




domingo

OURIVES, FOTÓGRAFO, AMIGO DE FERNANDO PESSOA

Carlos Eugénio Moitinho d’Almeida, empresário lisboeta ligado à histórica Ourivesaria Moitinho, da Rua da Prata, onde Fernando Pessoa trabalhou durante largos anos como correspondente comercial. 

Figura da burguesia mercantil da Baixa de Lisboa no final do século XIX e início do século XX, pertenceu a uma família tradicionalmente associada à ourivesaria portuguesa. Foi fotógrafo amador, distinguido com vários prémios. 

O ambiente dos escritórios da firma Moitinho de Almeida inspiraria mais tarde algumas das páginas mais célebres do ‘Livro do Desassossego’.






O MONTE DE S. GENS

Colina lisboeta, o antigo Monte de São Gens é mais importante do que a sua posterior invocação mariana. A designação conservou a memória do santo muito antes de o sítio passar a ser conhecido sobretudo como Senhora do Monte. Durante séculos, o local esteve ligado aos primeiros eremitas agostinhos instalados após a conquista de Lisboa em 1147. 

A famosa Cadeira de São Gens, que ainda hoje inspira pedidos devocionais, é um dos elementos trasladados do santuário mais antigo para a nova ermida construída um pouco acima do local original.


(continua no livro LISBOA MISTERIOSA)

Postais ilustrados de José Bárcia
e Eduardo Portugal.
Vista estereoscópica London S. Company.







sábado

O CÉLEBRE 92

 A célebre Loja 92 da Rua Nova do Almada, no Chiado, foi fundada em 6 de julho de 1876 por Albino José José Baptista. Vendia bengalas, leques, sombrinhas, guarda-chuvas e outros acessórios de moda, muitos deles exclusivos e inspirados nas novidades parisienses. Tornou-se uma referência no comércio lisboeta do final do século XIX. O número da porta — 92 — acabou por dar nome ao estabelecimento, que era conhecido simplesmente como ‘Loja 92’. No início do século XX a firma prosperou e abriu também uma sucursal na Rua do Ouro, nº 110. 

Entre os hábitos da casa estava o de oferecer brindes aos melhores clientes (final do século XIX e primeiros anos do século XX). Os pratos decorativos, com o ano inscrito e produzidos especialmente para a loja, eram oferecidos como recordação, mediante a entrega de vários ‘coupons’ de compras. São hoje peças muito procuradas pelos coleccionadores de objectos lisboetas.

O 92 ardeu no incêndio de 25 de Agosto de 1988. Ainda se instalou provisoriamente numa rua da Baixa, onde Marina Tavares Dias entrevistou os proprietários, em Dezembro desse ano. Esperavam regressar ao Chiado após as obras de reconstrução. Nunca aconteceu.





quinta-feira

RENDEZ-VOUS DAS GALINHAS

Designação cosmopolita e sofisticada para uma venda que seria tudo menos isso. Na década de 1920, ainda podia matar-se a criação à frente do cliente. Coisa que decerto não impressionaria estes vendedores, felizes por poderem posar para o retrato.

O Mercado das Picoas, oficialmente chamado Mercado 31 de Janeiro, foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa em 1905, quando a zona das Avenidas Novas começava a urbanizar-se rapidamente. Destinava-se a abastecer os novos bairros que cresciam em torno das Picoas, do Saldanha e de São Sebastião da Pedreira. Ao contrário de outros mercados municipais construídos em pavilhão, o das Picoas funcionou durante muito tempo de forma simples, com bancas e pequenas lojas voltadas para a rua, formando um mercado muito vivo e popular. Ali vendiam-se os produtos essenciais da alimentação quotidiana — hortaliça, fruta, peixe, carne, ovos — e era frequente encontrar aves vivas, como galinhas ou coelhos, que eram preparadas no próprio local. 

Em 1929, participou no concurso 'Rainha dos Mercados de Lisboa', organizado pelo Diário de Lisboa, iniciativa que envolveu vendedeiras de vários mercados da cidade. O prémio com que foi distinguido esteve inscrito numa placa até ao fim. Durante todo o século XX, o 31 de Janeiro manteve-se como importante ponto de abastecimento da zona, muito frequentado pelos moradores. Continuou em funcionamento até ao início da década de 1990. Foi o penúltimo mercado tradicional de Lisboa a encerrar. O último seria o de Santa Clara.






CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...