Os grandes cartazes pintados à mão começaram a transformar as fachadas dos cinemas de Lisboa quando surgiram as grandes salas construídas nas décadas de 1930, 40 e 50. O Éden, o Condes, o Monumental, o São Jorge, o Alvalade, o Império ou o Restelo não anunciavam apenas os filmes: convertiam toda a fachada num espectáculo. Retratos gigantes das vedetas, títulos, cenas de acção e composições concebidas para serem vistas à distância ocupavam paredes inteiras e mudavam ao ritmo das estreias. Os primeiros artistas desta tradição continuam, em grande parte, por identificar. Os nomes que hoje recupero pertencem sobretudo à última geração do ofício, activa entre o fim dos anos 50 e o princípio da década de 1990.
O trabalho de Adriano Rodrigues (Roiz) está documentado entre 1957 e 1988. Pintou para o Condes, o Alvalade e o Chiado Terrasse. Os seus álbuns, entregues à Cinemateca em 2005, conservam centenas de fotografias de cartazes e do próprio artista a trabalhar.
Luís Furtado, nascido em Loulé em 1941 e falecido em 2021, chegou a Lisboa com treze anos e entrou num atelier de cartazes como ajudante. Pintou para o Condes, o Monumental, o São Jorge e o Alvalade. Recordava, entre outros, os cartazes de 'Camelot', 'O Vale do Arco-Íris', 'Jesus de Nazaré' e 'Willow'.
As telas podiam atingir onze metros. Preparavam-se com farinha e pintavam-se com tinta de água. Terminada exibição, eram lavadas e reutilizadas. Em 1991, 'O Jornal' ainda cita vários profissionais da especialidade. No ano seguinte, o 'Público' apresentava-o já como «o último dos grandes pintores de cartazes».
O artigo de 28 de Junho de 1991 permite recuperar dois nomes quase esquecidos: João Teodoro e Carlos Dias. Uma fotografia da execução dos cartazes da fachada do Éden, em 1982, identifica ainda José Luís Seixas, acompanhado por Carlos Dias, Vicente Rita e Carlos Rodrigues. Outro texto documenta trabalhos no Cinema Castil, em Outubro de 1981.
Luís Furtado pertenceu também ao mundo da cenografia. Trabalhou para o Teatro Nacional de São Carlos, para o Teatro Maria Vitória, na televisão e em concursos como 'Jogos sem Fronteiras'.
Esta arte começou antes destes homens. Não foram os fundadores, mas os últimos herdeiros de uma tradição nascida com os grandes palácios cinematográficos. Quando as salas fecharam, foram divididas ou substituíram a pintura por impressões fotográficas e processos informáticos, desapareceram também os ateliers e as enormes telas.
Quase nada sobreviveu, porque os panos eram lavados e voltavam a servir. Restaram as fotografias das fachadas — e alguns nomes que agora tento fazer a sair do esquecimento.
Marina Tavares Dias
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