Fundada em 1856, a firma J. Nunes Corrêa & C.ª foi das melhores alfaiatarias de Lisboa e uma das mais antigas de Portugal. Jacinto Nunes Corrêa (1830-1905), iniciou actividade como sócio de Manuel Igreja e de Jerónimo José de Abreu. Instalaram-se no ângulo da Rua Augusta com a Rua de São Julião. Segundo tradição da própria casa, Jacinto já estaria familiarizado com o ofício, que iniciara sob orientação paterna. Foi ele quem deu à empresa uma dimensão inédita, trazendo novidades regularmente de Paris e Londres, e escolhendo criteriosamente todos os tecidos que acompanhavam a moda masculina.
A Nunes & Corrêa destacou-se também pela modernidade das oficinas. Foram os primeiros comerciantes a importar directamente fazendas do estrangeiro e a introduzir em Portugal uma máquina de costura Singer. Na alfaiataria chegaram a trabalhar sessenta costureiras, dirigidas por seis contra-mestres de várias nacionalidades.
Dos alfaiates que passaram pelas oficinas destacam-se Miguel Pereira Lourenço, António Marques, Alfredo Augusto Faria, Alberto Pereira da Silva, Manuel Antunes Cabral e António Pena, vários dos quais viriam mais tarde a estabelecer-se por conta própria. A reputação da casa foi senrdo consolidada pelos sucessivos prémios. Em 1861, Jacinto Nunes Corrêa recebeu a medalha de mérito na exposição organizada pela Associação Industrial Portuguesa, distinção repetida em 1867, na Exposição Universal de Paris. Seguiram-se novos galardões em Paris, em 1878, e nas exposições do Rio de Janeiro de 1879, 1905 e 1908.
O crescimento do negócio obrigou à transferência, em 1871, para instalações mais amplas na Rua do Ouro, números 40 a 42, (tornejando para a Rua de São Julião, 150 a 156). Em 1897, o aumento constante de clientela levou ainda à anexação dos números 46 a 48. Era então o maior complexo de alfaiataria da capital.
Entre os clientes havia muitas figuras conhecidas, como António da Costa e Silva, os condes de Arnoso e de Ficalho, Hermenegildo de Mendonça, o Actor João Anastácio Rosa, o marquês de Soveral e o escritor Ramalho Ortigão. A ligação à Casa Real tornou-se, por isso, praticamente inevitável. Segundo recorda Luís Pastor de Macedo, começou com uma encomenda do Infante D. Augusto, em 1880. O sucesso foi tal que a casa passou a vestir D. Luís, D. Amélia, o Príncipe Real D. Luís Filipe, o futuro Rei D. Manuel II e outros membros da família. Em 1900, por exemplo, a Rainha D. Amélia gastou ali 151$500 réis em casacos e ‘tailleurs’, e o Infante D. Manuel encomendou 310$000 réis de peças novas para o guarda-roupa.
Jacinto Nunes Corrêa morreu no dia 10 de Novembro de 1905, com setenta e cinco anos. A firma prosseguiu sob direcção dos colaboradores e dos sucessores, entre os quais Domingos José Ferreira Ribeiro, Jacinto Augusto Marques, Manuel Ferreira Ribeiro, Augusto José Ferreira Ribeiro, João Alberto Pinheiro, Alfredo do Nascimento, Eugénio Augusto, António do Nascimento, José Maria dos Santos, Adelino Gonçalves Ribeiro e Jacinto Ribeiro Pires de Sousa. Em 1919, após venda do edifício da Rua do Ouro (ao Bank of London & South America), a empresa transferiu-se para sede definitiva, na Rua Augusta, números 250-252 (esquina da Rua de Santa Justa), onde permaneceu durante o século seguinte. Mantendo a tradição iniciada em 1856, tornou-se a mais duradoura e respeitada alfaiataria portuguesa.
Após 1956, tomou a designação J. Nunes Corrêa & C.ª, Lda. O edifício foi remodelado em 1974 e classificado como imóvel de interesse público em 1978. A firma manteve-se ali até 2015, altura em que foi alvo de processo de despejo. As vendas continuaram on-line, mas o encerramento da centenária Nunes & Corrêa é dos episódios mais tristes na cronologia da Rua Augusta.
Marina Tavares Dias






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