terça-feira

NUNES & CORRÊA, ALFAIATES

Fundada em 1856, a firma J. Nunes Corrêa & C.ª foi das melhores alfaiatarias de Lisboa e uma das mais antigas de Portugal. Jacinto Nunes Corrêa (1830-1905), iniciou actividade como sócio de Manuel Igreja e de Jerónimo José de Abreu. Instalaram-se no ângulo da Rua Augusta com a Rua de São Julião. Segundo tradição da própria casa, Jacinto já estaria familiarizado com o ofício, que iniciara sob orientação paterna. Foi ele quem deu à empresa uma dimensão inédita, trazendo novidades regularmente de Paris e Londres, e escolhendo criteriosamente todos os tecidos que acompanhavam a moda masculina.

A Nunes & Corrêa destacou-se também pela modernidade das oficinas. Foram os primeiros comerciantes a importar directamente fazendas do estrangeiro e a introduzir em Portugal uma máquina de costura Singer. Na alfaiataria chegaram a trabalhar sessenta costureiras, dirigidas por seis contra-mestres de várias nacionalidades.

Dos alfaiates que passaram pelas oficinas destacam-se Miguel Pereira Lourenço, António Marques, Alfredo Augusto Faria, Alberto Pereira da Silva, Manuel Antunes Cabral e António Pena, vários dos quais viriam mais tarde a estabelecer-se por conta própria. A reputação da casa foi senrdo consolidada pelos sucessivos prémios. Em 1861, Jacinto Nunes Corrêa recebeu a medalha de mérito na exposição organizada pela Associação Industrial Portuguesa, distinção repetida em 1867, na Exposição Universal de Paris. Seguiram-se novos galardões em Paris, em 1878, e nas exposições do Rio de Janeiro de 1879, 1905 e 1908. 

O crescimento do negócio obrigou à transferência, em 1871, para instalações mais amplas na Rua do Ouro, números 40 a 42, (tornejando para a Rua de São Julião, 150 a 156). Em 1897, o aumento constante de clientela levou ainda à anexação dos números 46 a 48. Era então o maior complexo de alfaiataria da capital.

Entre os clientes havia muitas figuras conhecidas, como António da Costa e Silva, os condes de Arnoso e de Ficalho, Hermenegildo de Mendonça, o Actor João Anastácio Rosa, o marquês de Soveral e o escritor Ramalho Ortigão. A ligação à Casa Real tornou-se, por isso, praticamente inevitável. Segundo recorda Luís Pastor de Macedo, começou com uma encomenda do Infante D. Augusto, em 1880. O sucesso foi tal que a casa passou a vestir D. Luís, D. Amélia, o Príncipe Real D. Luís Filipe, o futuro Rei D. Manuel II e outros membros da família. Em 1900, por exemplo, a Rainha D. Amélia gastou ali 151$500 réis em casacos e ‘tailleurs’, e o Infante D. Manuel encomendou 310$000 réis de peças novas para o guarda-roupa.

Jacinto Nunes Corrêa morreu no dia 10 de Novembro de 1905, com setenta e cinco anos. A firma prosseguiu sob direcção dos colaboradores e dos sucessores, entre os quais Domingos José Ferreira Ribeiro, Jacinto Augusto Marques, Manuel Ferreira Ribeiro, Augusto José Ferreira Ribeiro, João Alberto Pinheiro, Alfredo do Nascimento, Eugénio Augusto, António do Nascimento, José Maria dos Santos, Adelino Gonçalves Ribeiro e Jacinto Ribeiro Pires de Sousa. Em 1919, após venda do edifício da Rua do Ouro (ao Bank of London & South America), a empresa transferiu-se para sede definitiva, na Rua Augusta, números 250-252 (esquina da Rua de Santa Justa), onde permaneceu durante o século seguinte. Mantendo a tradição iniciada em 1856, tornou-se a mais duradoura e respeitada alfaiataria portuguesa.

Após 1956, tomou a designação J. Nunes Corrêa & C.ª, Lda. O edifício foi remodelado em 1974 e classificado como imóvel de interesse público em 1978. A firma manteve-se ali até 2015, altura em que foi alvo de processo de despejo. As vendas continuaram on-line, mas o encerramento da centenária Nunes & Corrêa é dos episódios mais tristes na cronologia da Rua Augusta. 


Marina Tavares Dias 



A alfaiataria em 1885

Jacinto Nunes Corrêa 




_______


A Rua Augusta actual








O BABÁ AO RUM LISBOETA

Se há doce ao qual não consigo resistir é o babá. Raramente se encontra como sobremesa em restaurantes, mas há pastelarias em que por vezes o faço de sobremesa às refeições. Esse apetite levou-me também a querer conhecer a sua história — como nasceu em França e como depois se espalhou pelo mundo.

A narrativa clássica leva-nos à Polónia e à figura de Stanisław Leszczyński, rei deposto que viveu exilado em França, na Lorena. Conta-se que achava demasiado seco um bolo de tipo kugelhopf e terá mandado embebê-lo em vinho ou licor, dando origem à ideia do que viria a ser o babá. Esta tradição, tantas vezes repetida ao longo do século XIX em livros de cozinha e de pastelaria franceses, liga-se depois à corte de França: a sua filha, Maria Leszczyńska, casa com Louis XV em 1725, levando consigo hábitos, pessoas e gostos.

É aqui que entra a figura decisiva de Nicolas Stohrer, o pasteleiro  de Lunéville que acompanha a nova rainha quando esta se instala em Paris. Em 1730, funda a sua casa da Rue Montorgueil, a célebre Stohrer, frequentemente apontada como o primeiro local onde o babá se fixou como especialidade. A pastelaria parisiense, então em plena afirmação, era já um universo sofisticado, com técnicas codificadas, montras sedutoras e um público que começava a procurar o doce não apenas como complemento, mas como prazer em si mesmo. E o babá, com a sua textura leve e embebição alcoólica, encaixava perfeitamente nesse gosto novo: mais húmido, mais aromático, mais “luxuoso”.

Ao longo do século XIX, o doce aparece com frequência em tratados franceses, sob diversas formas — baba, savarin — e com variações de calda, licor e forma. Mas quando atravessa fronteiras, nem sempre mantém a mesma identidade.

Em Portugal, o rasto é mais discreto, mas não inexistente. Possivelmente a primeira receita entre nós surge com João da Matta, no livro Arte de Cozinha (1876), sob o nome “Babá Polonais”. A preparação difere bastante do que hoje reconhecemos: massa com farinha, fermento de cerveja, açúcar, sal, uvas passas de Corinto e de Alicante, cidrão, enriquecida com creme de leite, ovos, vinho da Madeira e manteiga. Não há ainda o banho generoso em álcool — trata-se de um bolo mais compacto, destinado a ser cortado à fatia.

No ano seguinte, 1877, surge o Cozinheiro dos Cozinheiros, de Paulo Plantier. No índice aparece “Baba”, mas na página correspondente lê-se “Bobas ao natural”, provavelmente por gralha tipográfica repetida. A massa é próxima da dos bolos sovados, enriquecida com uvas moscatel e de Corinto, cidrão e açafrão. Num acrescento revelador, o autor explica: “A boba com rhum, kirsch ou vinho da Madeira faz-se do mesmo modo…”, introduzindo já o princípio da aromatização alcoólica — ainda que integrada na massa, não como embebição final.

No virar do século, Carlos Bento da Maia, no Tratado Completo de Cozinha e Copa (1903), apresenta um “Babá polaco” mais elaborado, com doze ingredientes: farinha, ovos, levedura, açúcar, manteiga, uvas passas, leite-creme, açafrão para cor e vinho da Madeira. Continua a ser uma receita rica e complexa, mas ainda distante da leveza e da saturação líquida do modelo francês.

Só com Agarena de Leão, já nos anos 1920, encontramos aproximação mais clara ao babá moderno. A receita termina com uma indicação decisiva: “Desenforma-se depois para um prato, rega-se com rhum e serve-se.” Aqui, finalmente, o bolo é embebido depois de cozido — gesto essencial que define o babá como hoje o entendemos.

Esta evolução mostra bem o percurso do doce em Portugal: conhecido, adaptado, transformado — mas nunca verdadeiramente fixado na tradição das pastelarias. Ao contrário de Paris, onde o babá se tornou uma peça de vitrina desde o século XVIII, em Lisboa permaneceu mais como receita de livro e de cozinha doméstica ou erudita. Talvez por isso, ainda hoje, quando aparece, surge quase como descoberta — um luxo inesperado. Embora seja já raro que nele seja usado o rum da receita original.

É talvez essa raridade que explica o fascínio. Não é apenas um doce: é uma promessa. Uma memória de Paris, da sua pastelaria brilhante, das vitrinas da Rua Montorgueil — e, para alguns de nós, a desculpa perfeita para escolher o sítio onde jantar.


Marina Tavares Dias




Os deliciosos babás do Galeto,
na Avenida da República




segunda-feira

SAPATARIAS DEUSA, DEB E CONTENTE

«As sapatarias Deusa, Deb e Contente fazem feliz toda a gente.» A frase repetia-se no programa “Quando o Telefone Toca”, de Matos Maia, e ficou na memória dos miúdos lisboetas. Três casas que ocupavam locais centrais da Baixa: a Deusa na Rua 1.º de Dezembro, a Deb no edifício do Hotel Mundial (Praça Martim Moniz), e a Contente nas escadinhas da Rua de Santa Justa. 


Nas noites de Verão, com os pais em viagem, as empregadas (dizia-se ‘criadas’) saltitavam em volta de um transistor, na esperança de conseguirem selecção entre os inúmeros telefonemas que o programa recebia. ‘Olhe, posso dizer a frase?’ - ‘Olhe, posso pedir um disco?’ - ‘Olhe, posso dedicar a música a uma pessoa?’ O pior era sempre quando achavam que uma voz infantil como a minha convenceria mais rapidamente o locutor.


Nunca calcei daquela célebre trindade. Para sapatada de criança havia outras referências. A minha era a sobrevivente Lisbonense (Rua Augusta), onde os sapatos ortopédicos exclusivos se compravam muito antes de eu ter idade para perceber as diferenças entre a elegância madura da Deusa e o glamour juvenil da Deb, a 'sapataria das debutantes'.


‘A menina já sabe dizer a frase?’ - ‘Não me obrigues a telefonar!’ A Teresa e a Ana ganhavam sempre. Ficava também eu dependurada nas ondas médias radiofónicas, à espera de ouvir a minha voz depois da de Matos Maia. Quando ia com a mãe à Pastelaria Imperium, subia as escadinhas de Santa Justa e ficava de cabeça virada, durante quase um minuto, para as montras da Sapataria Contente. Se ela soubesse!...



Marina Tavares Dias




A Contente por Artur Pastor
(arquivo municipal de Lisboa)



A Deb por Mestre Horácio Novaes
(arquivo da Fundação Calouste Gulbenkian)



A Deusa em 2015
(Fotografia Marina T.Dias)




quinta-feira

A QUINTA DA RABICHA

A Quinta da Rabicha, situada no vale de Alcântara, sob o arco grande do Aqueduto das Águas Livres, surge nas fontes oitocentistas como um desses lugares intermédios entre o campo e a cidade, onde Lisboa respirava fora de si. Não é um espaço monumental nem literariamente consagrado como Sintra, mas aparece, com surpreendente nitidez, na memória de quem o frequentou.

É sobretudo em Bulhão Pato que a Rabicha é contada. Nas ‘Memórias’, descreve-a com precisão quase sensorial: uma quinta pequena, “em forma de triângulo”, encaixada no vale, “debaixo do arco grande do aqueduto”, cercada por um “odorífero e viçoso pomar” e servida por “água abundante e corrente”. A água — essa mesma ribeira de Alcântara que descia de Benfica — não é um detalhe: estrutura o lugar, alimenta as hortas e dá-lhe frescura. No centro dessa paisagem, Bulhão Pato fixa uma imagem notável: um “hotel ao ar livre”, sob um parreiral, junto de um tanque, onde se comia peixe, ovos, queijo saloio, pão de Belas e alface. Não é uma metáfora — é um retrato directo de um sítio frequentado, vivido, integrado no quotidiano lisboeta.

Em 1860, Júlio César Machado deixou uma das descrições mais vivas desse ambiente, ao evocar um encontro na Rabicha, onde se reuniu com Ramalho Ortigão, Anthero de Quental, Jaime Batalha Reis, João Burnay, Alberto de Queiroz e Oliveira Martins. Eram sete, dispostos a “compor uma caldeirada em seis cantos” — isto é, cada um com o seu garfo — não fosse Burnay introduzir uma nota inesperada ao mandar vir um rosbife. Enquanto Machadinho tratava do petisco, o grupo afastou-se até à estrada de Campolide, onde decorriam obras. Num gesto meio burlesco, recolheram o suor de um trabalhador num lenço e, em pequena procissão improvisada, levaram-no ao cozinheiro, que foi solenemente “baptizado” com o chamado “suor do povo”.

A Rabicha não era caso único. Espalhados pelo vale existiam outros retiros campestres, como o do Ferro de Engomar (o mais antigo do nome, anterior ao da Estrada de Benfica), onde se comia, cantava e bailava. Neles ganhou fama um dos primeiros cantadores de fado, José Norberto, conhecido como o Saloio de Campolide.

Tudo indica que estas hortas e retiros terão sido dos primeiros cenários onde se ouviram as formas iniciais do fado e do seu possível antecedente, o lundum. Uma notícia de finais do século XVIII, relativa à Quinta de São João dos Bem Casados, refere que ali residia D. Joana Perpétua, irmã do duque de Lafões. Quando os “reais meninos” ali foram tratar a tosse convulsa, aproveitando os bons ares do lugar, a anfitriã mandou vir “os pretos da Rabicha”, que cantaram modinhas à viola e dançaram o lundum para os entreter.

O hábito de os lisboetas procurarem estas hortas parece ter começado ainda durante a construção do Aqueduto das Águas Livres, quando, aos domingos, multidões acorriam ao vale para ver as obras e acabavam por permanecer junto da ribeira, entre água, sombra e campo — inaugurando um uso que se prolongaria ao longo de todo o século XIX.

Já no virar do século, Alberto Pimentel, ao falar do chamado “Fado da Rabicha”, confirma essa mesma localização, “sob o arco grande do aqueduto”. Ao explicar o “Fado da Rabicha”, escreve que era “o logar que fica sob o arco grande do aqueducto das Aguas Livres”, com “hortas, retiros”, “muito frequentados por fadistas e outra gente de vida airada”, e que ali se cantava fado todos os dias. Narrativa posterior, o seu texto confirma a persistência do topónimo e do carácter boémio e campestre do sítio. 

A ferrovia e, mais tarde, a urbanização do vale deram cabo da Rabicha. Em 1894, escreveu Bulhão Pato: “Quando hoje atravesso a Rabicha no caminho de ferro, deixo de ouvir o ruído do trem, de sentir o fumo da máquina. A memória traz-me o aroma do pomar, o gemer da nora, os meus primeiros versos, os amigos que perdi e…uma grande saudade!”


Marina Tavares Dias




A ponte da Rabicha,
sobre a Ribeira de Alcântara 
(fotografia de Eduardo Portugal)

Poço com nora na 
Rabicha
(fotografia de Paulo Guedes)

Campolide, o aqueduto e a Rabicha 
(fotografia de Bárcia)








terça-feira

A RELOJOARIA J. MAURY

A Relojoaria Maury, uma das mais antigas casas comerciais de Lisboa, foi fundada em 1859 pelo relojoeiro francês Jules Maury, que se estabeleceu na Praça depois de trabalhar na firma Girod & Gandy, então já desaparecida. Instalado nos números 202–204 da Rua Áurea, o novo dedicava-se à venda, reparação e fabrico de relógios, especialidade então rara. Conquistou rapidamente clientela fiel, graças à competência técnica do fundador e à reputação de excelência. Tal crescimento obrigou mesmo ao alargamento das instalações originais, onde a firma ficou durante mais de século e meio.

Após a morte de Jules Maury (em 1902), a empresa passou para o filho, Hyppolite Maury, que conservou o prestígio de sempre. Trabalhava com várias marcas internacionais, acompanhando atentamente a evolução técnica da relojoaria. Em 1904, contratou directamente na Suíça o reputado mestre relojoeiro Paul Émile Funk, encarregando-o de introduzir em Lisboa os métodos mais avançados da indústria helvética. 

Quando Hyppolite morreu, em 1930, a propriedade da casa passou para a viúva e filhas, que confiaram a gerência a Funk. Em meados da década de 1940, a Maury era apresentada como ‘uma das mais reputadas relojoarias do país’, prestes a celebrar um século de actividade. Em 1900 trabalhou nos relógios do Palácio das Cortes (Parlamento), e em 1963 figurava como fornecedora do Observatório Astronómico da Marinha, onde os mostruários dos relógios mostram o seu nome de fabricante.

A casa manteve-se em actividade ao longo de toda a segunda metade do século XX, conservando o histórico nome J. Maury, Sucessores, H. Maury e a emblemática loja de esquina na Rua do Ouro, com cantaria lavrada. Em Abril de 1974 continuava a anunciar-se na imprensa, e cerca de uma década mais tarde, integrava o grupo da Ourivesaria Torres, permanecendo aberta sob essa administração, quando era já considerada a relojoaria mais antiga de Lisboa.

Depois de 154 anos de actividade ininterrupta, a histórica relojoaria acaba em 2013. Não desapareceu apenas um relojoeiro. Desapareceu uma das últimas grandes casas especializadas que ligavam a Lisboa contemporânea à tradição relojoeira mundial. Na cantaria da fachada manteve-se a pedra lavrada com o nome da casa, até que as obras de 2023 destruíram a própria pedra original.


Marina Tavares Dias



Relojoaria Maury 
em 1945











domingo

CAIS DO SODRÉ OITOCENTISTA

[...] falar do Cais do Sodré é também falar da Lisboa queirosiana – e do seu Hotel Central. Eça refere-o em “Os Maias”, “A Capital”, “O Primo Basílio” e “A Correspondência de Fradique Mendes”. A primeira hospedaria que ocupou o quarteirão com os números 20-27 do largo (antigos números 3 a 11) chamava-se Estrella Branca (c. 1835). Em 1838 fora já trespassada à francesa Madame Lenglet que lhe deu o nome Hotel de France. Com uma sólida fama e um excelente serviço de mesa, o hotel recebeu hóspedes ilustres, entre eles o compositor Franz Liszt, na temporada de 1844-1845. Novamente trespassado (c. 1855), transforma-se no Hotel Central, supra-sumo da possível opulência lisboeta, com as suas ceias elegantes e as suas belas janelas então viradas para o Tejo. O Central foi, na Lisboa da segunda metade de Oitocentos, aquilo que o Avenida Palace viria a ser na Belle-Époque, ou o Aviz no tempo da Segunda Grande Guerra.[...]


[continua na 'Lisboa Desaparecida']





Publicidade ao Hotel Central 
em anuários de 1903 e de 1913.

Fotografia:
colecção Rocchini, c. 1858.



quarta-feira

A DÉCADA DAS CATÁSTROFES CINEMATOGRÁFICAS

Guardei o programa sem pensar muito nele. Era mais um, entre tantos acumulados ao longo de décadas. Só muitos anos depois, ao dar com um monte de bilhetes antigos, encontrei a data da sessão: 28 de Julho de 1979, às cinco e meia da tarde, fila G, lugar 2. Nesse Sábado, levei a minha irmãzinha ao Cinema Zodíaco ver ‘A Torre do Inferno’, grande blockbuster.

O Zodíaco foi novidade para ambas. Inaugurado a 23 de Março de 1979, na Rua do Conde Redondo junto ao Arquivo de Identificação e praticamente em frente do Hospital de Dona Estefânia, era sala moderna para os padrões da Lisboa de 79, apesar de estar instalado na cave de um velho prédio de rendimento. Tinha quatrocentos lugares e funcionava como parte de um mini-centro comercial. Localização estratégica: bastava dizer que ficava «ao pé do Arquivo de Identificação» para toda a gente saber onde era. Milhares de pessoas passavam por ali todos os dias. A zona era todo um mundo de fotógrafos, papelarias, restaurantes, cafés, pensões e lojas. Até havia uma escola de estenografia. Gravitavam em redor de quem ia tirar o Bilhete de Identidade ou o passaporte. O programa funciona como retrato de Lisboa. Páginas cheias de anúncios: Residencial João XXI, Óptica do Conde de Redondo, loja de malas Groenlândia, Primoda, restaurante Chacalik, etc. Poucos vestígios restam do universo comercial que girava em torno da Identificação.

O filme, espectáculo à escala dos anos setenta, foi realizado por John Guillermin e produzido por Irwin Allen. Reunia elenco impressionante: Steve McQueen, Paul Newman, William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Jennifer Jones… A história passa-se no gigantesco arranha-céus onde um incêndio desencadeia luta desesperada pela sobrevivência de uns e pelo resgate de outros. Os filmes-catástrofe encheram, nessa década, as salas de cinema com terramotos, pragas, naufrágios, acidentes aéreos e outras ameaças de proporções épicas.

Mas o que mais me fascina neste programa não é o filme. É a Lisboa que lhe estava em redor. Enquanto, no ecrã, ardia o prédio mais alto do mundo, cá fora existia outra cidade, feita de cafés, residenciais, fotógrafos de passe, cabeleireiros, papelarias e outras pequenas lojas. O Sheraton, inaugurado anos antes, continuava grande símbolo da modernidade vertical. Era o nosso arranha-céus, e era também lá que íamos ao centro comercial da moda, o Imaviz, comprar blusas indianas no Hare Krishna. A vida quotidiana desenrolava-se em ruas que toda a gente conhecia, e onde bastava dizer «vou tirar o BI» para indicar um destino.

Guardado durante quase meio século, este programa devolveu-me uma tarde concreta à memória: sábado de Verão, juntar dinheiro para dois bilhetes, vestir os jeans dos Porfírios, ir ao cinema com a minha irmã, optar por uma fila mais recuada do que quando ia sozinha, escolher um filme sem pretensões mas que parecia mostrar o futuro. Quem diria que foi a Lisboa anunciada nas páginas do programa o que desapareceu mais depressa? - Mesmo onde não houve incêndios. 


Marina Tavares Dias










segunda-feira

OS OCULISTAS DO CHIADO

Fundada em 1884 pelos irmãos Alfredo Inácio e José Inácio da Silva, a histórica Ramos & Silva começou numa pequena loja da Rua da Escola Politécnica, passando depois para a Rua (Nova) do Carmo e instalando-se no início do século XX no n.º 63-65 da Rua Garrett. 

Inicialmente ligada às então revolucionárias ‘instalações de electricidade, pára-raios e equipamentos técnicos’, a firma tornou-se das mais prestigiadas lojas portuguesas. Especializou-se depois em óptica, representando marcas internacionais como Zeiss e Busch e fornecendo hospitais, organismos do Estado, Cooperativa Militar e Caminhos de Ferro Portugueses. Em 1924 abriu uma filial na Rua do Ouro, 140, consolidando a presença na Baixa lisboeta. 

A loja do Chiado foi profundamente remodelada em meados da década de 1960, num projecto associado ao arquitecto Fernando Silva, adquirindo o aspecto moderno que muitos lisboetas ainda recordam. 

Após mais de 120 anos de actividade, a casa passou para a André Ópticas (2006, como Óptica do Chiado), conservando a identidade histórica. O encerramento definitivo ocorreu em 2023, figurando entre as mais simbólicas perdas do programa municipal «Lojas com História». 

O desaparecimento da Ramos & Silva provocou vários protestos, uma vez que a loja estava identificada na Carta Municipal do Património e parecia haver garantias que as obras no edifício não comprometeriam a sua preservação. Na prática, isso não aconteceu. O interior histórico foi eliminado durante a destruição do interior do prédio, naquilo que muitos observadores descreveram como um verdadeiro esventramento. 

Desapareceu um dos mais notáveis exemplos de arquitectura comercial do Chiado e uma das mais antigas casas de óptica portuguesas. 


Marina Tavares Dias 









sábado

A CAMISARIA DE AVELINO PITTA

Este raríssimo postal ilustrado documenta a transferência da histórica camisaria de Avelino de Magalhães Pitta para a Rua Augusta. 'O Pitta' sempre foi uma referência da elegância lisboeta, e este documento revela mais sobre a sua história que as actuais informações hoje online, fontes de repetição sem verificação documental.

A camisaria foi fundada em 1885, na Rua de São Julião, por Avelino de Magalhães Pitta, comerciante lisboeta cujo nome surge frequentemente abreviado como A. M. Pitta. Sei que era filho de José Rodrigues Pitta e de Josefa Maria de Magalhães,e a sua figura permaneceu durante décadas simbolicamente presente na loja, através de um retrato emoldurado, mesmo quando já poucos conheciam a sua identidade completa.

Em 1902, Avelino de Magalhães Pitta surge como solicitando obras no edifício da Rua Augusta, data que coincide com a mudança da camisaria para a morada que a tornaria célebre. A fachada representada neste postal — ainda nova, cuidadosamente preparada para a fotografia promocional — exibe a designação «CAMISEIRO» em destaque, com o apelido PITTA funcionando quase como assinatura de qualidade. O enquadramento frontal, as montras meticulosamente organizadas e a figura colocada à entrada revelam claramente uma imagem concebida para anunciar a nova instalação da firma aos seus clientes.

Nos últimos anos da Monarquia Constitucional, a casa consolidou reputação de excelência no vestuário masculino como fornecedora do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Integrava o restrito círculo de estabelecimentos associados à elegância da corte lisboeta, e a ligação à Família Real tornou-se uma das marcas da sua identidade.

Tudo o que hoje se lê on-line repete as mesmas informações, muitas vezes com datas contraditórias e erros que foram sendo copiados de texto para texto. A cronologia da mudança para a Rua Augusta aparece frequentemente deturpada por sucessivos «copy-paste», fenómeno agravado pelo desaparecimento do arquivo histórico da empresa (estava depositado num cofre do Chiado e ardeu em 1988), pela perda da memória familiar e e pelo trespasse da casa, em 1977 (para um antigo empregado). 

Depois de mais de 130 anos de actividade, a histórica camisaria encerrou definitivamente em 31 de Maio de 2018. Nem a integração no programa municipal das Lojas com História conseguiu evitar o desaparecimento da casa, considerada por muitos a mais antiga camisaria da Península Ibérica. A fachada histórica da Rua Augusta foi preservada, mas o interior perdeu a função que lhe dera fama durante mais de um século.

O Pitta Camiseiro chegou também ao cinema português. Em 'O Costa do Castelo' (de Arthur Duarte, 1943), num diálogo frequentemente citado de forma errada, António Silva, ao tocar no tecido de uma camisa de seda, exclama simplesmente:

«Isto é Pitta!»

A frase bastava para o público compreender imediatamente a referência. Numa Lisboa onde o nome da camisaria era sinónimo de qualidade, não era necessária qualquer explicação adicional.















quarta-feira

A TORROAES DA RUA DA PRATA

Fundada em 1909, no número 123 da Rua da Prata, a Ourivesaria e Relojoaria Torroaes era a obra sonhada de António de Sousa Torroaes. Aos 33 anos de idade, aventurou-se sozinho no ramo. Formado na prática do ofício, trabalhara desde os 13 em relojoaria, fazendo aprendizagem durante quase duas décadas na prestigiada Casa Angulo (da família Angulo e também na Rua da Prata). 

Em 1921, já com o negócio em expansão, instalou no número 119 uma oficina independente de relojoaria e criou secções independentes de ourivesaria e de pratas. António de Sousa Torroaes não chegou a assistir ao apogeu da empresa: morreu em 1928, deixando a casa ao filho, Raul de Sousa Torroaes.

Sob a direcção deste, a firma continuou a expandir-se. Em 1930, a oficina foi transferida para novas dependências no mesmo edifício e em 1936 fixou-se definitivamente no terceiro andar do número 133 da Rua da Prata. Três anos mais tarde (1939) foram inauguradas novas instalações comerciais dos números 127 a 131, que, juntamente com o 123, formavam um vasto conjunto dedicado à relojoaria, ourivesaria, pratas e joalharia. 

A fachada, de três característicos (inicialmente, eram cinco) letreiros vermelhos, arqueados, em bandeira de porta, com as palavras «Relojoaria», «Torroaes» e «Ourivesaria», transformou-se numa das imagens mais reconhecíveis da Rua da Prata. A casa era frequentemente incluída no chamado 'Livro de Our do Comércio' como uma das mais prestigiadas relojoarias portuguesas. À semelhança de algumas (poucas) congéneres, comecializava marca própria de relógios, a Torris Watch.

A 17 de Dezembro de 1976 foi constituída a sociedade Relojoaria e Ourivesaria Torroaes, Lda. ('Diário da República'), ainda instalada na mesma morada. A data do encerramento nunca foi oficializada. Fechou portas no final da década de 1980, mantendo a indicação de que reabriria, até ser declarada falência da firma, no princípio dos anos 90. Durante muito tempo, já sem actividade, a antiga fachada permaneceu abandonada e degradada, conservando ainda os seus antigos letreiros vermelhos sobre as portas, sobreviventes como um dos últimos vestígios da velha Baixa comercial. Oedifício acabou por ser ‘recuperado’, desaparecendo também essa memória. Durante quase um século, a Torreaes foi uma das mais importantes casas de relojoaria e ourivesaria de Lisboa.

O primo do fundador, Fernando de Sousa Torroaes, abriu em 1918 (com Felizardo Augusto Abranches) a Ourivesaria e Relojoaria F. de Sousa Torroaes, na Rua de São Paulo número 106 (firma Sousa & Abranches, Lda.). Também esta última acabou abandonada, com a fachada em ruínas durante anos, perante a indiferença de quem passava.


Marina Tavares Dias 



A Ourivesaria e Relojoaria Torroaes
em 1945

Pormenor da fachada,
fotografada por mim
em 1994


Dois anúncios da marca de
relógios exclusiva da casa,
Torris Watch


A Montra da Rua da Prata,
num dos concursos de montras
de Lisboa (fotografia 
de Mário Novaes)

A Sousa Torroaes da Rua de S. Paulo
(fotografia hoje pertencente
ao arquivo da Ourivesaria 
Sarmento)




segunda-feira

'OS INADAPTADOS' EM LISBOA

Apontada numa agenda anónima de 1962, a estreia de «Os Inadaptados» em Lisboa surge despida de toda a aura que o filme viria a adquirir. No dia 25 de Janeiro desse ano, o filme de John Huston estreava no Cinema São Jorge, apresentado pela publicidade como «a mais famosa estreia do ano» e explorando o fascínio que rodeava Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift. Hoje, é considerado uma das obras maiores do cinema americano, o último filme completo de Gable, o mais doloroso retrato de Marilyn Monroe e uma elegia ao desaparecimento de um certo Oeste e de uma certa América. Mas nada disso transparece na pequena nota manuscrita deixada por um espectador lisboeta que assistiu à estreia.

A anotação é lapidar: «Fomos ao S. Jorge ver “Os Inadaptados” – Muito lento, maçador e sem interesse. Mal interpretado. Tempo e dinheiro gastos. Comprei o livro do 'Breakfast at Tiffany's' e estou a ver se consigo ir ver o filme.» Em poucas palavras, desfaz-se toda a mitologia posterior. Para este espectador, o filme não era uma obra-prima incompreendida, nem um drama existencial sobre personagens perdidas no deserto do Nevada. Era apenas uma sessão falhada. A referência imediata a «Boneca de Luxo», então em exibição no Cinema Império, é igualmente reveladora: perante a melancolia desencantada de «Os Inadaptados», o público acharia mais atraente a elegância urbana de Audrey Hepburn e o universo sofisticado criado por Truman Capote.

A distância entre esta reacção e a reputação actual do filme não podia ser maior. Com o passar das décadas, «Os Inadaptados» foi sendo redescoberto por sucessivas gerações de críticos e historiadores do cinema. Hoje é citado em ensaios, retrospectivas e cursos universitários como uma obra-charneira, situada entre o sistema clássico de Hollywood e o cinema moderno que emergia nos anos sessenta. A reunião de Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift e Eli Wallach, todos eles intérpretes marcados por crises pessoais e profissionais, acabou por conferir ao filme uma dimensão quase documental. O espectador contemporâneo não vê apenas personagens ficcionais; vê também os actores, as suas fragilidades, os seus fantasmas e, em dois casos, o aproximar do fim. O que em 1962  parecia 'falta de acção' é hoje visto como introspecção, desencanto e maturidade.

Nada disto era evidente em Lisboa, na semana da estreia. A leitura dos jornais desses dias é particularmente elucidativa. As páginas dedicam-se  a temas que monopolizavam a atenção pública: o regresso dos últimos portugueses de Goa após a anexação do território pela União Indiana, os debates nas Nações Unidas sobre a situação em Angola, as perspectivas de instalação de infra-estruturas nucleares em Portugal, o inverno rigoroso que afectava o país, as distinções atribuídas a Amélia Rey Colaço, os campeonatos de bilhar e os jogos da Taça de Portugal. Neste contexto, a chegada de um drama americano sobre pessoas desencontradas no deserto do Nevada dificilmente poderia ocupar lugar.

É igualmente significativo que praticamente se não encontrem críticas portuguesas de relevo sobre o filme, nos dias imediatos à estreia. Se existiram, passaram despercebidas. E talvez isso não se deva apenas à concorrência da actualidade. A crítica portuguesa da época encontrava-se perante um objecto difícil de classificar. «Os Inadaptados» não era um western convencional, embora utilizasse elementos do género. Não era um melodrama romântico, não era um filme de aventuras, nem uma comédia, nem sequer um drama clássico no sentido tradicional. O argumento de Arthur Miller recusava soluções fáceis e centrava-se em personagens emocionalmente derrotadas, incapazes de encontrar o seu lugar num mundo em transformação.

Para muitos espectadores habituados ao cinema americano dos anos quarenta e cinquenta, aquilo era desconcertante. Clark Gable, o eterno herói seguro de si, surgia envelhecido e vulnerável. Marilyn Monroe abandonava a imagem da loura divertida para interpretar uma mulher frágil, insegura e frequentemente infeliz. Montgomery Clift parecia transportar para o ecrã o sofrimento que marcara a sua vida após o acidente de automóvel que o desfigurara. Em vez de heróis triunfantes, o filme oferecia figuras cansadas, perdidas e incapazes de se adaptar aos novos tempos. Talvez por isso o título português acabasse por ser mais certeiro do que parecia.

Hoje, «Os Inadaptados» tornou-se referência da história do cinema. Visto em Janeiro de 1962, pera um 'filme lento', estranho e desolador, protagonizado por estrelas que não correspondiam à imagem que o público guardava delas. É precisamente essa distância entre a recepção contemporânea e a consagração posterior que torna tão valiosa esta pequena nota de agenda. Recorda-nos que os clássicos nem sempre nascem clássicos. Por vezes, estreiam discretamente, confundem os espectadores, deixam os críticos sem palavras e passam quase despercebidos no meio das notícias do dia. Só mais tarde a História os resgata.


Marina Tavares Dias







CHAPÉUS HÁ MUITOS

  «Chapéus há muitos, seu palerma!» A frase de Vasco Santana atravessou gerações e continua a ser repetida muito depois de os chapéus terem ...