A Relojoaria Maury, uma das mais antigas casas comerciais de Lisboa, foi fundada em 1859 pelo relojoeiro francês Jules Maury, que se estabeleceu na Praça depois de trabalhar na firma Girod & Gandy, então já desaparecida. Instalado nos números 202–204 da Rua Áurea, o novo dedicava-se à venda, reparação e fabrico de relógios, especialidade então rara. Conquistou rapidamente clientela fiel, graças à competência técnica do fundador e à reputação de excelência. Tal crescimento obrigou mesmo ao alargamento das instalações originais, onde a firma ficou durante mais de século e meio.
Após a morte de Jules Maury (em 1902), a empresa passou para o filho, Hyppolite Maury, que conservou o prestígio de sempre. Trabalhava com várias marcas internacionais, acompanhando atentamente a evolução técnica da relojoaria. Em 1904, contratou directamente na Suíça o reputado mestre relojoeiro Paul Émile Funk, encarregando-o de introduzir em Lisboa os métodos mais avançados da indústria helvética.
Quando Hyppolite morreu, em 1930, a propriedade da casa passou para a viúva e filhas, que confiaram a gerência a Funk. Em meados da década de 1940, a Maury era apresentada como ‘uma das mais reputadas relojoarias do país’, prestes a celebrar um século de actividade. Em 1900 trabalhou nos relógios do Palácio das Cortes (Parlamento), e em 1963 figurava como fornecedora do Observatório Astronómico da Marinha, onde os mostruários dos relógios mostram o seu nome de fabricante.
A casa manteve-se em actividade ao longo de toda a segunda metade do século XX, conservando o histórico nome J. Maury, Sucessores, H. Maury e a emblemática loja de esquina na Rua do Ouro, com cantaria lavrada. Em Abril de 1974 continuava a anunciar-se na imprensa, e cerca de uma década mais tarde, integrava o grupo da Ourivesaria Torres, permanecendo aberta sob essa administração, quando era já considerada a relojoaria mais antiga de Lisboa.
Depois de 154 anos de actividade ininterrupta, a histórica relojoaria acaba em 2013. Não desapareceu apenas um relojoeiro. Desapareceu uma das últimas grandes casas especializadas que ligavam a Lisboa contemporânea à tradição relojoeira mundial. Na cantaria da fachada manteve-se a pedra lavrada com o nome da casa, até que as obras de 2023 destruíram a própria pedra original.


Sem comentários:
Enviar um comentário
Aquilo que os leitores nos dizem é da máxima importância. Sobre habituais plágios e cópias de textos, imagens ou informações, por favor deixe explicito qual o site ou perfil que devemos investigar.