segunda-feira

'OS INADAPTADOS' EM LISBOA

Apontada numa agenda anónima de 1962, a estreia de «Os Inadaptados» em Lisboa surge despida de toda a aura que o filme viria a adquirir. No dia 25 de Janeiro desse ano, o filme de John Huston estreava no Cinema São Jorge, apresentado pela publicidade como «a mais famosa estreia do ano» e explorando o fascínio que rodeava Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift. Hoje, é considerado uma das obras maiores do cinema americano, o último filme completo de Gable, o mais doloroso retrato de Marilyn Monroe e uma elegia ao desaparecimento de um certo Oeste e de uma certa América. Mas nada disso transparece na pequena nota manuscrita deixada por um espectador lisboeta que assistiu à estreia.

A anotação é lapidar: «Fomos ao S. Jorge ver “Os Inadaptados” – Muito lento, maçador e sem interesse. Mal interpretado. Tempo e dinheiro gastos. Comprei o livro do 'Breakfast at Tiffany's' e estou a ver se consigo ir ver o filme.» Em poucas palavras, desfaz-se toda a mitologia posterior. Para este espectador, o filme não era uma obra-prima incompreendida, nem um drama existencial sobre personagens perdidas no deserto do Nevada. Era apenas uma sessão falhada. A referência imediata a «Boneca de Luxo», então em exibição no Cinema Império, é igualmente reveladora: perante a melancolia desencantada de «Os Inadaptados», o público acharia mais atraente a elegância urbana de Audrey Hepburn e o universo sofisticado criado por Truman Capote.

A distância entre esta reacção e a reputação actual do filme não podia ser maior. Com o passar das décadas, «Os Inadaptados» foi sendo redescoberto por sucessivas gerações de críticos e historiadores do cinema. Hoje é citado em ensaios, retrospectivas e cursos universitários como uma obra-charneira, situada entre o sistema clássico de Hollywood e o cinema moderno que emergia nos anos sessenta. A reunião de Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift e Eli Wallach, todos eles intérpretes marcados por crises pessoais e profissionais, acabou por conferir ao filme uma dimensão quase documental. O espectador contemporâneo não vê apenas personagens ficcionais; vê também os actores, as suas fragilidades, os seus fantasmas e, em dois casos, o aproximar do fim. O que em 1962  parecia 'falta de acção' é hoje visto como introspecção, desencanto e maturidade.

Nada disto era evidente em Lisboa, na semana da estreia. A leitura dos jornais desses dias é particularmente elucidativa. As páginas dedicam-se  a temas que monopolizavam a atenção pública: o regresso dos últimos portugueses de Goa após a anexação do território pela União Indiana, os debates nas Nações Unidas sobre a situação em Angola, as perspectivas de instalação de infra-estruturas nucleares em Portugal, o inverno rigoroso que afectava o país, as distinções atribuídas a Amélia Rey Colaço, os campeonatos de bilhar e os jogos da Taça de Portugal. Neste contexto, a chegada de um drama americano sobre pessoas desencontradas no deserto do Nevada dificilmente poderia ocupar lugar.

É igualmente significativo que praticamente se não encontrem críticas portuguesas de relevo sobre o filme, nos dias imediatos à estreia. Se existiram, passaram despercebidas. E talvez isso não se deva apenas à concorrência da actualidade. A crítica portuguesa da época encontrava-se perante um objecto difícil de classificar. «Os Inadaptados» não era um western convencional, embora utilizasse elementos do género. Não era um melodrama romântico, não era um filme de aventuras, nem uma comédia, nem sequer um drama clássico no sentido tradicional. O argumento de Arthur Miller recusava soluções fáceis e centrava-se em personagens emocionalmente derrotadas, incapazes de encontrar o seu lugar num mundo em transformação.

Para muitos espectadores habituados ao cinema americano dos anos quarenta e cinquenta, aquilo era desconcertante. Clark Gable, o eterno herói seguro de si, surgia envelhecido e vulnerável. Marilyn Monroe abandonava a imagem da loura divertida para interpretar uma mulher frágil, insegura e frequentemente infeliz. Montgomery Clift parecia transportar para o ecrã o sofrimento que marcara a sua vida após o acidente de automóvel que o desfigurara. Em vez de heróis triunfantes, o filme oferecia figuras cansadas, perdidas e incapazes de se adaptar aos novos tempos. Talvez por isso o título português acabasse por ser mais certeiro do que parecia.

Hoje, «Os Inadaptados» tornou-se referência da história do cinema. Visto em Janeiro de 1962, pera um 'filme lento', estranho e desolador, protagonizado por estrelas que não correspondiam à imagem que o público guardava delas. É precisamente essa distância entre a recepção contemporânea e a consagração posterior que torna tão valiosa esta pequena nota de agenda. Recorda-nos que os clássicos nem sempre nascem clássicos. Por vezes, estreiam discretamente, confundem os espectadores, deixam os críticos sem palavras e passam quase despercebidos no meio das notícias do dia. Só mais tarde a História os resgata.


Marina Tavares Dias







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