Guardei o programa sem pensar muito nele. Era mais um, entre tantos acumulados ao longo de décadas. Só muitos anos depois, ao dar com um monte de bilhetes antigos, encontrei a data da sessão: 28 de Julho de 1979, às cinco e meia da tarde, fila G, lugar 2. Nesse Sábado, levei a minha irmãzinha ao Cinema Zodíaco ver ‘A Torre do Inferno’, grande blockbuster.
O Zodíaco foi novidade para ambas. Inaugurado a 23 de Março de 1979, na Rua do Conde Redondo junto ao Arquivo de Identificação e praticamente em frente do Hospital de Dona Estefânia, era sala moderna para os padrões da Lisboa de 79, apesar de estar instalado na cave de um velho prédio de rendimento. Tinha quatrocentos lugares e funcionava como parte de um mini-centro comercial. Localização estratégica: bastava dizer que ficava «ao pé do Arquivo de Identificação» para toda a gente saber onde era. Milhares de pessoas passavam por ali todos os dias. A zona era todo um mundo de fotógrafos, papelarias, restaurantes, cafés, pensões e lojas. Até havia uma escola de estenografia. Gravitavam em redor de quem ia tirar o Bilhete de Identidade ou o passaporte. O programa funciona como retrato de Lisboa. Páginas cheias de anúncios: Residencial João XXI, Óptica do Conde de Redondo, loja de malas Groenlândia, Primoda, restaurante Chacalik, etc. Poucos vestígios restam do universo comercial que girava em torno da Identificação.
O filme, espectáculo à escala dos anos setenta, foi realizado por John Guillermin e produzido por Irwin Allen. Reunia elenco impressionante: Steve McQueen, Paul Newman, William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Jennifer Jones… A história passa-se no gigantesco arranha-céus onde um incêndio desencadeia luta desesperada pela sobrevivência de uns e pelo resgate de outros. Os filmes-catástrofe encheram, nessa década, as salas de cinema com terramotos, pragas, naufrágios, acidentes aéreos e outras ameaças de proporções épicas.
Mas o que mais me fascina neste programa não é o filme. É a Lisboa que lhe estava em redor. Enquanto, no ecrã, ardia o prédio mais alto do mundo, cá fora existia outra cidade, feita de cafés, residenciais, fotógrafos de passe, cabeleireiros, papelarias e outras pequenas lojas. O Sheraton, inaugurado anos antes, continuava grande símbolo da modernidade vertical. Era o nosso arranha-céus, e era também lá que íamos ao centro comercial da moda, o Imaviz, comprar blusas indianas no Hare Krishna. A vida quotidiana desenrolava-se em ruas que toda a gente conhecia, e onde bastava dizer «vou tirar o BI» para indicar um destino.
Guardado durante quase meio século, este programa devolveu-me uma tarde concreta à memória: sábado de Verão, juntar dinheiro para dois bilhetes, vestir os jeans dos Porfírios, ir ao cinema com a minha irmã, optar por uma fila mais recuada do que quando ia sozinha, escolher um filme sem pretensões mas que parecia mostrar o futuro. Quem diria que foi a Lisboa anunciada nas páginas do programa o que desapareceu mais depressa? - Mesmo onde não houve incêndios.
Marina Tavares Dias
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