quinta-feira

A QUINTA DA RABICHA

A Quinta da Rabicha, situada no vale de Alcântara, sob o arco grande do Aqueduto das Águas Livres, surge nas fontes oitocentistas como um desses lugares intermédios entre o campo e a cidade, onde Lisboa respirava fora de si. Não é um espaço monumental nem literariamente consagrado como Sintra, mas aparece, com surpreendente nitidez, na memória de quem o frequentou.

É sobretudo em Bulhão Pato que a Rabicha é contada. Nas ‘Memórias’, descreve-a com precisão quase sensorial: uma quinta pequena, “em forma de triângulo”, encaixada no vale, “debaixo do arco grande do aqueduto”, cercada por um “odorífero e viçoso pomar” e servida por “água abundante e corrente”. A água — essa mesma ribeira de Alcântara que descia de Benfica — não é um detalhe: estrutura o lugar, alimenta as hortas e dá-lhe frescura. No centro dessa paisagem, Bulhão Pato fixa uma imagem notável: um “hotel ao ar livre”, sob um parreiral, junto de um tanque, onde se comia peixe, ovos, queijo saloio, pão de Belas e alface. Não é uma metáfora — é um retrato directo de um sítio frequentado, vivido, integrado no quotidiano lisboeta.

Em 1860, Júlio César Machado deixou uma das descrições mais vivas desse ambiente, ao evocar um encontro na Rabicha, onde se reuniu com Ramalho Ortigão, Anthero de Quental, Jaime Batalha Reis, João Burnay, Alberto de Queiroz e Oliveira Martins. Eram sete, dispostos a “compor uma caldeirada em seis cantos” — isto é, cada um com o seu garfo — não fosse Burnay introduzir uma nota inesperada ao mandar vir um rosbife. Enquanto Machadinho tratava do petisco, o grupo afastou-se até à estrada de Campolide, onde decorriam obras. Num gesto meio burlesco, recolheram o suor de um trabalhador num lenço e, em pequena procissão improvisada, levaram-no ao cozinheiro, que foi solenemente “baptizado” com o chamado “suor do povo”.

A Rabicha não era caso único. Espalhados pelo vale existiam outros retiros campestres, como o do Ferro de Engomar (o mais antigo do nome, anterior ao da Estrada de Benfica), onde se comia, cantava e bailava. Neles ganhou fama um dos primeiros cantadores de fado, José Norberto, conhecido como o Saloio de Campolide.

Tudo indica que estas hortas e retiros terão sido dos primeiros cenários onde se ouviram as formas iniciais do fado e do seu possível antecedente, o lundum. Uma notícia de finais do século XVIII, relativa à Quinta de São João dos Bem Casados, refere que ali residia D. Joana Perpétua, irmã do duque de Lafões. Quando os “reais meninos” ali foram tratar a tosse convulsa, aproveitando os bons ares do lugar, a anfitriã mandou vir “os pretos da Rabicha”, que cantaram modinhas à viola e dançaram o lundum para os entreter.

O hábito de os lisboetas procurarem estas hortas parece ter começado ainda durante a construção do Aqueduto das Águas Livres, quando, aos domingos, multidões acorriam ao vale para ver as obras e acabavam por permanecer junto da ribeira, entre água, sombra e campo — inaugurando um uso que se prolongaria ao longo de todo o século XIX.

Já no virar do século, Alberto Pimentel, ao falar do chamado “Fado da Rabicha”, confirma essa mesma localização, “sob o arco grande do aqueduto”. Ao explicar o “Fado da Rabicha”, escreve que era “o logar que fica sob o arco grande do aqueducto das Aguas Livres”, com “hortas, retiros”, “muito frequentados por fadistas e outra gente de vida airada”, e que ali se cantava fado todos os dias. Narrativa posterior, o seu texto confirma a persistência do topónimo e do carácter boémio e campestre do sítio. 

A ferrovia e, mais tarde, a urbanização do vale deram cabo da Rabicha. Em 1894, escreveu Bulhão Pato: “Quando hoje atravesso a Rabicha no caminho de ferro, deixo de ouvir o ruído do trem, de sentir o fumo da máquina. A memória traz-me o aroma do pomar, o gemer da nora, os meus primeiros versos, os amigos que perdi e…uma grande saudade!”




A ponte da Rabicha,
sobre a Ribeira de Alcântara 
(fotografia de Eduardo Portugal)

Poço com nora na 
Rabicha
(fotografia de Paulo Guedes)

Campolide, o aqueduto e a Rabicha 
(fotografia de Bárcia)








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