Estas duas fotografias que fiz em 1995 têm valor documental que na altura não seria de prever. Numa, vê-se o Obelisco dos Regentes, ainda recortado contra o céu e rodeado pela vegetação da Quinta do Senhor da Serra, em Belas; na outra, a poucos metros dali, o enorme painel da Brisa anuncia aquilo que estava prestes a transformar para sempre aquela paisagem: «A9 – CREL. Construção da travessia na zona de Carenque», com conclusão prevista para 31 de Julho de 1995.
O obelisco tinha então exactamente dois séculos. Fora erguido em 1795, por iniciativa de D. José Luís de Vasconcelos e Sousa, conde de Pombeiro, senhor da Quinta de Belas, para perpetuar a visita à propriedade dos príncipes regentes D. João e D. Carlota Joaquina, futuros D. João VI e rainha de Portugal. É obra do escultor Joaquim José de Barros Laborão (1762-1820) e fazia parte duma importante transformação da quinta e dos seus jardins. Não foi colocado ao acaso: marca o extremo da alameda de entrada, então ladeada por centenas de árvores exóticas.
Com cerca de nove metros de altura, assenta sobre três degraus e um plinto quadrangular, do qual se ergue a grande pirâmide de calcário. Na face sul, Barros Laborão colocou o elemento mais teatral do conjunto: a figura da Fama alada, em mármore. Sustentava originalmente um medalhão com as efígies do futuro Rei D. João VI e de D. Carlota Joaquina. A pirâmide apresenta ainda as iniciais J, C, A e M, correspondentes aos príncipes e aos dois filhos mais velhos. O medalhão desapareceu na década de 1940.
Na minha fotografia ainda se percebe perfeitamente a intenção original. Apesar da vegetação cerrada, o obelisco domina verticalmente a várzea do Jamor. A Fama projecta-se para fora da base e a agulha sobe livremente entre as árvores. É ainda possível olhar para o monumento de baixo para cima, como fora concebido em 1795. E isto torna-se extraordinário quando se recorda que não é uma ruína esquecida sem protecção legal: o obelisco está expressamente incluído na classificação da Quinta do Marquês como Imóvel de Interesse Público desde 18 de Agosto de 1943, juntamente com o palácio, as duas fontes, a capela abobadada e a Capela do Senhor da Serra.
A segunda fotografia explica o que aconteceu a seguir. A CREL atravessou a quinta e o seu viaduto foi construído exactamente por cima do obelisco. O monumento não foi demolido nem deslocado, mas perdeu-se a relação com a paisagem. A Associação Portuguesa dos Jardins Históricos assinala expressamente o «impacto visual e sonoro» do viaduto e a consequente redução do valor patrimonial da Quinta do Senhor da Serra. O inventário patrimonial é ainda mais certeiro: o tabuleiro da CREL, diz, «absorve a escala do monumento». O obelisco continua lá, mas agora é preciso encontrá-lo debaixo de uma auto-estrada. Em 2003, a reportagem da RTP (sobre Jardins Esquecidos) mostrou ao país a nova situação do monumento e do conjunto, que continua classificado no inventário oficial do Património Cultural.
As duas fotografias de 1995 foram tiradas antes de haver um ‘depois'. Numa, o monumento de 1795 ainda com céu por cima. Na outra, o anúncio da obra que estava a tirar-lhe esse céu. Entre o obelisco e a placa da CREL há apenas alguns metros, mas há também duzentos anos de história e uma paisagem prestes a desaparecer.
Marina Tavares Dias