Maria Victoria (María Victoria Pajarrón López) nasceu em Málaga, a 13 de Março de 1888, e veio ainda criança para Lisboa, trazida pela mãe. A sua formação fez-se em ambiente religioso, num convento onde aprendeu com facilidade, revelando inteligência e curiosidade pouco comuns. Esse mesmo espírito inquieto, que nunca se acomodaria a regras rígidas, levou-a a abandonar cedo a instrução, como se desde logo tivesse a vida destinada a cenários menos disciplinados e mais intensos.
Há quem tenha escrito que não soube corresponder a um grande amor que lhe foi dedicado na juventude. Que nela conviviam, de forma quase paradoxal, um sentimentalismo herdado da formação religiosa e a sensualidade espontânea que a empurrava para a boémia. Passou a dedicar-se inteiramente ao fado, canção urbana que então se afirmava como expressão maior da alma popular.
Começou em feiras e festas, nas noites de estúrdia das hortas e das tabernas. A sua voz, cavada e melancólica, tornava-a singular, e o público, sobretudo feminino, acolheu-a com entusiasmo. Para muitas mulheres, Maria Victoria encarnava uma liberdade ainda difícil de alcançar: era independente, dona de si e vivia fora de todas as convenções.
Um dos centros do seu quotidiano foi a taberna Flor da Boémia, na Travessa da Espera, coração do Bairro Alto. A casa pertencia a Joaquim Rato, com quem manteve ligação amorosa. Dessa relação nasceu um episódio dramático: o filho de Rato apaixonou-se também por ela. Sem ser correspondido, foi consumido pelo desgosto, vindo a morrer tuberculoso, de ‘tísica do abandono’, como então se dizia.
Em torno de Maria Victoria formou-se enorme roda de admiradores, jovens boémios, galãs de ocasião, que se sucediam nos arremedos do coração da fadista. Amada por tantos, terá amado pouco; as suas paixões maiores foram sempre o fado e o teatro musical.
A estreia em palco ocorreu no Casino de Santos, às Janelas Verdes, onde um crítico do jornal ‘Polichinelo’ a refere, ainda em 1908. Passaria depois pelo Salão Phantástico, na Rua dos Condes, onde a sua natureza impetuosa deu azo a episódios de rivalidade, incluindo altercações com outra actriz. Não sendo grande intérprete no sentido clássico, era, no entanto, artista de palco eficaz e presença que o público reconhecia e aplaudia.
Foi Luiz Galhardo quem melhor soube aproveitá-la, integrando-a na revista ‘O 31’ (1913), levada à cena no Teatro Avenida. O “Fado do 31”, cantado por Maria Victoria, alcançou um dos maiores êxitos da história da revista portuguesa. Noutras interpretações, que cruzavam tradição e teatralidade, a fadista evocava figuras como Maria Severa ou Ângela Pinto. A popularidade do ‘31’ manteve-se, e ultrapassou fronteiras, chegando a Espanha em partituras Sassetti.
Doente de tuberculose — mal que então devastava meios artísticos e populares — chegou a recolher ao sanatório do Caramulo, de onde fugiu, incapaz de abandonar o palco. Continuou a actuar enquanto pôde, mesmo com a saúde debilitada. Numa viagem para o Porto, onde iria apresentar-se com ‘O 31’, uma noite húmida agravou-lhe o estado. Poucos dias depois, a 30 de Abril de 1915, morria em Lisboa, na Rua Neves Piedade, com apenas 24 anos.
O ‘Diário de Notícias’ noticiou a morte em poucas linhas e com sobriedade quase indiferente, referindo apenas a graça com que desempenhava pequenos papéis. O enterro, para o cemitério de Benfica, foi acompanhado por colegas como Zulmira Miranda e Adelaide Costa. Mais tarde, um antigo apaixonado trataria da trasladação dos seus restos mortais, episódio rodeado de pequenas histórias, como a do brinco desaparecido e afinal encontrado entre os cabelos da caveira.
Ficaram dela fotografias, partituras, referências em críticas teatrais e, sobretudo, uma recordação perene na memória de quem a viu e ouviu. Entre a lendária Maria Severa e a futura Amália Rodrigues, Maria Victoria ocupa um lugar intermédio, quase mítico, da história do fado. Viveu pouco (apenas sete anos de palco), mas o suficiente para deixar nome.
A sua maior consagração viria em 1922: uma das salas de espectáculos do recém-criado Parque Mayer passou a chamar-se Teatro Maria Vitória, perpetuando a memória dessa figura breve e intensa.
Ao longo do século XX, o Maria Vitória manteve-se como um dos centros da revista à portuguesa, sobrevivendo a crises e incêndios. Permanece como testemunho do tempo em que uma rapariga rebelde e frenética deu voz ao fado de Lisboa.

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