Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

segunda-feira

OS TÁXIS DO ROSSIO

A partir da década de 1920, o Rossio funciona como placa giratória do trânsito lisboeta. Destruído o inicial tabuleiro de mosaico ondulado, é no centro da praça que convergem carreiras de eléctricos e circuitos de distribuição. Torna-se o verdadeiro nó da mobilidade moderna: eléctricos, automóveis particulares, carrinhas de abastecimento e, sobretudo, os primeiros táxis organizados em ponto fixo. A praça deixa de ser acolhedora, e torna-se o centro nervoso do tráfego citadino.

É nesse contexto que surge a fotografia do táxi com matrícula GG-10-55, estacionado junto ao passeio, tendo por fundo um eléctrico com a tabuleta “Rossio”. A matrícula já pertence ao sistema nacional introduzido em 1 de Janeiro de 1937, composto por duas letras e dois grupos de algarismos (AA-00-00). A sequência “GG” insere-se nas combinações atribuídas à área de Lisboa, o que confirma o registo local do veículo e situa a imagem necessariamente após 1937.

O automóvel, de grelha estreita composta por múltiplas barras horizontais atravessadas por uma barra vertical central, faróis montados nos guarda-lamas e frisos laterais no capot - corresponde muito provavelmente a um Chevrolet Master (ou Master Deluxe) do ano-modelo de 1938, produzido entre finais de 1937 e 1938. Esse desenho frontal é característico da marca norte-americana nesse exacto período, distinguindo-se dos modelos de 1937, mais verticais, e dos de 1939, já com grelhas mais largas e integradas.

Assim, o carro terá sido adquirido novo em 1938 ou pouco depois, passando rapidamente ao serviço de táxi. Algo comum na Lisboa do final da década de 1930, quando veículos americanos, robustos e relativamente económicos, eram preferidos para transporte público urbano.

A fotografia deverá situar-se entre 1938 e 1941. O vestuário do motorista, sobretudo o sobretudo comprido e o boné de pala, é típico dos anos da Segunda Grande Guerra. Apesar da neutralidade portuguesa, o período marcou uma fase de intensa circulação e vigilância na capital, que se tornaria ponto de passagem internacional. O Rossio, como primeira praça de táxis da cidade, era também o primeiro contacto de muitos viajantes com Lisboa.

O conjunto revela uma cidade em transição: ainda com eléctricos dominando a paisagem, mas já com automóveis a assumir protagonismo; uma praça oitocentista convertida em plataforma de trânsito.





Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigados pelo seu comentário. Aquilo que os leitores nos dizem é da máxima importância. Se quiser denunciar plágios ou cópias de imagens ou informações, por favor deixe explicito qual o site ou perfil que devemos investigar.