Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

terça-feira

O MERCADO DE ALCÂNTARA

Houve um tempo em que Lisboa acabava aqui. Ou deixara já de o ser, Alcântara era subúrbio, limitada a oeste estava a cidade pela Rua Maria Pia, à época Estrada da Circunvalação. Eis-nos, pois, face a esta imagem remota, no limite da Lisboa suburbana. E frente ao seu mercado, em 1906 aberto. 

O postal não no-lo mostra, mas na fronteira entre Alcântara e Lisboa havia então soldados, guaritas onde se abrigavam e... um posto alfandegário. Talvez - quem sabe? - algumas destas gentes para sempre anónimas, que vemos em silhueta a mercar na praça ou simplesmente passando, se dirigissem depois a Lisboa. Ou rumassem a Belém, que fora sede de concelho. Ao certo, todavia, nada sabemos delas. 

O mercado, na sua arquitectura modesta de ferro e vidro (parente pobre da Praça da Figueira) impõe-se ao nosso olhar. Como um monumento. Que haveria, também ele, de perecer, como os que neste postal lhe emprestam vida. Em seu lugar não há agora coisa nenhuma. Ou há: a terra de ninguém dos que - de e para novos subúrbios - todos os dias entram em Lisboa e saem dela. A cidade cresceu sobre os escombros de si própria, às vezes mesmo sobre o mais nobre de um lugar. Quem haveria de dizer que a torre da igreja, lá no alto, ou a gare ferroviária de Alcântara-Terra, à esquerda na imagem, iriam sobreviver a este mercado? 


Texto do livro

'Os Melhores Postais de Lisboa' (1995)




Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigados pelo seu comentário. Aquilo que os leitores nos dizem é da máxima importância. Se quiser denunciar plágios ou cópias de imagens ou informações, por favor deixe explicito qual o site ou perfil que devemos investigar.