Basicamente, as «fitas faladas» assumem, desde o início, uma vertente semi-subversiva, totalmente diversa daquilo que, até então, dominara os argumentos para animatógrafo. Ao longo das décadas seguintes, grandes sucessos da «comédia à portuguesa» vão reproduzir à exaustão o universo pequeno-burguês da Lisboa bairrista. Pleno de personagens argutas, bailadeiras, cinéfilas, modernaças, amantes da pinga, ambiciosas, mentirosas, pouco dadas ao trabalho e frequentemente amorais. No epílogo, quase sempre, saem triunfantes sobre os chamados «botas de elástico», através de uma inversão de valores que nem sequer propõe julgamentos. As comédias do cinema sonoro penderão, pois, para o avesso do regime que as acolheu como arte, e que nunca consegue encaminhá-las para o moralismo do «poucochinho mas honrado». Analistas e historiadores futuros falharão quase sempre ao tentarem ligar este universo, basicamente «revisteiro», herdado de Oitocentos e sedimentado na Primeira República, à opção deliberada pela propaganda do Estado Novo. (...)
Continua em «Lisboa nos Anos 40»
de Marina Tavares Dias

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