A fundação do estabelecimento de Jerónimo Martins remonta a 1792. O jovem Jerónimo chegara havia pouco tempo da Galiza e instalou-se inicialmente na antiga Rua de S. Francisco. Passou ao centro do Chiado no início de Oitocentos, ocupando apenas uma das portas (o número 19, tomado de trespasse à viúva do marceneiro Isidoro José), conhecida por "Tenda do Martins". Décadas mais tarde, a firma recebeu o nome colectivo de Jerónimo Martins & Filho (o filho chamava-se Domingos) e foi crescendo até ocupar as seis portas do edifício.
A Casa Jerónimo Martins e Filho foi autorizada por Suas Majestades a utilizar o distintivo de "fornecedora da Casa Real" em 1858. Em 1878, o escritor Alexandre Herculano concedeu-lhe o exclusivo da venda do azeite produzido na sua quinta de Vale de Lobos. E Bordalo Pinheiro desenhou o ilustre e austero intelectual vestido de azeiteiro, "deixando os literatos e dirigindo os passos para a mercearia do Jeronymo".
Gustavo de Matos Sequeira evocou, num folheto editado pela casa em 1942, outra das anedotas de que o estabelecimento era alvo: um dito popular revelando dois monumentos da cidade com o nome de Jerónimos — um que "falava ao espírito" e outro que "falava ao corpo".
Mas antes mesmo de ser premiada na Exposição Universal de 1900 (onde terão parado as medalhas que estiveram na fachada?), já a casa Martins recebera louvores dignos de antologia. O livro é de 1887 e chama-se "Viagens no Chiado" (de Beldemónio, claro). A longa citação — selectiva, mesmo assim — dá-nos, num estilo "fleuve", imparável, o quadro pormenorizado:
«(...) Eis-nos à “montre” do Jeronymo Martins. Há lá dentro, eternizando-se, em profundezas de 'doka' londrina, um amontoamento extraordinário de tudo que a civilização requintada d'este fim de século tem inventado para fazer da mesa de jantar um verdadeiro altar ao estômago: são as latas de trufas do Périgord, uma honra posthuma para os perus que sabem morrer com dignidade; as terrinas de 'foie-gras', obtido com fígados de pombas assassinadas pelo estiolamento em columbarios impenetraveis á luz, e que da crueldade com que foi feito se vinga, irritando ou produzindo a gotta; os rolos de queijos em altas columnas, desde o 'gruyére' até ao 'brie', passando pelo 'stílton', que tem um sabor aromático de avellãs, até ao precioso Roquefort, picante e cortado de laivos esverdinhados, aristocrático na sua argentea capa de estanho reluzente; os montículos de conservas, peixe e carne, os salmões do Rheno e o terrível 'caviar' da Rússia; suspensos do tecto, renques de presuntos de York, embrulhados nos seus sacos de lona; pelas estantes, os grandes vinhos de toda a Europa, desde o 'Bordeaux' espumoso como cerveja até ao 'Johannisberg' caro como uma jóia, desde o velho e authentico 'Porto' de 1815 até ao mais antigo 'Château-Lafite' de que rezam as chronicas das adegas da França, desde o 'Collares', fresco como uma colheita de orvalho, até ao 'Magyarather' branco da Hungria, com que os voivodes opulentos das margens do Danubio, do bello Danubio azul cantado por Strauss, alegram os festins dos castellos, por onde passou o estandarte de Kossuth; e ao fundo, finalmente, como a apotheose d'aquelle mundo de vitualhas, o castello formidável das grandes caixas de biscoitos inglezes, rectangulares, solidas como o próprio banco de Inglaterra, soberbas do seu ventre que poderia matar a fome a toda uma cidade cercada.»
O negócio próspero incluiu em tempos uma perfumaria, cujo bom gosto era assim louvado, em 1928, nas páginas do "Notícias Ilustrado": "nem as melhores perfumarias ostentam mais delicados perfumes ou artigos de 'coquetterie' feminina, que constituem, pode dizer-se, um verdadeiro arsenal de graciosidade para a mulher elegante que frequente salões de maior recorte aristocrático".
Gravemente danificado nos dois últimos andares pelo incêndio de Agosto de 1988 — e pelas obras de «rescaldo» que destruíram, por exemplo, azulejos interiores oitocentistas —, o edifício da Jerónimo Martins não ficou, ao contrário de outros, reduzido a ruínas. O piso térreo, onde funcionava o estabelecimento que mantinha o nome Jerónimos, nem sequer foi directamente atingido pelo fogo. A empresa anunciou então que a reabertura dependeria do «restabelecimento das actividades características» do Chiado. Mas procurava já destinar os últimos andares do prédio a escritórios, oferecendo em troca outro imóvel na Rua Ivens. A demora da recuperação deste edifício não resultou, portanto, apenas da morosidade geral da reconstrução: nasceu das pretensões dos proprietários. A loja nunca reabriu.
Texto original do volume II
da LISBOA DESAPARECIDA
de MARINA TAVARES DIAS (1989)






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