Quem hoje passa pela Avenida da Índia, junto ao Centro Cultural de Belém, dificilmente imagina que ali funcionou um dos mais antigos e interessantes complexos industriais de Lisboa.
A história da Fábrica do Bom Sucesso começa ainda antes de haver caminhos-de-ferro em Portugal, quando a máquina a vapor era uma novidade quase experimental. Durante mais de um século, naquele espaço apertado entre o Convento do Bom Sucesso e o Tejo houve máquinas a vapor, fundição de ferro, serração, moagem, descasque de arroz, fabrico de vidro e grandes chaminés. O rio chegava então praticamente às paredes dos edifícios.
Em 1819, João Baptista Angello da Costa & Companhia instalou um pequeno complexo fabril nos armazéns anexos ao Convento do Bom Sucesso. Chamou-lhe Fábrica Nacional Privilegiada das Máquinas de Vapor (na época também referida como Nacional Fábrica de Máquinas Movidas a Vapor). A empresa destinava-se à serração de madeiras, moagem de cereais, descasque de arroz, fundição de metais e construção de máquinas a vapor. Terá começado a laborar em 1821, provavelmente utilizando uma máquina do sistema Wolf. Foi a primeira fábrica portuguesa movida a vapor.
Por trás da iniciativa encontravam-se homens particularmente atentos à Revolução Industrial inglesa. Entre eles estava António Julião da Costa (1794-1869), cônsul de Portugal em Liverpool, associado a João Baptista Angello da Costa e João Pedro de Carvalho da Costa. As ligações britânicas ajudam a explicar a precocidade tecnológica do empreendimento.
A própria companhia esteve relacionada com outra novidade extraordinária: a introdução da navegação a vapor em Portugal. Em 1821, o Conde de Palmella navegava no Tejo; no ano seguinte, o Lusitano estabelecia a ligação por vapor entre Lisboa e o Porto.
A importância da fábrica ficou registada no ‘Diário do Governo’ de 3 de Janeiro de 1822. A oficina de fundição, situada expressamente «em Belem, contígua ao Convento do Bom Sucesso», anunciava-se capaz de fundir peças de ferro e outros metais e produzia uma variedade surpreendente de objectos: prensas tipográficas, almofarizes, fogões, cabrestantes e guindastes para navios e armazéns, pesos, ferros de engomar e numerosas peças de maquinaria.
Em 1824, aparece pertencendo a Francisco António Ferreira, que em 10 de Janeiro do ano seguinte pede autorização para juntar usinas de vidro à sua «Fábrica movida por Máquinas de vapor, e Fundição de ferro, estabelecida no sítio do Bom Sucesso». A 8 de Fevereiro requere também (à Alfândega) o registo do carvão de pedra destinado ao funcionamento das suas fábricas.
A vidraria deixou marcas extraordinárias debaixo dos edifícios. Escavações arqueológicas realizadas em 2019 e 2020 revelaram estruturas subterrâneas associadas a um grande forno de cone, com canais abobadados e alvenarias ainda marcadas pelas altas temperaturas. É um dos aspectos mais interessantes do sítio: por baixo de construções que gerações sucessivas utilizaram para outros fins sobreviveram os restos materiais de uma fábrica de vidro da primeira metade do século XIX.
Entretanto, o Bom Sucesso especializou-se progressivamente na moagem. Na carta topográfica de Filipe Folque (1857), o complexo aparece já extensamente edificado. Em 1884, a Fábrica de Moagem do Bom Sucesso era descrita no registo da contribuição predial como uma propriedade junto ao convento, «com frente para o Tejo». Quatro anos depois, em 1888, foi ampliada para o lado do rio e recebeu mais um piso.
Em 1890 empregava 42 homens, possuía potência de 60 cavalos e produzia para todo o mercado português. Trabalhava com máquinas alimentadas por dois geradores tubulares do sistema Nayer & C.ª. Entre os proprietários oitocentistas que passaram pela fábrica contam-se António Julião da Costa, João Pedro Carvalho da Costa e a firma Reis & Ramires.
No final do século encontramos José António dos Reis à frente da moagem. A imprensa anunciava a “Fabrica do Bom Successo — Moagem de trigo a vapor, dotada de moagem por cilindros e dos aperfeiçoamentos modernos”. Vendia farinhas, cabecinha, sêmeas e outros produtos da moagem. O escritório comercial era na Rua da Alfândega, 108, 1.º.
Há um projecto de 1900 para a construção de novo edifício. Em 1904 foi ampliada a chaminé, e em 1909 José António dos Reis mandou construir três novos armazéns. Parte dessa arquitectura industrial sobrevive, incorporada nos edifícios da actual Avenida da Índia.
A partir de 1907, a propriedade começou a ser sucessivamente adquirida pela Companhia Industrial de Portugal e Colónias, uma das grandes empresas portuguesas do sector moageiro. Durante a década de 1920, o velho Bom Sucesso aparece já integrado no seu vasto património. Mas a concentração industrial começava a tornar dispensável aquela fábrica centenária. A Companhia possuía instalações maiores noutras zonas de Lisboa e foi transferindo a produção para oriente. No relatório de contas referente a 1934 dizia-se já que as fábricas de moagem da Estrela e do Bom Sucesso tinham sido incorporadas nas do Beato e de Xabregas.
O fim da moagem não significou imediatamente o desaparecimento dos edifícios. A Companhia Industrial de Portugal e Colónias ainda aparece em 1940 em documentação municipal relativa aos números 7, 9 e 11 da Rua da Praia do Bom Sucesso. Mas a grande transformação urbanística provocada pela Exposição do Mundo Português e, depois, a abertura e regularização da Avenida da Índia alterariam definitivamente aquela frente ribeirinha.
Quando os arqueólogos voltaram ao lugar, em 2019-2020, encontraram uma espécie de cidade industrial enterrada. Quinze sondagens deram lugar à escavação de cerca de 2500 metros quadrados. Sob os pavimentos permaneciam fundações, canais, fornos, condutas, paredes e sucessivas reconstruções correspondentes a diferentes tecnologias e épocas.
E apareceu algo ainda mais antigo do que alguns dos edifícios fabris: grandes estruturas de pedra acompanhando a antiga margem. Os paredões da frente flúvio-marítima poderiam ter funcionado como ancoradouro ou varadouro para embarcações que abasteciam as fábricas. Uma delas chegava quase aos três metros de altura.
É talvez a melhor imagem para compreender o Bom Sucesso de então. Antes da Avenida da Índia, antes dos aterros e antes do Centro Cultural de Belém, a fábrica estava verdadeiramente à beira do Tejo. O carvão, as matérias-primas e as mercadorias podiam chegar de barco. Ali começou a trabalhar uma máquina a vapor quando o vapor ainda era notícia; ali se fundiu ferro, se fabricou vidro, se descascou arroz e se moeu trigo durante mais de cem anos. E alguns dos discretos edifícios que hoje sobrevivem junto à Avenida da Índia são os últimos restos à superfície de uma história industrial começada em 1819.
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