Desde 1833 que a Casa José Alexandre exibia as suas montras resplandecentes, ocupando grande parte do primeiro quarteirão da Rua Garrett. Os olisipógrafos reconheceram nesta antiga loja de quinquilheiro um dos símbolos do Chiado oitocentista. Já Júlio de Castilho, no seu "Bairro Alto", lhe chama o "protótipo do que havia de melhor em Londres e Paris". Gustavo de Matos Sequeira aponta, no livro "O Carmo e a Trindade", os principais produtos além das bugigangas: "hortaliça e flores em caixinhas".
A casa iniciou actividade instalada apenas nos números 10 e 12 da Rua Garrett (expandindo-se, mais tarde, para as portas do 8 ao 18) e coexistiu com o famoso "Magalhães do Chiado", grande centro de tertúlia e de maledicência...
Após o terramoto, o edifício construído na esquina nordeste do Chiado serviu uma livraria, de cujo proprietário se conhece o nome: Nuno José da Cruz. Na primeira metade do século XIX existiu uma capelista no número 8, pertencente a Ricardo dos Prazeres, também ele contemporâneo do comerciante José Alexandre.
João José Alexandre de Oliveira começou por dedicar-se ao comércio de ferragens; segundo Mário Costa ("O Chiado Pitoresco e Elegante"), foi o filho deste, José Vicente de Oliveira, quem tomou de trespasse a capelista ao lado. As restantes portas, incluindo a esquina para a Calçada do Sacramento, só passariam a pertencer à loja já no início do século XX (mais exactamente 1901), quando o estabelecimento pertencia a José de Carvalho. Até lá, João Cardoso tinha tomado conta da famosa casa de modas do "Magalhães do Chiado". Esta, no entanto, perdera já o seu brilho de meados de Oitocentos.
Nenhum investigador nos dá uma data exacta para a fundação deste centro de tertúlia chiadense. João Pinto de Carvalho (Tinop) revela, contudo, a época áurea:
«Na loja de modas do Magalhães, esquina do Chiado e da Calçada do Sacramento, juntava-se, antes de 1870, um grupeto de gralhadores: o poeta Eduardo Vidal, o José Maria de Andrade Ferreira ou o “Literato dos pés grandes” e o arqueólogo e poeta Estácio da Veiga, a quem chamavam o 'Cri, cri nela' (palavras com que principiava uma poesia sua) e o "Poeta Grelo" (por ser alto e louro), a quem Bulhão Pato epigramatizou na sua "Paquita", depois dele ter cantado, em verso, a "Rosa do Palais-Royal", proprietária de um conhecido prostíbulo em 1858». A propósito das tertúlias da época, já nestas páginas evocámos Estácio da Veiga e a alcunha por que era conhecido entre os outros membros do seu "gremiozinho de palestradores".
Alfredo Gallis, que foi afilhado do Magalhães, deixou-nos o seu testemunho sobre a célebre loja, no livro "Nota da Capital":
«A loja do Magalhães, e ele próprio constituíam um destes postos de reunião característicos das grandes e pequenas cidades, onde a política e o escândalo, o último decreto e o último adultério, o estado das finanças e as aventuras dos homens mais conhecidos, assentavam os seus arraiais, e durante dias, desde a manhã até às nove da noite, eram discutidas, apreciadas, corrigidas e ampliadas por todos esses que, antes de jantar e depois do almoço, antes de S. Carlos e depois do café, ali iam invariavelmente dar um aperto de mão ao Magalhães, fumar um cigarro e cavaquear um quarto de hora. O que não se soubesse na loja do Magalhães não se sabia em parte alguma de Lisboa. A própria Havaneza, com toda a sua sumptuosidade e bons charutos, não conseguiu desbancar a fama aristocrata daquele estabelecimento, onde entraram os vultos mais eminentes da nossa política e da nossa fidalguia. Havia uma certa roda de bons velhotes, afidalgados, de grandes brilhantes nos anéis e sobrecasacas muito limpas, que eram os amigos velhos do dono da loja (...). Havia trinta e cinco anos que o Magalhães se estabelecera no Chiado, naquela mesma loja, que foi o vibrar da última nota da rua aristocrática da nossa capital.
Pouco a pouco, neste período que representa a meia existência que passa pela escala da infância, puberdade e juventude, que é, por assim dizer, o espaço em que se aninham todos os sonhos e todas as ilusões, ele viu o Chiado transformar-se vagarosamente desde o Marrare do Polimento até ao incêndio do Palácio Barcelinhos, desde a luz Jablochkof até à colocação do novo nome daquela rua, onde ele era o último representante.»
Mário Costa consultou ainda o diário do Magalhães, e nele viu mencionados os clientes da famosa loja, que em parte enumerou: "Fontes Pereira de Mello, Rodrigo da Fonseca, José Palha, D. José Coutinho, o quinto marquês de Castelo-Melhor, os condes de Anadia, de Cabral, da Figueira e da Lapa, o poeta Eduardo Vidal, Estácio da Veiga, José Ribeiro da Cunha, Miguel MacBride, Henrique Zenóglio, Fidié, Lopes Pastor, barão de Sabrosa, Carlos Krus, Pedro Galveias, Costa Cabral e Fortunato Chamiço." Após a morte do Magalhães, ficou este seu diário na posse da família de Alfredo Keil, de quem o comerciante era, desde sempre, "protégé".
A partir de 1901, a área da antiga loja de modas foi anexada pela Casa José Alexandre. Foram os herdeiros de José de Carvalho que, já em 1957, abriram a ligação com o primeiro andar. Ainda no século XIX, a casa publicitava os seus produtos assim: "Genuíno e superior vinho do Porto da Quinta da Cachucha (Alto Douro), talheres e vários artigos de christofle, perfumarias, esponjas, espanadores, de penas e de cerdas, escovas, cutelaria fina, tinta para escrever, medidas, artigos para engenharia e grande variedade de objectos para todos os usos".
Herdeira das tradições do Chiado e renovando-se ao sabor de novos confortos, a Antiga Casa José Alexandre (como passou a chamar-se na primeira metade do século XX) atravessou as últimas décadas mantendo para si o privilégio das "melhores prendas" e o exclusivo da preferência nas listas de casamento da Lisboa elegante. As montras resplandecentes de luxo deixariam, ainda no dia 24 de Agosto de 1988, boquiaberto o próprio José Alexandre, comerciante de ferragens em 1833. Depois da tragédia do dia seguinte, a Antiga Casa José Alexandre alojou-se provisoriamente na Avenida Fontes Pereira de Melo.
Os proprietários de 1988 esperavam, como tantos outros, que Lisboa lhes pudesse devolver o que ela própria perdera no incêndio do dia 25 de Agosto desse ano: o seu lugar histórico no Chiado. Mas o Chiado reconstruído não prestou contas nenhumas à história das suas lojas.
Texto original do
Volume II da LISBOA DESAPARECIDA
de MARINA TAVARES DIAS
(1989)




Sem comentários:
Enviar um comentário
Aquilo que os leitores nos dizem é da máxima importância. Sobre habituais plágios e cópias de textos, imagens ou informações, por favor deixe explicito qual o site ou perfil que devemos investigar.