sábado

MEU QUERIDO PORQUINHO

Nasci no centro de Lisboa, e aquela era a minha geografia de infância. Ia com a mãe à Baixa, lanchávamos na Suíça, e depois ela passava pela Charcutaria Favorita, na Rua do Ouro, para comprar croquetes. Para mim, um pequeno suplício. A loja era diminuta (tentavam remediar isso com uma parede inteira de espelhos) e havia quase sempre muita gente à porta, à espera de vez.

Enquanto aguardava na rua, no desespero dos meus cinco anos, só tinha olhos para o porquinho luminoso que marcava a entrada da casa. Desenhado em tubos de néon, de avental e barrete de cozinheiro, o pequeno animal parecia saudar quem passava. À noite, quando as luzes se acendiam na Baixa, juntava-se aos muitos reclamos luminosos que faziam do Rossio e das ruas vizinhas uma verdadeira cidade de néons.

Só muitos anos depois de a Favorita fechar viria eu a descobrir que aquele porquinho não era só uma fantasia luminosa destinada a atrair os clientes da Rua do Ouro. Fazia parte da pequena rede de charcutarias ligadas à Fábrica Aveirense, instalada no n.º 31 da Rua da Arrábida, fundada em 1949 por Horácio Melo e António Costa.

A Favorita da Rua do Ouro foi a primeira loja, mas outras casas vendiam os mesmos produtos: a Riviera, na Avenida da Igreja, a Diplomata, na Avenida João XXI, a Brasília, na Rua Alexandre Herculano, e o único porquinho que resta: a Dava das Avenidas Novas. À porta dessas casas aparecia sempre o maravilhoso bichinho, de avental e barrete, formado por tubos de néon que davam uma ilusão de movimento: lambia-se e mexia a virgulazinha do rabo.

O reclame luminoso era obra da firma Simões Júnior, instalada na Rua Gama Barros, uma das oficinas que produziram muitos dos letreiros de néon que iluminavam o centro de Lisboa nas décadas de 1950 e 1960. Mas, para mim, «o meu porquinho» não fazia publicidade. Estava simplesmente ali, no alto da porta, como um animal doméstico que guardava a loja. É dele e minha uma das mais duradouras memórias da Baixa dos anos 60.


Marina Tavares Dias 


















quinta-feira

DE GERMÂNIA A PORTUGÁLIA



A pequena cervejaria primitiva da fábrica da Avenida Almirante Reis — ainda sob o nome de Germânia — não nasceu como casa autónoma, mas como apêndice directo da produção. Já em 1911–1912, quando a nova unidade industrial se instala no grande quarteirão, existia, no interior do pátio, junto ao gaveto da Rua Pascoal de Melo, um espaço modesto onde se servia cerveja aos clientes que ali iam comprar barris. 

Era um lugar funcional, quase improvisado, mas com uma vida própria. Quem entrava na fábrica — atravessando o movimento dos carros, das pipas e dos operários — encontrava ali um abrigo fresco, de mesas simples, onde se provava a cerveja antes de a levar. Não era ainda a cervejaria monumental inaugurada em 1925, mas um núcleo inicial, íntimo, quase secreto, cuja existência é confirmada por fotografias de interior hoje raras. 

Esse primeiro espaço tinha um carácter muito particular: misturava o ambiente industrial com o gesto social do beber. O cheiro do malte e da fermentação entrava pelas portas abertas; a cerveja era literalmente bebida no lugar onde nascia. Não havia separação entre fábrica e consumo — apenas um pátio onde o comércio se fazia de forma direta e quase artesanal.

Na memória da cidade, esse cheiro persistiu muito para além desse tempo inicial. Ainda na década de 1960, quem passava na Avenida Almirante Reis reconhecia imediatamente a presença da fábrica pelo odor intenso, quente e adocicado, que se espalhava pela rua — uma espécie de assinatura invisível daquele quarteirão industrial, tão forte quanto qualquer fachada.

Depois, como tantas estruturas fabris de Lisboa, o espaço entrou numa fase de transição, quando a produção foi deslocada para a Vialonga. Partes da antiga fábrica foram sendo reutilizadas. Na década de 1970, instala-se ali uma companhia de teatro, A Barraca, fundada em 1975, representativa do movimento de teatro independente que procurava espaços alternativos e precários para ensaio e criação. É um contraste quase perfeito: onde antes se provava cerveja entre barris e vapor, surgem actores, cenários improvisados e palavras ditas em liberdade. O pátio industrial transforma-se em palco. Na década de 1990, abriu um centro comercial no gaveto sul, em edifício entretanto construído. Hoje, todo o quarteirão, maioritariamente demolido, espera solução urbanística. A cervejaria, agora com sucursais, continua sempre cheia.

Assim, aquela pequena loja inicial — parte da fábrica — acabou por ser o primeiro gesto de uma longa história de apropriações: do fabrico ao convívio, do convívio ao teatro, do teatro ao comércio a retalho e da indústria à memória.


Nas imagens: o quarteirão na época da Germânia, ainda com o gaveto por construir, e a primeira versão da Cervejaria Portugália, ainda com pátio e esplanada.





domingo

O MEU PROFESSOR ANTÓNIO LOPES RIBEIRO

Há figuras que pertencem à história, e outras que permanecem, sobretudo, na memória viva de quem com elas privou. António Lopes Ribeiro era, curiosamente, ambas. Quando o conheci, no IADE, eu tinha 19 anos e começava a escrever para os jornais; ele já trazia consigo um mundo inteiro de cinema, vivido por dentro e contado com uma naturalidade desarmante.

Falava-nos de encontros com Sergei Eisenstein, Fritz Lang, Erich von Stroheim ou Irving Thalberg — nomes que para nós eram quase mitológicos — como quem evoca conversas de café. Conhecera todos. E, no entanto, nunca havia ostentação: antes uma espécie de pudor elegante, uma modéstia genuína que contrastava com a dimensão da sua experiência.

Levou-nos à Cinemateca, que ajudara a fundar, para vermos os seus filmes. Numa dessas sessões, o ‘Amor de Perdição’. Foi aí que nos apresentou ao António Vilar. Já envelhecido, Vilar conservava intacto o porte do ‘Carlos Bonito’ de outros tempos. Aproximou-se de nós com uma lentidão cerimonial e beijou a mão de cada rapariga da turma. Ficámos sideradas — tão jovens, nem sabíamos o que fazer após tal gesto.

A Leonor Nunes, colega na revista ‘Mulheres’, frequentou um ano do curso comigo. No dia em que morreu Francisco Ribeiro (Ribeirinho), irmão dele, todos pensámos que não havia aula. Só nós duas aparecemos nessa tarde. Lopes Ribeiro chegou inesperadamente, agiu como se fosse um dia como os outros, tirou a gabardina, pendurou-a na cadeira, sentou-se com calma. E como se a sala não estivesse quase vazia, começou a aula: “Vamos falar de uma arte que imortalizou o meu irmão.”

Agora recordo, sobretudo, a amizade inesperada que nasceu. Tornámo-nos próximos, e eu ia visitá-lo ao Círculo Eça de Queiroz. Entrevistei-o várias vezes, e reencontrei sempre o mesmo homem: atento, discreto, quase surpreendido com o interesse que despertava.

Anos mais tarde, quando o Chiado ardeu — esse golpe tão fundo na memória da cidade —, foi ele quem me ajudou, na Redacção do ‘Diário de Lisboa’, a construir uma espécie de fotonovela de jornal, a partir do seu filme ‘O Pai Tirano’. Perante a destruição real, recorríamos à ficção para recompor, ainda que provisoriamente, a cidade perdida. Estava lá toda: Grandella, Perfumaria da Moda, Cardoso dos chapéus, Café Chiado com a sua tabacaria, etc, etc.

Assim o guardo: não apenas como o realizador associado a um tempo e a um regime, mas como um homem de cultura rara, generoso no saber e no gesto, que aproximava os outros — mesmo os mais novos — de um mundo já distante. Porque tudo, com ele, ficava subitamente próximo e outra vez vivo.


Marina Tavares Dias 






quarta-feira

O CINEMA DA GRAÇA

 Agapito Serra Fernandes (1863-1939), natural da Galiza e radicado em Lisboa desde os onze anos, dirigia a fábrica de biscoitos Confiança, fornecedora do exército. Mais tarde foi dono de lojas: uma tabacaria no Largo do Regedor e o restaurante Estrela d’Ouro na Rua da Prata. 


Em 1908 iniciou na Graça a construção do bairro operário Estrela d’Ouro, destinado a trabalhadores das suas empresas. Em 1928, a Empresa do Royal Cine Lda., também sua propriedade, pediu à Câmara de Lisboa autorização para erguer ali uma grande sala de animatógrafo, num edifício especialmente para tal concebido (projecto do arquitecto Norte Júnior). A fachada pretendia-se monumental, no contexto da estreia Rua da Graça, ostentando arco de entrada, colunas estriadas e vitrais coloridos . No interior, a sala tinha cerca de 900 lugares, orquestra, balcão, camarotes laterais, bar e salão de baile.


O Royal Cine inaugurou a 26 de Dezembro de 1929 com o filme ‘O Cadáver Vivo’, de Fedor Ozep. Além da programação, oferecia ‘matinées’ dançantes às quartas-feiras. Poucos meses depois, a 5 de Abril de 1930, ocorreu ali a primeira apresentação do cinema sonoro em Portugal, com ‘Sombras Brancas nos Mares do Sul’ (‘White Shadows of the South Seas', dirigido por WS Van Dyke), na presença do Presidente da República. Embora dificilmente se possa considerar ‘sonoro’, o filme trazia efeitos sonoros e música na própria película, coisa até então nunca ouvida em Lisboa. Outra novidade: é o primeiro filme em que está gravado o rugido do leão da Metro (MGM).


Agapito Serra morreu em 1939. O Royal Cine, a que os moradores do bairro chamavam ‘o rolhas’, manteve-se em actividade até 1983. Subsiste o edifício, agora albergando um supermercado. Fachada e átrio ficaram intactos, assim como vitrais, relógio, lambris e escadaria. Foi tudo restaurado em 2025, mantendo a memória daquela que era a sala de cinema mais importante do bairro da Graça.













quinta-feira

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

A minha relação com António Lobo Antunes começou mal. O primeiro livro que li foi o primeiro que ele escreveu. Eu não teria mais de 18 anos. Pensei: ‘Que grande dor de corno, escrever isto.’ Arrumei o volume da Vega na prateleira e não comprei o segundo. 

Fast-forward seis anos. Conheci o Zé quando ele trazia um livro do António debaixo do braço. O Acácio Barradas atirou, com um sorriso: ‘Aqui tens o descobridor de talentos.’ O Zé fizera a primeira entrevista ao António, e tinham ficado muito amigos. Perguntei-lhe pelo livro que levava. Estendeu a mão e disse: ‘Lê tu, e logo me dizes o que pensas.’ Nessa tarde, na Pastelaria Orion, fiz a segunda imersão na prosa do António. Maravilhada, fui pedir emprestados todos os outros livros. 

Conheci o António nesse ano, depois de mais uma entrevista para o ‘DP’. Achei-o muito diferente do escritor que tinha lá dentro. Parecia estar sempre um pouco alheado da conversa, ponderado em cada resposta, vagamente enfastiado. Tínhamos ido comprar cromos, eu e o Zé. Perante o meu entusiasmo ao abrir cada pacotinho, o António começou a falar dos futebolistas que faziam as antigas colecções de ‘cromos da bola’, compradas com os rebuçados das mercearias. De repente, acendeu-se aquele belo sorriso. Estava encontrado o âmago dos seus livros, em que tudo era intenso e fascinante só por ser humano.

Fotografei-os juntos e emoldurei o retrato ao lado de outro, mais antigo, que o Zé tinha com ele. Mais tarde, juntei na mesma moldura mais uma fotografia: com o neto, a apontar para a câmara. Tirando as entrevistas, nunca falámos da obra dele. Nunca lhe pedi livros ou autógrafos, nunca lhe dei os parabéns por nada. Fiquei surpreendida por não ter sido o primeiro escritor português a ganhar o Nobel. Nunca lho disse. 

Quando o Zé morreu, o António publicou uma crónica em que repreendia a Deus. Que tivesse levado outro cuja falta não se fizesse sentir tanto. Que tivesse levado quem lhe faria menos falta a ele. No meio de tantos elogios fúnebres, foi o mais sincero. Dava o devido valor a quem o estimava.

Voltei a falar com ele, anualmente, nos meses da Feira do Livro. Uma tarde, encontrei-o ‘pastoreado’ na sessão de autógrafos pelo antigo distribuidor dos meus próprios livros. ‘És amigo deste gajo?’ E ele, com o sorriso encavacado: ‘Ninguém é perfeito.’ Adoeci e deixei de ir à Feira, às habituais sessões de exposição circense. Quando cessaram as crónicas e se interrompeu aquela cadência certa com que os livros novos apareciam nas livrarias, tentei saber como estaria. Que já não podia escrever, que não se dava com ninguém. Não tentei saber mais. Reservado como era, decerto teria preferido que eu não soubesse.

Há coisa de dois anos, enquanto revolvia pela enésima vez as estantes, em busca de um livro que não encontrei, caíram-me aos pés várias folhas com os poemas que nunca publicou, e cujo original tipo-escrito tinha ficado com o Zé. Comovi-me um bocado nesse dia, e fui para o FB publicar fotografias dele. Mas não o tenho retratado no cenário em que mais vezes o encontrei: um armazém vazio e asséptico, vagamente pertencente a um primo, ali ao Conde de Redondo. 

O António escrevia sem precisar de nada à sua volta. Metia-me espécie, e ele ria. Talvez por isso, quando comprou uma casa nova fez questão de mostrar que a decorara. O Zé sabia mais ou menos o que iria encontar. Com um desvelo que raramente dedicava à decoração das casas, o António tinha colado na parede um cromo do Benfica.


Marina Tavares Dias 












quarta-feira

A BAIXA QUE CONHECI

Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.

A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.
Para mim, a Baixa era o mundo inteiro. Para onde foi esse mundo, tão próximo e tão distante? Desço hoje a Rua do Ouro e, entre lojas paquistanesas e hotéis recém-inaugurados, nada já parece estar na mesma cidade.


Marina Tavares Dias



terça-feira

O MERCADO DE ALCÂNTARA

Houve um tempo em que Lisboa acabava aqui. Ou deixara já de o ser, Alcântara era subúrbio, limitada a oeste estava a cidade pela Rua Maria Pia, à época Estrada da Circunvalação. Eis-nos, pois, face a esta imagem remota, no limite da Lisboa suburbana. E frente ao seu mercado, em 1906 aberto. 

O postal não no-lo mostra, mas na fronteira entre Alcântara e Lisboa havia então soldados, guaritas onde se abrigavam e... um posto alfandegário. Talvez - quem sabe? - algumas destas gentes para sempre anónimas, que vemos em silhueta a mercar na praça ou simplesmente passando, se dirigissem depois a Lisboa. Ou rumassem a Belém, que fora sede de concelho. Ao certo, todavia, nada sabemos delas. 

O mercado, na sua arquitectura modesta de ferro e vidro (parente pobre da Praça da Figueira) impõe-se ao nosso olhar. Como um monumento. Que haveria, também ele, de perecer, como os que neste postal lhe emprestam vida. Em seu lugar não há agora coisa nenhuma. Ou há: a terra de ninguém dos que - de e para novos subúrbios - todos os dias entram em Lisboa e saem dela. A cidade cresceu sobre os escombros de si própria, às vezes mesmo sobre o mais nobre de um lugar. Quem haveria de dizer que a torre da igreja, lá no alto, ou a gare ferroviária de Alcântara-Terra, à esquerda na imagem, iriam sobreviver a este mercado? 


Texto do livro

'Os Melhores Postais de Lisboa' (1995)




CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...