terça-feira

A FÁBRICA DE TABACO DE XABREGAS

 Fora um filme, desses dos primitivos Lumière (ou do nosso Aurélio Paz dos Reis) e o título poderia ser «À Saída da Fábrica...». Da Fábrica de Tabacos de Xabregas, neste caso, a fazer fé na legenda do postal. Mas, porque é um postal e não um filme, em vez de título há legenda e em vez de quem sai da fábrica temos a fábrica tão somente. E quem nela trabalha? Ao fotógrafo (e ao editor) tal não parece ter interessado. O filme, de quem saísse, em primeiro (talvez trémulo) plano, daria o rosto. No postal rostos não há: apenas vultos, silhuetas, a mole confusa dos operários - anónimos. Que fazen eles (e elas) ali à porta? Será que saem? Será que entram? Ou será que não entram nem saem - estão em greve, por exemplo, contra o alongado horário, a dureza do labor, a má paga do salário? Não sabemos. Em frente da fábrica está uma guarita e, junto dela, percebem-se dois homens a cavalo. Soldados? Talvez. Com um deles fala uma mulher. Que se irá passar? Nunca o iremos saber. Os parcos dizeres deste postal dizem tudo. Ou nada: aqui não há antes, nem depois, porque essa água que corre do destino das gentes não a quis fixar o fotógrafo. Apenas a fábrica, que aliás mal se vê. Ah, se, paralela à História, houvesse uma História dos Olhares.






segunda-feira

OS MENINOS DAS RENDAS

Lisboa ainda falava francês. E chique era chamar, às "rendas", "dentelles". E enobrecer com o vocábulo "marchands" o duro ofício de (sobre)viver destes miúdos da rua. Miúdos que o sagaz olhar do fotógrafo colheu ao acaso. Uma pausa no ambulante dia de dois trabalhadores quase crianças. Após ela, tudo lhes terá sido como dantes. Ou como imediatamente depois. Mas esta pausa que não lhes terá ocupado mais do que uns breves minutos no calcorrear da jornada, transcenderia, afinal, o instante. Eles não sabiam. Julgavam - sem o julgar talvez - que olhavam apenas o fotógrafo. E afinal, vai-se a ver, posavam para a posteridade. Graças a este postal. Porque hoje, 120 anos depois, tudo se foi: os dois miúdos e o fotógrafo, as rendas e o que terão enfeitado, a própria máquina fotográfica que embalsamou o tempo, este cidade até, que na sua alma é já outra. Resta o que resta: um postal e o olhar deles. Dos dois miúdos que, entre o recesoso e o desconfiado, um dia olharam o fotógrafo, sem saberem que seria a nós quem, num futuro longínquo e inimaginável, iriam olhar. Porque, postados outrora na calçada de uma rua qualquer, hoje é a nós que eles nos olham. Nos olhos. De frente. Desafiando-nos o imaginário. Até quando Lisboa terá ouvido o pregão das rendas?



'Os Melhores Postais de Lisboa', 

de Marina Tavares Dias, 1995

quinta-feira

O ELEVADOR DA ESTRELA

 

Subindo duas calçadas íngremes - a da Estrela e a do Combro - este era um dos elevadores mais procurados de Lisboa. Percorria grande parte do trajecto da posterior, e hoje tradicional, carreira de eléctrico número 28. Movido a acetileno, o Elevador da Estrela não sobreviveu ao desuso desse combustível, logo na segunda década do século. 

Note-se a total ausência de fios eléctricos sobre os carris, assim como a configuração da pequena locomotiva aberta. No entanto, o seu atrelado sugere, já, um futuro carro eléctrico no mesmo percurso. Entre os vários editores de postais lisboetas de 1900, apenas Faustino Martins parece ter conferido grande interesse turístico aos transportes sobre carris. É o único a dedicar-lhes três edições com fotografias em que estes aparecem num grande plano. Além do Elevador da Estrela, publicou ainda imagens de eléctricos abertos, com um ou dois trolleys. A par de «O Carro do Jorge» (edição Malva & Roque), constituem temática privilegiada entre todos os postais lisboetas. De outras cidades - Porto, Coimbra, etc. - não se conhecem verdadeiros grandes planos de eléctricos sobre postal antigo, ou exemplares cuja legenda refira apenas estes meios de transporte.




quarta-feira

O POSTAL DA PRAÇA DA FIGUEIRA

Estarão quase a chegar, ou terão já partido, após um dia inteiro de trabalho e de pregões? Este aspecto da Praça da Figueira é, sem dúvida, pouco comum. E, vá lá saber-se porquê, foi escolhido para o único postal que ostenta fotografia do interior do mercado. De longe, ainda há quem repare no retrato.

Mas cestos pousados sobre bancas vazias sugerem o final de tarde de um dia de Verão. Ninguém se lembra da praça assim. Porque ela seria, sobretudo, o seu recheio, o seu ruído. As manhãs apressadas ou - uma vez por ano - grinaldas, balões, tronos de Santo António. Bailes, mangericos, banda desafinada.
Memórias difusas para gerações posteriores à demolição de 1949. Para estas, a única referência imediata parece ser uma imagem de Maria das Neves no filme "O Pátio das Cantigas": "Senhora Rosa, chegou a sua filha!". Vendida em hasta pública e arrematada ainda de pé, a construção de ferro e vidro foi desmantelada para sucata. Muitos anos depois, houve quem afirmasse tê-la visto reconstruída em Inglaterra ou numa obscura parte do continente africano. Lendas que o imaginário confere ao que não quer perder.
Não há tema mais procurado, nos postais topográficos de Lisboa, do que a Praça da Figueira. De certo modo, ela nunca foi abaixo. Os mitos, como as árvores, morrem sempre de pé.


M.T.D.



segunda-feira

AVENIDA DUQUE DE ÁVILA

 Lisboa já se estendeu para norte. Ao Passeio Público, a Avenida da Liberdade passara-lhe por cima para ir dar à Rotunda. A partir daí (menos ambiciosas na sua largueza), diversas avenidas se abriram e, a seguir à (mais modesta) rotunda do Saldanha, nelas outras se cruzaram: as Avenidas Novas. Como esta ainda tão pacata equase provinciana Avenida Duque de Ávila que aqui vemos, já percorrida por eléctricos, cujos fios, porém, são consertados, ainda, por carros puxados a cavalo. Puxada a cavalo segue também, na outra via, uma carroça. O mundo - dir-se-ia - caminhava em frente e direito a nós. Equilibrado, embora, em dois pés: o passado e o presente. No meio, estão as poucas gentes que, lá longe, passam, insensíveis, decerto, à concomitância da História. Só os dois muídos estacaram. Olhos postos no fotógrafo? Não: olhos postos no futuro.


Marina Tavares Dias, 'Os Melhores Postais de Lisboa'




quinta-feira

AVENIDA FONTES PEREIRA DE MELO

Avenida Fontes Pereira de Melo com o Palácio Sottomayor (à direita do carro eléctrico). Do lado oposto, meio oculto pela jovem árvore, o gaveto de outro prédio, demolido em 2010 (esquina com a António Augusto de Aguiar). Placa central ajardinada, animação reduzida, trânsito quase nulo. E, ronceiro, o eléctrico de ligação com a Baixa, centro longínquo e imprescindível às compras mais exigentes. Os candeeiros mais altos ainda têm arco voltaico, mas - apesar deles - as noites são longas. Por muitos anos - muitos -, sem adivinharem futuras buzinadelas ou engarrafamentos de automóveis. 

A zona hoje terciária está, aqui, destinada apenas a habitação própria; palacetes das classes mais abastadas, jardins circundantes, árvores escolhidas (uma espécie por cada arruamento), flores exóticas nos jardins e nas estufas. O padeiro vem à porta; assim como a varina ou o burrinho do leite. Mas, para comprar o jornal, desce-se muitas vezes à Baixa. Porque Lisboa, aqui, é o sossego de quem pode estar só, entre paredes arte-nova, pousando os lábios na porcelana do chá. Sem ouvir, ao fundo da avenida, o futuro galgando a praça, disposto a mortos pelo caminho. 

Deste lado do tempo, será fácil adivinhar tudo, hoje. E apetece dizer acordem. E apetece ir comprar as casas, estancar o asfalto e os escritórios, calar buzinas e travões. Mas, embalsamado, este eléctrico parou aqui, no seu retocado recanto do tempo. O futuro só existe depois do que há. Não tem fotografias.




terça-feira

O EDIFÍCIO DOS ARMAZÉNS DO CHIADO

O Palácio Barcelinhos acolheu, ao longo do século XIX, quatro hotéis distintos — o Hotel dos Embaixadores, o Hotel de l’Europe, o Hotel Gibraltar e o Hotel Universal — constituindo um dos mais notáveis exemplos de continuidade hoteleira num mesmo edifício em Lisboa. Com a gradual expansão dos Grandes Armazéns do Chiado, o palácio foi perdendo a vocação, até albergar apenas o estabelecimento comercial que viria a definir uma nova era, e novos hábitos, na história do Chiado.





CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...