sexta-feira

A FÁBRICA DO BOM SUCESSO

Quem hoje passa pela Avenida da Índia, junto ao Centro Cultural de Belém, dificilmente imagina que ali funcionou um dos mais antigos e interessantes complexos industriais de Lisboa.

A história da Fábrica do Bom Sucesso começa ainda antes de haver caminhos-de-ferro em Portugal, quando a máquina a vapor era uma novidade quase experimental. Durante mais de um século, naquele espaço apertado entre o Convento do Bom Sucesso e o Tejo houve máquinas a vapor, fundição de ferro, serração, moagem, descasque de arroz, fabrico de vidro e grandes chaminés. O rio chegava então praticamente às paredes dos edifícios.

Em 1819, João Baptista Angello da Costa & Companhia instalou um pequeno complexo fabril nos armazéns anexos ao Convento do Bom Sucesso. Chamou-lhe Fábrica Nacional Privilegiada das Máquinas de Vapor (na época também referida como Nacional Fábrica de Máquinas Movidas a Vapor). A empresa destinava-se à serração de madeiras, moagem de cereais, descasque de arroz, fundição de metais e construção de máquinas a vapor. Terá começado a laborar em 1821, provavelmente utilizando uma máquina do sistema Wolf. Foi a primeira fábrica portuguesa movida a vapor. 

Por trás da iniciativa encontravam-se homens particularmente atentos à Revolução Industrial inglesa. Entre eles estava António Julião da Costa (1794-1869), cônsul de Portugal em Liverpool, associado a João Baptista Angello da Costa e João Pedro de Carvalho da Costa. As ligações britânicas ajudam a explicar a precocidade tecnológica do empreendimento. 

A própria companhia esteve relacionada com outra novidade extraordinária: a introdução da navegação a vapor em Portugal. Em 1821, o Conde de Palmella navegava no Tejo; no ano seguinte, o Lusitano estabelecia a ligação por vapor entre Lisboa e o Porto.

A importância da fábrica ficou registada no ‘Diário do Governo’ de 3 de Janeiro de 1822. A oficina de fundição, situada expressamente «em Belem, contígua ao Convento do Bom Sucesso», anunciava-se capaz de fundir peças de ferro e outros metais e produzia uma variedade surpreendente de objectos: prensas tipográficas, almofarizes, fogões, cabrestantes e guindastes para navios e armazéns, pesos, ferros de engomar e numerosas peças de maquinaria.

Em 1824, aparece pertencendo a Francisco António Ferreira, que em 10 de Janeiro do ano seguinte pede autorização para juntar usinas de vidro à sua «Fábrica movida por Máquinas de vapor, e Fundição de ferro, estabelecida no sítio do Bom Sucesso». A 8 de Fevereiro requere também (à Alfândega) o registo do carvão de pedra destinado ao funcionamento das suas fábricas. 

A vidraria deixou marcas extraordinárias debaixo dos edifícios. Escavações arqueológicas realizadas em 2019 e 2020 revelaram estruturas subterrâneas associadas a um grande forno de cone, com canais abobadados e alvenarias ainda marcadas pelas altas temperaturas. É um dos aspectos mais interessantes do sítio: por baixo de construções que gerações sucessivas utilizaram para outros fins sobreviveram os restos materiais de uma fábrica de vidro da primeira metade do século XIX.

Entretanto, o Bom Sucesso especializou-se progressivamente na moagem. Na carta topográfica de Filipe Folque (1857), o complexo aparece já extensamente edificado. Em 1884, a Fábrica de Moagem do Bom Sucesso era descrita no registo da contribuição predial como uma propriedade junto ao convento, «com frente para o Tejo». Quatro anos depois, em 1888, foi ampliada para o lado do rio e recebeu mais um piso. 

Em 1890 empregava 42 homens, possuía potência de 60 cavalos e produzia para todo o mercado português. Trabalhava com máquinas alimentadas por dois geradores tubulares do sistema Nayer & C.ª. Entre os proprietários oitocentistas que passaram pela fábrica contam-se António Julião da Costa, João Pedro Carvalho da Costa e a firma Reis & Ramires.

No final do século encontramos José António dos Reis à frente da moagem. A imprensa anunciava a “Fabrica do Bom Successo — Moagem de trigo a vapor, dotada de moagem por cilindros e dos aperfeiçoamentos modernos”. Vendia farinhas, cabecinha, sêmeas e outros produtos da moagem. O escritório comercial era na Rua da Alfândega, 108, 1.º.

Há um projecto de 1900 para a construção de novo edifício. Em 1904 foi ampliada a chaminé, e em 1909 José António dos Reis mandou construir três novos armazéns. Parte dessa arquitectura industrial sobrevive, incorporada nos edifícios da actual Avenida da Índia.

A partir de 1907, a propriedade começou a ser sucessivamente adquirida pela Companhia Industrial de Portugal e Colónias, uma das grandes empresas portuguesas do sector moageiro. Durante a década de 1920, o velho Bom Sucesso aparece já integrado no seu vasto património. Mas a concentração industrial começava a tornar dispensável aquela fábrica centenária. A Companhia possuía instalações maiores noutras zonas de Lisboa e foi transferindo a produção para oriente. No relatório de contas referente a 1934 dizia-se já que as fábricas de moagem da Estrela e do Bom Sucesso tinham sido incorporadas nas do Beato e de Xabregas.

O fim da moagem não significou imediatamente o desaparecimento dos edifícios. A Companhia Industrial de Portugal e Colónias ainda aparece em 1940 em documentação municipal relativa aos números 7, 9 e 11 da Rua da Praia do Bom Sucesso. Mas a grande transformação urbanística provocada pela Exposição do Mundo Português e, depois, a abertura e regularização da Avenida da Índia alterariam definitivamente aquela frente ribeirinha.

Quando os arqueólogos voltaram ao lugar, em 2019-2020, encontraram uma espécie de cidade industrial enterrada. Quinze sondagens deram lugar à escavação de cerca de 2500 metros quadrados. Sob os pavimentos permaneciam fundações, canais, fornos, condutas, paredes e sucessivas reconstruções correspondentes a diferentes tecnologias e épocas.

E apareceu algo ainda mais antigo do que alguns dos edifícios fabris: grandes estruturas de pedra acompanhando a antiga margem. Os paredões da frente flúvio-marítima poderiam ter funcionado como ancoradouro ou varadouro para embarcações que abasteciam as fábricas. Uma delas chegava quase aos três metros de altura. 

É talvez a melhor imagem para compreender o Bom Sucesso de então. Antes da Avenida da Índia, antes dos aterros e antes do Centro Cultural de Belém, a fábrica estava verdadeiramente à beira do Tejo. O carvão, as matérias-primas e as mercadorias podiam chegar de barco. Ali começou a trabalhar uma máquina a vapor quando o vapor ainda era notícia; ali se fundiu ferro, se fabricou vidro, se descascou arroz e se moeu trigo durante mais de cem anos. E alguns dos discretos edifícios que hoje sobrevivem junto à Avenida da Índia são os últimos restos à superfície de uma história industrial começada em 1819.



Panorama do Bom Sucesso em 1939,
com o edifício da fábrica de moagem
à esquerda (fotografia de Eduardo Portugal)


Rua da Praia do Bom Sucesso
(fotografias de Eduardo Portugal, 1939)







quinta-feira

QUANDO LISBOA IA A BELAS

Agosto era o mês em que Lisboa inteira parecia pôr-se a caminho de Belas (Bellas). Os lisboetas abandonavam por um dia os ofícios, as lojas, as oficinas e as casas. Carregavam cestos, garrafões, crianças e partiam para a romaria. Era o Senhor da Serra, celebrado na grande Quinta do Marquês ou Paço dos Marqueses de Belas. 


Fazia-se o caminho a pé, em carroças ou charabãs. No final do século XIX, a maioria seguia já de comboio até Queluz, e daí continuava de carruagem. Esta enorme quinta é muito anterior à romaria. Documentação do início do século XIV diz que esteve ligada à família de Diogo Lopes Pacheco (um dos fidalgos envolvidos na morte de D. Inês de Castro). Passou depois para posse da Coroa e por sucessivas famílias, até ficar associada aos futuros marqueses. Ao longo de séculos, o velho paço foi transformado em propriedade de recreio com jardins, mata, alamedas, fontes, tanques, pomares e construções religiosas. A Capela do Senhor da Serra e a sua Via-Sacra são de 1740. 


Em 1795, Joaquim José de Barros Laborão ergueu um grande obelisco comemorativo da estadia dos príncipes D. João e D. Carlota Joaquina. Ainda lá está,  agora por baixo do viaduto da CREL. É o mesmo monumento em torno do qual, mais de cem anos depois, vários fotógrafos registaram romeiros a merendar. Em 1799, Domingos Caldas Barbosa, na ‘Descripção da Grandiosa Quinta dos Senhores de Bellas’, descreve já uma propriedade acessível a todos os visitantes. A grande peregrinação  popular celebrizou-se após as epidemias da década de 1850, Já era considerada tradicional em 1896. Em Agosto, toda a imprensa lisboeta anunciava: «Ha hoje romaria para Atalaya e Senhor da Serra em Bellas», acrescentando que mais de oitenta empregados e fregueses da Sapataria Lisbonense, da Rua Augusta, seguiam para a festa. Dois anos depois, a 10 de Setembro de 1898, ‘O Occidente’ chama ao Senhor da Serra “a romaria mais notável da região”, com bailes, chinquilho, concursos e barracas de comes-e-bebes. 


O jornal ‘Brasil-Portugal’ (1899) entra verdadeiramente na festa. Escrito durante a crise da peste bubónica do Porto, declarada nesse Verão e combatida pelas autoridades sanitárias dirigidas por Ricardo Jorge, o texto conta que, apesar de o círio ter nascido por ocasião da outra epidemia, a festa já se celebrava muito antes. Em 1899, «paes, filhos, mães, avós, amantes, netas, familias inteiras, tribus completas» tomam o caminho-de-ferro, «que em meia hora os põe em Queluz».


Levam vinho e merenda monumental: carneiro, leitão, cabrito, arroz, fruta. À sombra de árvores seculares, nas encostas da quinta, comem, bebem, cantam e dançam ao som dos harmónios e das gaitas de foles. O cronista resume: para que haviam de pensar naquele dia nas suas lojas e oficinas? «A verdadeira officina, a verdadeira loja, a verdadeira fabrica, é esta. Aqui respira-se, come-se, bebe-se, dança-se, ama-se, goza-se.»


Depois da merenda, começa a subida. A capela fica bem acima do local das festas, alcançada por um caminho íngreme. É, escreve o jornalista, «tão santa como pequenina e tão pequenina que até parece impossível caber lá um Senhor de tanto poder». Atribuem-se-lhe milagres: dar vista aos cegos, fazer andar os coxos e conseguir casar todos os namorados. Dentro da capela reza-se, deixam-se esmolas e compram-se medalhas e pagelas que muitos colocam na aba do chapéu, ao modo oitocentista.


Há na quinta uma rocha ainda mais antiga que a capela: chamam-lhe Pedra Alta e é monumento megalítico. O ritual manda trepá-lo e escorregar: é um costume relacionado com ritos de fertilidade. No século XXI, a pedra ainda está polida por tantas descidas. João de Barros aventou a hipótese de ali ter sido sepultado Viriato.


Voltemos a 1899. Terminadas as orações, a multidão desce novamente para Belas. «A pé, em jericos, em char-à-bancs, em carroças», rindo e cantando. No largo recomeçam os bailes, os jogos, as comidas e o vinho. A reportagem termina como comédia. Uma cigana a dançar torna-se «rainha da romaria», recebe galanteios de todos os lados e acaba por provocar ciúmes, insultos e enorme zaragata entre os admiradores.


Joshua Benoliel fotografou a romaria para a ‘Illustração Portugueza’ (2 de Setembro de 1907). Vemos a Pedra Alta cheia de homens, mulheres e crianças; romeiros, carroças e grupos espalhados. Mais uma vez, cestos abertos, garrafões no chão e famílias debaixo das árvores mostram a velha quinta aristocrática entregue, pelo menos por um dia, a todo o povo de Lisboa. Assim foi todos os anos, em Agosto, até 1940. 


Marina Tavares Dias

















sexta-feira

CHAPÉUS HÁ MUITOS

 «Chapéus há muitos, seu palerma!» A frase de Vasco Santana atravessou gerações e continua a ser repetida muito depois de os chapéus terem desaparecido do quotidiano da maioria dos lisboetas. Durante séculos, claro, Portugal foi um país de chapéus. Distinguiam classes sociais, profissões e gerações. 

O lisboeta ‘chapéu à Patuleia’, hoje quase esquecido, sobrevive na velha canção do boleeiro Timpanas, transformado em personagem do filme ‘A Severa’ (Leitão de Barros, 1931) — que fala do «Pinóia na boleia, de chapéu à Patuleia». Era o chapéu típico dos boleeiros das antigas seges lisboetas, associado à arraia-miúda, à «patuleia», armado em fino.

Se o chapéu à Patuleia pertence à Lisboa popular, o tricórnio transporta-nos para o século XVIII. Com as suas três pontas características, foi usado por militares, magistrados, comerciantes e fidalgos (reinado de D. João V e a época pombalina). Júlio Dantas recordava uma história lisboeta ligada a este chapéu. Durante escavações no Quartel do Carmo, foi descoberta uma dependência entaipada onde jaziam dois esqueletos. Junto ao homem encontrava-se um tricórnio. Envergava ainda restos de uma casaca roxa; a mulher conservava véu sobre o crânio e um único sapato de fivela. Teriam ficado ali presos durante mais de cem anos.  O tricórnio foi guardado durante décadas, sob uma redoma, no quartel. Dantas observou que ninguém era enterrado de chapéu, muito menos um casal o teria sido daquela forma. Ficou por resolver o mistério daqueles dois desconhecidos, esquecidos atrás de uma parede.

No final do século XVIII, o tricórnio deu lugar ao bicórnio, o célebre «chapéu de dois bicos». Foi o chapéu dos altos funcionários, dos conselheiros, dos magistrados e dos oficiais do liberalismo oitocentista. A sua memória chegou até aos nossos dias por caminhos inesperados. Muitas crianças portuguesas cantaram durante décadas «O meu chapéu tem dois bicos» (celebrizada por João Maria Tudella), sem suspeitarem que estavam a evocar uma moda que era comum nas ruas da cidade do início de Oitocentos. Tal como o chapéu à Patuleia ou o tricórnio do Quartel do Carmo, o bicórnio sobreviveu na memória colectiva.

Em época sem chapéus cerimoniosos, restam os bicórnios e os tricórnios das gravuras antigas, das canções e filmes de época; restam livros de memórias e até expressões populares. O tricórnio lembra a Lisboa pombalina; o bicórnio evoca o início do século XIX; o chapéu à Patuleia faz regressar os boleeiros das seges. Na tela ou no écrã, Vasco Santana continua a lembrar-nos que o chapéu faz parte da memória colectiva da cidade. Chapéus há muitos. Todos com uma história.



'Costumes Portuguezes' por George Landmann
(gravura de Daniel Lerch, publicada em Londres, 1818-1820)


Archeiro da Guarda Real. 
Aguarela de Alfredo Roque Gameiro, 
publicada no Álbum de Costumes Portugueses (1888)

Três tipos populares lisboetas à porta do café. 
Desenho de José António Severini, século XIX. 
A gravura mostra a diversidade dos chapéus 
usados na Lisboa oitocentista

O actor Silvestre Alegrim no papel de Timpanas, 
famoso boleeiro de seges da Lisboa oitocentista, 
com o seu 'chapéu à Patuleia'
('A Severa', de Leitão de Barros, 1931)








VAMOS AO BAETA

A Ourivesaria Baeta da Rua do Ouro foi uma das mais conhecidas casas da Baixa de Lisboa. As suas origens remontam à antiga Joalharia Pontes, uma das mais antigas e notáveis do género na capital, que executou diversos trabalhos para a Casa Real. Segundo testemunhos da época, a tradição do estabelecimento recuava ainda mais longe, sucedendo a uma outra ourivesaria pertencente a um comerciante de apelido Seixas. Um dos proprietários da Joalharia Pontes, Joaquim Luís Pontes, era não só dono do estabelecimento como também do prédio onde este se encontrava instalado.

Em 1886, entrou para a firma João Martins Ferreira Baeta, cujo apelido acabaria por identificar o estabelecimento. Após a sua morte, em 1908, a casa passou para o filho, Alberto Seabra Baeta, nascido em 1893, que contava então apenas dezassete anos, mas já possuía sólida experiência de oficina. Tornou-se gerente em 1918 e único proprietário em 1922, conduzindo a empresa durante mais de meio século nos números 55 a 67 da Rua do Ouro. Sob a sua direcção, a firma alcançou grande prestígio, sendo Alberto Seabra Baeta agraciado com a Comenda do Mérito Industrial, além de exercer funções como director do Grémio dos Ourives e presidente da Associação de Socorros Mútuos dos Ourives de Prata. O seu filho, Carlos Alberto Borba Baeta, colaborou igualmente na empresa.

Remodelada, a joalharia reabriu ao público a 18 de Janeiro de 1939 com fachada e lettering feitos pelo escultor João da Silva (os mesmos que se reconhecem nas fotografias da década de 1940). Novas obras tiveram lugar em Outubro de 1970, mas a histórica casa acabaria por encerrar definitivamente a 31 de Janeiro de 1979. A frontaria da loja esteve anos ao abandono, até ser transformada para instalação de mais um banco.

O apelido Baeta encontra-se documentado em Portugal pelo menos desde o século XVII, através da família de Domingos Simões Baeta, de Álvares, no concelho de Góis. Curiosamente, o nome sobrevive também na linguagem popular lisboeta através da expressão «ir ao baeta», usada durante gerações para significar uma ida ao barbeiro ou ao cabeleireiro. Provavelmente, a família era já um nome de referência na Baixa.


Baeta em 1939. À porta, 
Alberto Seabra Baeta


Baeta em 1947. À porta, 
o Sr. Machado e o Sr. Arnaldo

Baeta com a fachada nova,
fotografado nos
anuários comerciais




OS PINTORES DOS CINEMAS DE LISBOA

Os grandes cartazes pintados à mão começaram a transformar as fachadas dos cinemas de Lisboa quando surgiram as grandes salas construídas nas décadas de 1930, 40 e 50. O Éden, o Condes, o Monumental, o São Jorge, o Alvalade, o Império ou o Restelo não anunciavam apenas os filmes: convertiam toda a fachada num espectáculo. Retratos gigantes das vedetas, títulos, cenas de acção e composições concebidas para serem vistas à distância ocupavam paredes inteiras e mudavam ao ritmo das estreias. Os primeiros artistas desta tradição continuam, em grande parte, por identificar. Os nomes que hoje recupero pertencem sobretudo à última geração do ofício, activa entre o fim dos anos 50 e o princípio da década de 1990.

O trabalho de Adriano Rodrigues (Roiz) está documentado entre 1957 e 1988. Pintou para o Condes, o Alvalade e o Chiado Terrasse. Os seus álbuns, entregues à Cinemateca em 2005, conservam centenas de fotografias de cartazes e do próprio artista a trabalhar.

Luís Furtado, nascido em Loulé em 1941 e falecido em 2021, chegou a Lisboa com treze anos e entrou num atelier de cartazes como ajudante. Pintou para o Condes, o Monumental, o São Jorge e o Alvalade. Recordava, entre outros, os cartazes de 'Camelot', 'O Vale do Arco-Íris', 'Jesus de Nazaré' e 'Willow'. 

As telas podiam atingir onze metros. Preparavam-se com farinha e pintavam-se com tinta de água. Terminada exibição, eram lavadas e reutilizadas. Em 1991, 'O Jornal' ainda cita vários profissionais da especialidade. No ano seguinte, o 'Público' apresentava-o já como «o último dos grandes pintores de cartazes».

O artigo de 28 de Junho de 1991 permite recuperar dois nomes quase esquecidos: João Teodoro e Carlos Dias. Uma fotografia da execução dos cartazes da fachada do Éden, em 1982, identifica ainda José Luís Seixas, acompanhado por Carlos Dias, Vicente Rita e Carlos Rodrigues. Outro texto documenta trabalhos no Cinema Castil, em Outubro de 1981.

Luís Furtado pertenceu também ao mundo da cenografia. Trabalhou para o Teatro Nacional de São Carlos, para o Teatro Maria Vitória, na televisão e em concursos como 'Jogos sem Fronteiras'. 

Esta arte começou antes destes homens. Não foram os fundadores, mas os últimos herdeiros de uma tradição nascida com os grandes palácios cinematográficos. Quando as salas fecharam, foram divididas ou substituíram a pintura por impressões fotográficas e processos informáticos, desapareceram também os ateliers e as enormes telas. 

Quase nada sobreviveu, porque os panos eram lavados e voltavam a servir. Restaram as fotografias das fachadas — e alguns nomes que agora tento fazer a sair do esquecimento.


Marina Tavares Dias



Alameda D. Afonso Henriques
 vista do cartaz de Cinema Império 
(Fotografia de Mestre Horácio Novaes, 1954)

A 'subida' do cartaz do Monumental 
na década de 1970

O Tivoli nos anos 50

O Condes em 1992

Roiz ao trabalho

Luís Furtado,
último dos grandes
artistas dos
cartazes lisboetas 




















OLD ENGLAND

Desde 1903 na esquina da Rua Augusta com a Rua de São Nicolau, o Old England tornou-se o primeiro grande ponto de referência da moda pronto-a-vestir de Lisboa.

Inicialmente ocupando apenas a loja e três andares do edifício, passou em 1908 para a firma Sarmento & C.ª, dirigida por Praxedes Sarmento Barata, comerciante que transformou o estabelecimento numa referência nacional da alfaiataria e confeção. O crescimento foi rápido: em 1914 foram acrescentados mais dois andares, mais tarde anexou-se o prédio contíguo, e a casa passou a dispor de elevador para os clientes, sinal de modernidade pouco comum no comércio lisboeta da época. 

Na década de 40 ocupava praticamente todo o edifício, distribuido pelas secções de camisaria e chapelaria, gabinetes de prova, oficinas e escritórios. A sua clientela estendia-se muito para além de Lisboa, graças ao sistema de encomendas para a província e à reputação dos seus fatos feitos por medida.

Durante quase todo o século XX, o Old England foi um dos grandes símbolos comerciais da Baixa. A publicidade apresentava-o como «rei da elegância», destacando qualidade dos tecidos, rigor do corte e competência dos seus mestres alfaiates. A esquina da Rua Augusta, com o lettering ao alto de toda a fachada, tornou-se imagem familiar para gerações de lisboetas, aparecendo em numerosas fotografias. 

Após décadas de prosperidade, a loja acompanhou o declínio do comércio tradicional. Encerrou em 1998, mas o edifício permanece na memória como grande centro comercial da Lisboa elegante. A esquina da Rua Augusta com a Rua de São Nicolau era ponto privilegiado de visibilidade, e as duas fachadas do gaveto funcionavam como um enorme painel publicitário. A própria arquitectura desaparecia quase por completo, sob os inúmeros títulos pintados.


Praxedes Sarmento Barata 

Publicidade da casa em
jornais de 1909


Publicidade da casa
em anuários e revistas 
(1937-1950)



terça-feira

COMO SE CHAMA A RUA?

Durante séculos, a designação das ruas de Lisboa foi essencialmente oral, de uso quotidiano e memória colectiva. 

A mudança para toponímia oficial surge no contexto da reconstrução após o Terramoto de 1755: ao longo da década de 1760, com a reorganização pombalina da Baixa, começam a ser fixados nomes oficiais e a marcar-se os arruamentos. As primeiras “placas” não eram peças aplicadas, mas inscrições gravadas directamente na pedra dos cunhais. 

Esse modelo manteve-se durante décadas, e ainda hoje podem ver-se exemplos na Baixa. Já no século XIX, com a necessidade de ordenar serviços de correio e polícia, generaliza-se a identificação sistemática das ruas e dos números de porta. Surgem soluções mais económicas, como inscrições pintadas (letras brancas sobre fundo escuro) nas fachadas, muito características de bairros antigos como Alfama e Castelo.

Ao longo do século XX, a diversidade aumenta, tornando mais fácil datar modelos. Placas de azulejo branco com filete e letras azuis difundem-se sobretudo a partir de 1910 (com maior expansão entre as décadas de 1930 e 40. Nos anos seguintes, começa o uso das placas de cantaria em lioz, gravadas e pintadas. São ainda o modelo mais comum, especialmente nas zonas de expansão urbana posterior a 1950. Nas décadas finais do século XX surgem variantes decorativas (placas com bordadura heráldica) e passa a ser frequente incluir legendas biográficas nos topónimos. 

A evolução das placas toponímicas de Lisboa não foi linear. Hoje em dia, restam sobreviventes de quase todas as épocas. Conhecer-lhes as diferenças permite um curioso passeio pela história da cidade.










CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...