sábado

A LONTRA

Nos anos 80, A Lontra de S. Bento era o centro da boémia nocturna de Lisboa. Tanto para os jovens que não queriam pagar demasiado pelas bebidas como para os jornalistas que, ao contrário do que acontecia no Bairro Alto, podiam manter ali o anonimato. O Frágil, ou até a tasca em frente dele (o célebre Arroz Doce do ‘pontapé na ….’) eram visíveis, expostos e cheios de gente conhecida; a Lontra permitia desaparecer. Funcionava como prolongamento informal das redacções, depois do fecho e depois do Snob. Grupos do ‘Diário Popular’, do ‘Expresso’⁠, do ‘Diário de Lisboa’ caíam ali já perto das quatro da manhã, quando a cidade ‘oficial’ acabava e começava a Lisboa subterrânea.

O espaço era exíguo para tanta animação. Dez vezes (pelo menos) por noite cantava-se, aos gritos, 'Você é luz, é raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô'. Bastavam os primeiros acordes para a casa inteira berrar o refrão em coro. Curioso como uma canção ultra-romântica e kitsch acabava transformada numa espécie de hino etílico da madrugada lisboeta. Havia pouca preocupação com o ‘bom gosto’, no sentido snob das modas do Bairro Alto.

Entre gente com camisas indianas e gente cheia de acessórios dourados, pontificavam figuras lendárias da noite lisboeta então já pretérita, como o Camoça ou o Cabeça de Vaca. Fechava só quando rompia o dia. Ia-se dali directamente para o Cacau da Ribeira.



A Lontra em 1985
(fotografia de 
Marina Tavares Dias)



2 comentários:

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