Há evidente paralelismo entre Alexandre Herculano e Victor Hugo, na forma pioneira como ambos olharam para a destruição do património histórico. Em França, Victor Hugo denunciou cedo o desaparecimento de igrejas, claustros e edifícios medievais no célebre texto “Guerre aux Démolisseurs!”, publicado em 1825 e retomado em 1832, onde acusa a especulação, o utilitarismo e o poder político de arrasarem a memória das cidades. Poucos anos depois, transformaria também 'Notre-Dame de Paris' numa espécie de grande acto de defesa da arquitectura gótica, usando o romance para devolver vida e emoção a um monumento ameaçado. Em Portugal, Herculano assume um gesto muito semelhante: a literatura como forma de resistência perante a ruína e o esquecimento.
No prólogo de 'O Monge de Cister', Herculano descreve a subida a Alfama e ao Castelo em demanda inútil de vestígios do antigo convento dos Cónegos do Evangelista (destruído pelas transformações pós-terramoto de 1755). A passagem é notável porque mistura observação urbana, melancolia histórica e crítica política: o escritor “não pode tirar os monumentos das garras dos políticos; mas tem liberdade plena de reconstruir e povoar aqueles que já não existem.” A frase aproxima-o directamente de Victor Hugo. Também Herculano entende que a ruína de um edifício representa perda da memória colectiva. E que o escritor pode, através da palavra, restituir simbolicamente aquilo que a cidade perdeu.

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