O célebre Actor Taborda (Francisco António da Silva Taborda) nasceu em Lisboa a 8 de Janeiro de 1824. Foi dos maiores cómicos portugueses, com longuíssima carreira e enorme popularidade, ao ponto de se dizer, do seu modo de entrar em cena e pôr logo a plateia a rir, que certas rábulas eram “género Taborda”.
Estreou-se muito jovem, em 1846 (no Teatro da Rua dos Condes). A vocação cómica revelou-se-lhe desde logo: dicção viva, gesto rápido e uma capacidade extraordinária de observar tipos urbanos e de os reproduzir em cena com precisão quase caricatural. Não era apenas actor de texto: era um criador de tipos.
Consolidou-se no reportório de comédia e de revista, passando para o Theatro do Gymnasio, onde brilhou em farsas cujos números Lisboa inteira conhecia e imitava. A sua especialidade era a criação de tipos populares lisboetas: o caixeiro, o criado esperto, o pequeno burguês pretensioso, o ‘andador de almas’, o vendedor de rua ou o rufia manhoso dos bairros populares. Essas figuras, que frequentemente davam nome às peças, eram famosas: ‘O Caixeiro da Tenda’, ‘O Brasileiro Pancrácio’, ‘O Morgado de Fafe em Lisboa’ (adaptações e versões cénicas populares) e inúmeras outras personagens cujas deixas eram apenas pretexto para a sua brilhante capacidade de improvisação. Num dos números mais famosos, “o caixeiro”, compunha retrato vivo daquela personagem da Lisboa oitocentista: rápido a falar, cheio de tiques, humor feito de apartes e demasiada familiaridade com o cliente. Igualmente célebre, o seu caricato “brasileiro de torna-viagem”, figura comum na época em que muitas fortunas portuguesas tinham sido feitas no Brasil.
O Taborda explorava as figuras com gestos largos, sotaque marcado e um sentido agudo do ridículo. Ao longo da carreira, participou em várias ‘revistas do ano’, género que começou a afirmar-se na segunda metade do século XIX. Nelas introduzia referências às cenas famosas da vida lisboeta, às bisbilhotices políticas, às modas e aos escândalos. O público adorava-o, e consumia tudo o que com o seu nome ou imagem aparecesse: bustos, fotografias, revistas ilustradas, bonecos e até latas de bolachas.
Subiu ao palco durante mais de sessenta anos. Só cessou actividade quase no fim da vida, já surdo. Em idade avançada, era a maior instituição do teatro português.
Taborda morreu em 1909, com 85 anos, deixando memória profundamente enraizada no público e nos colegas que lhe sucederam. Permaneceu como referência de um certo teatro popular lisboeta, com o actor como centro de tudo.
Na pele das suas personagens, foi o espelho da cidade. Lisboa, durante décadas, riu-se de si mesma através dele.




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