A Photographia Rocha especializava-se em retratos de actores. O estúdio ficava na Praça da Alegria de Baixo, n.º 111, precisamente junto da entrada norte do Passeio Público. Desapareceria com o rasgar da Avenida da Liberdade, entre 1879 e 1886.
Mas este retrato triplo conta muito mais. Os lisboetas de agora não podem imaginar como o público de 1870 adorava o teatro do seu tempo. Eram sessões seguidas, todos os dias. Lotações sempre esgotadas. Aqui estão os grandes actores Queiroz, Leone, Augusto e, à direita, Brazão. O futuro «grande Senhor» da Companhia Rosas e Brazão, aqui tão jovem, não parece o mesmo Eduardo Brazão de 1900, já coroado de glória. Parecem todos muito contentes. Tentariam replicar um quadro da peça em cena? - O futuro já não ouve, em surdina, a motivação destas poses. Mas é bom saber que, num dia qualquer, algures entre 1865 e 1870, estes cavalheiros resolveram encenar-se, em conjunto, frente à lente da câmara do Sr. Rocha, numa casa demolida para se rasgar a Aveniida.
Eduardo Brazão estreia-se em Lisboa em 1867 no Teatro do Príncipe Real, passando ainda nesse ano para o Trindade, o teatro moderno e elegante fundado por Francisco Palha. Queiroz, Leone, Augusto e Brazão encaixam no universo das companhias de comédia e drama então associadas ao Trindade e ao Gymnasio, que era o grande palco da comédia lisboeta, conhecido como “a fábrica de gargalhadas”.
Há ainda um detalhe visual importante: o retrato de grupo, descontraído mas teatralizado, parece próximo do espírito de companhia do Gymnasio, que cultivava um ambiente moderno, parisiense, de ‘ensemble’, muito ligado à vida boémia lisboeta.
O mais bonito será pensar que estes homens talvez tenham saído directamente de um ensaio ou de uma récita para subir à Praça da Alegria e posar no atelier do Rocha. O percurso era curtíssimo: o Chiado teatral e o Passeio Público pertenciam praticamente ao mesmo mundo social e nocturno.
E a maioria dos teatros onde eles representavam? -- desabaram sob o camartelo, um a um. O empresário trocou de elenco, provavelmente logo na peça seguinte. E eles, os actores, foram perdendo a juventude quase espampanante aqui exibida. O público foi morrendo, até não restar alguém que os tenha visto em palco. O clamor dos aplausos passou. Outros famosos ocupam o imaginário de outras épocas. Outros que o público futuro igualmente esquecerá. Desse tempo, dessa fama, dessa glória, desse quotidiano, desse mundo – ficou esta fotografia.




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