sexta-feira

S. JORGE APRISIONADO

A antiga procissão do Corpo de Deus, quinze dias após o Domingo de Páscoa, já não existe na forma grandiosa que teve durante séculos. Foi profundamente alterada no século XIX e interrompida após a Implantação da República, regressando mais tarde sem o aparato que a tornava única. 

Era a maior cerimónia pública de Lisboa: saía da Sé, atravessava a Baixa e reunia não apenas o clero e as confrarias, mas também os ofícios, os seus estandartes e máquinas, figuras alegóricas, monstros, músicos, tropas e até o próprio rei, que acompanhava o Santíssimo sob o pálio, fazendo da procissão uma verdadeira encenação do corpo político da cidade.

No meio desse cortejo exuberante e precedidas pelos seus arautos (‘pretos de S. Jorge’), surgiam duas figuras singulares: o santo em madeira, montado a cavalo, e o santo como general e patrono militar, noutra montada, de armadura e lança em riste. Por trás da imagem heróica escondia-se realidade diferente. O ‘homem de ferro’ era real, encerrado em armadura falsa, pesada e fechada, que o isolava do mundo exterior. Literalmente aparafusado lá dentro. Durante horas, sob o calor, avançava rigidamente, incapaz de se mover, de ver claramente ou de abandonar a montada. Um S. Jorge aprisionado e a ferros, mais hirto que o boneco de pau.

As descrições dos jornais deixam perceber movimentos descompostos, gestos involuntários, rigidez que transformava o herói num corpo quase mecânico. O povo não via o santo guerreiro. Via sobretudo o esforço vindo de dentro de uma armadura transformada em prisão. Esse contraste — entre a glória simbólica e a condição penosa — dava à figura um carácter entre o solene e o grotesco.

Assim, este São Jorge da procissão lisboeta não foi imagem de devoção ou de poder. Personificava o vestígio vivo do sacrifício humano. Como que saído de tempo tão antigo como o padroeiro. Um tempo em que fé, combates e teatro se confundiam com lendas, santidade e – sobretudo – pungentes sacrifícios. Que o seu sacrifício fosse também encarado como espectáculo semi-cómico mostra até que ponto eram variadas as emoções desse dia. Um dia solene, fantástico e quase surreal para os lisboetas.



S. Jorge da procissão, 
conhecido como
'Homem de Ferro'. 
Em baixo:
As duas versões do santo,
de armadura e como
boneco de madeira






A PRIMEIRA DÉCADA DO PRIMEIRO LIVRO

Em:

«JORNAL DE LETRAS»

(1997)



A "Lisboa Desaparecida" completa a sua primeira década. Pedem-me agora que sobre ela escreva, o que se me afigura tarefa espinhosa: nunca tal fiz, ao longo de todo este tempo.
[.../...]

Naquela época, julguei fácil convencer uma editora a investir nos textos do "Popular" (alguns, entretanto, publicados também no "Expresso"), porque contavam já com o que eu julgava ser um público fiel. Ninguém embandeirou em arco, houve hesitações e recusas até ao dia em que, sentada à minha secretária na Redacção, recebi uma chamada: "Somos uma editora nova e gostamos imenso das suas páginas de Sábado". Meses depois, eu e essa "editora nova" estávamos a lançar o primeiro volume da "Lisboa Desaparecida" no Café Nicola.

Muito pouco daquilo que era o meu estilo desse tempo (aos vinte e poucos anos) permanece. Muito pouco do que foram as motivações iniciais é hoje prioritário. Desapareceu o "Diário Popular" - o seu público fiel onde estará? -, a enorme Redacção em «open-space» está vazia, o precioso arquivo talvez perdido. O Bairro Alto deixou de ser o bairro dos jornais e os diários vespertinos cumpriram o seu ciclo temporal. Agora, existe mesmo uma "Lisboa Desaparecida" onde eu vivi. [...].


Marina Tavares Dias



Marina Tavares Dias 
com Eduardo Guerra Carneiro, 
na Redacção do
DIÁRIO POPULAR, 
no ano do lançamento 
do primeiro livro 













quinta-feira

OS TÁXIS DO ROSSIO

A partir da década de 1920, o Rossio funciona como placa giratória do trânsito lisboeta. Destruído o inicial tabuleiro de mosaico ondulado, é no centro da praça que convergem carreiras de eléctricos e circuitos de distribuição. Torna-se o verdadeiro nó da mobilidade moderna: eléctricos, automóveis particulares, carrinhas de abastecimento e, sobretudo, os primeiros táxis organizados em ponto fixo. A praça deixa de ser acolhedora, e torna-se o centro nervoso do tráfego citadino.

É nesse contexto que surge a fotografia do táxi com matrícula GG-10-55, estacionado junto ao passeio, tendo por fundo um eléctrico com a tabuleta “Rossio”. A matrícula já pertence ao sistema nacional introduzido em 1 de Janeiro de 1937, composto por duas letras e dois grupos de algarismos (AA-00-00). A sequência “GG” insere-se nas combinações atribuídas à área de Lisboa, o que confirma o registo local do veículo e situa a imagem necessariamente após 1937.

O automóvel, de grelha estreita composta por múltiplas barras horizontais atravessadas por uma barra vertical central, faróis montados nos guarda-lamas e frisos laterais no capot - corresponde muito provavelmente a um Chevrolet Master (ou Master Deluxe) do ano-modelo de 1938, produzido entre finais de 1937 e 1938. Esse desenho frontal é característico da marca norte-americana nesse exacto período, distinguindo-se dos modelos de 1937, mais verticais, e dos de 1939, já com grelhas mais largas e integradas.

Assim, o carro terá sido adquirido novo em 1938 ou pouco depois, passando rapidamente ao serviço de táxi. Algo comum na Lisboa do final da década de 1930, quando veículos americanos, robustos e relativamente económicos, eram preferidos para transporte público urbano.

A fotografia deverá situar-se entre 1938 e 1941. O vestuário do motorista, sobretudo o sobretudo comprido e o boné de pala, é típico dos anos da Segunda Grande Guerra. Apesar da neutralidade portuguesa, o período marcou uma fase de intensa circulação e vigilância na capital, que se tornaria ponto de passagem internacional. O Rossio, como primeira praça de táxis da cidade, era também o primeiro contacto de muitos viajantes com Lisboa.

O conjunto revela uma cidade em transição: ainda com eléctricos dominando a paisagem, mas já com automóveis a assumir protagonismo; uma praça oitocentista convertida em plataforma de trânsito.





CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...