segunda-feira

Campo Grande, 1918

CAMPO GRANDE

Palacete neo-manuelino no número 123 da Rua Ocidental do Campo Grande, tornejando para a antiga Estrada de Malpique (zona da actual Faculdade de Farmácia). Construído em 1918, segundo instruções específicas do seu proprietário, João Maia Gomes, viria a ser demolido em 1951 (prova fotográfica para postal ilustrado de Paulo Guedes, 1918)


Em: 'Lisboa Desaparecida'

de Marina Tavares Dias









sexta-feira

A FEIRA DE SANTOS

Da mitologia das feiras fazia parte a gastronomia. Daí o calão local com que se encomendavam os pratos: bailarinas ou costeletas na grelha (as sardinhas), repolhos (os pimentos), um seixo (um pão), pendulos (os carapaus) e a viva e os vivos (a garrafa de tinto com os copos).

Maria 'Botas' confeccionava o melhor coelho assado. Um dia, os jornais começaram a fazer-lhe a vida negra, dizendo que ali havia gato. Havia. E tinham-se passado anos sem que alguém desse pela coisa. A polícia descobriu que os clientes da Botas comiam gato há tanto tempo que os bichanos (então uma autêntica praga da cidade) começavam a rarear na zona [...]


'LISBOA DESAPARECIDA' 

de Marina Tavares Dias 






terça-feira

LISBOA NO CAIS

 Marina Tavares Dias em 'Os Melhores Postais Antigos de Lisboa':

Paulo Guedes, editor deste exemplar - e, quase por certo, autor da própria fotografia - não foi o mais prolixo, entre inúmeros congéneres que inundaram de postais quiosques e tabacarias da Lisboa 1900. Mas foi o mais imaginativo. Quase sempre, por trás de cada escolha sobre postal, adivinha-se a sensibilidade do fotógrafo atento que conhecia a cidade de cor. Esta cena no cais da Ribeira Nova é o melhor exemplo disso. Pertence a uma série sobre costumes portugueses em geral, mas parece que, de algum modo, fazia parte da célebre colecção Lisboa na Rua (com 16 números conhecidos), e ficou de fora por misteriosas razões. Nenhum tema da citada colecção ilustraria, como este, tal legenda: Lisboa na rua ou no cais; o povo, os costumes, as cenas quotidianas e a sua assistência. Conhecida por «postal do burrinho", aqui está uma edição que reúne tudo: bom plano, animação, figuração de transportes (no caso, a fragata); tudo sem pose, com o seu aspecto de sempre. Acrescente-se-lhe o insólito com que a cena hoje se nos afigura - e teremos, neste burro, uma representação de Lisboa, tão digna como a imagem de qualquer varina ou galego aguadeiro.





CAFÉ CHAVE D'OURO

O Café Chave d’Ouro foi fundado no Rossio em 1915 e sucessivamente ampliado nos 20 anos seguintes. Ocupando todo o edifício – café com galeria, restaurante, salão de chá, bilhares, tabacaria e barbearia – era o maior do seu tempo. Era igualmente o preferido pelos principais comerciantes da Baixa, com tardes de música, conjuntos como a Orquestra Ligeira da Emissora Nacional, e até transmissões radiofónicas.



Café Chave d’Ouro, no Rossio. Piso térreo.

 Postal ilustrado fotográfico, c. 1931

quinta-feira

BADALEJAR

 «Dantes, dizia-se badalejar. As casas grandes tinham à porta a maçaneta de latão, devidamente centrada numa estética cercadura. A ela estava ligado, no interior, um pequeno sino dourado.

Para os dedos não deslizarem, em caso de nervosismo ou mesmo de chuva, cada puxador era lavrado em espiral, às vezes com alguma imaginação. Camilo badalejava quando ia visitar alguém; Eça badalejava. Não conheciam o irritante som já semi-electrónico das casas da segunda metade do século XX: 'tim-tom!' Anthero badalejou à porta de muitos amigos pelo reconforto de uma frase, Gomes Leal pelo de uma sopa. Fernando Pessoa badalejou à porta de Mário de Sá-Carneiro, no Largo do Carmo.


Já ninguém badaleja. Perdeu-se o verbo. Os restos destes badalos foram-se adaptando às fachadas, incorporando-se nelas, cimentados nelas ou adaptados a campaínha, já sem o característico puxador. Páro na rua sempre que vejo a maçaneta do badalo intacto, e pouso logo o olhar no degrau de entrada. Muitos passos, poucos passos? - Depende disso o desgaste. Dependiam disso as promessas do trinco da porta.»


MARINA TAVARES DIAS

Lisboa Desaparecida

(fotografia da autora)







domingo

O PAI CÂNDIDO NO ROSSIO

 Entre as imagens de costumes divulgadas na celebérrima série 'Lisboa na Rua', do fotógrafo-editor Paulo Guedes, este é o único postal de personagem identificada pelo nome. Tal bastaria para lhe conferir valor acrescentado, em qualquer selecção internacional. Apesar de todos os postais desta colecção serem igualmente procurados, o 'Pai' Cândido constitui exemplo à parte: a sua semi-pose não esconde que foi apanhado de surpresa, na azáfama quotidiana. Sob os pés, descalços e sujos, o tabuleiro ondulado do antigo Rossio. Seguindo uma genealogia de negros célebres pelas ruas alfacinhas, este «pai» dava performance gratuita, batucando a sua lata. Muitos miúdos se lhe juntavam, constituindo intermináveis orquestras de latada. Numa época em que quase não havia negros em Lisboa, o Pai Cândido provocava reacções hoje inconcebíveis: alguns, por agoiro do chocalhar das latas, evitavam o centro do Rossio; outros, enternecidos, pediam para lhe tocar na pele, porque 'dá sorte'.


Texto do livro 'Os Melhores Postais de Lisboa',

de Marina Tavares Dias, 1995.

Fotografia: MEMORABILIA/Arq.MTD.






segunda-feira

A DESAPARECIDA PRAÇA DA ALEGRIA DE BAIXO

Antes da demolição do Passeio Público (1886), existiam duas praças da Alegria. Pode ver-se a demolição das casas da Praça da Alegria de Baixo que faziam frente para a entrada norte do Passeio. Por aqui passa agora a Avenida da Liberdade.

'LISBOA DESAPARECIDA', volume I.

Fotografia original: Memorabilia/Arquivo Marina Tavares Dias.




CARTAZES NA AVENIDA ALMIRANTE REIS

Durante décadas, a mudança de programa dos grandes cinemas de Lisboa era também um espectáculo de rua. A operação fazia-se quase sempre dura...