Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

segunda-feira

O CÉLEBRE 92

 A célebre Loja 92 da Rua Nova do Almada, no Chiado, foi fundada em 6 de julho de 1876 por Albino José José Baptista. Vendia bengalas, leques, sombrinhas, guarda-chuvas e outros acessórios de moda, muitos deles exclusivos e inspirados nas novidades parisienses. Tornou-se uma referência no comércio lisboeta do final do século XIX. O número da porta — 92 — acabou por dar nome ao estabelecimento, que era conhecido simplesmente como ‘Loja 92’. No início do século XX a firma prosperou e abriu também uma sucursal na Rua do Ouro, nº 110. 

Entre os hábitos da casa estava o de oferecer brindes aos melhores clientes (final do século XIX e primeiros anos do século XX). Os pratos decorativos, com o ano inscrito e produzidos especialmente para a loja, eram oferecidos como recordação, mediante a entrega de vários ‘coupons’ de compras. São hoje peças muito procuradas pelos coleccionadores de objectos lisboetas.

O 92 ardeu no incêndio de 25 de Agosto de 1988. Ainda se instalou provisoriamente numa rua da Baixa, onde Marina Tavares Dias entrevistou os proprietários, em Dezembro desse ano. Esperavam regressar ao Chiado após as obras de reconstrução. Nunca aconteceu.





sábado

RENDEZ-VOUS DAS GALINHAS

Designação cosmopolita e sofisticada para uma venda que seria tudo menos isso. Na década de 1920, ainda podia matar-se a criação à frente do cliente. Coisa que decerto não impressionaria estes vendedores, felizes por poderem posar para o retrato.

O Mercado das Picoas, oficialmente chamado Mercado 31 de Janeiro, foi criado pela Câmara Municipal de Lisboa em 1905, quando a zona das Avenidas Novas começava a urbanizar-se rapidamente. Destinava-se a abastecer os novos bairros que cresciam em torno das Picoas, do Saldanha e de São Sebastião da Pedreira. Ao contrário de outros mercados municipais construídos em pavilhão, o das Picoas funcionou durante muito tempo de forma simples, com bancas e pequenas lojas voltadas para a rua, formando um mercado muito vivo e popular. Ali vendiam-se os produtos essenciais da alimentação quotidiana — hortaliça, fruta, peixe, carne, ovos — e era frequente encontrar aves vivas, como galinhas ou coelhos, que eram preparadas no próprio local. 

Em 1929, participou no concurso 'Rainha dos Mercados de Lisboa', organizado pelo Diário de Lisboa, iniciativa que envolveu vendedeiras de vários mercados da cidade. O prémio com que foi distinguido esteve inscrito numa placa até ao fim. Durante todo o século XX, o 31 de Janeiro manteve-se como importante ponto de abastecimento da zona, muito frequentado pelos moradores. Continuou em funcionamento até ao início da década de 1990. Foi o penúltimo mercado tradicional de Lisboa a encerrar. O último seria o de Santa Clara.






quarta-feira

O CINEMA DA GRAÇA

 Agapito Serra Fernandes (1863-1939), natural da Galiza e radicado em Lisboa desde os onze anos, dirigia a fábrica de biscoitos Confiança, fornecedora do exército. Mais tarde foi dono de lojas: uma tabacaria no Largo do Regedor e o restaurante Estrela d’Ouro na Rua da Prata. 


Em 1908 iniciou na Graça a construção do bairro operário Estrela d’Ouro, destinado a trabalhadores das suas empresas. Em 1928, a Empresa do Royal Cine Lda., também sua propriedade, pediu à Câmara de Lisboa autorização para erguer ali uma grande sala de animatógrafo, num edifício especialmente para tal concebido (projecto do arquitecto Norte Júnior). A fachada pretendia-se monumental, no contexto da estreia Rua da Graça, ostentando arco de entrada, colunas estriadas e vitrais coloridos . No interior, a sala tinha cerca de 900 lugares, orquestra, balcão, camarotes laterais, bar e salão de baile.


O Royal Cine inaugurou a 26 de Dezembro de 1929 com o filme ‘O Cadáver Vivo’, de Fedor Ozep. Além da programação, oferecia ‘matinées’ dançantes às quartas-feiras. Poucos meses depois, a 5 de Abril de 1930, ocorreu ali a primeira apresentação do cinema sonoro em Portugal, com ‘Sombras Brancas nos Mares do Sul’ (‘White Shadows of the South Seas', dirigido por WS Van Dyke), na presença do Presidente da República. Embora dificilmente se possa considerar ‘sonoro’, o filme trazia efeitos sonoros e música na própria película, coisa até então nunca ouvida em Lisboa. Outra novidade: é o primeiro filme em que está gravado o rugido do leão da Metro (MGM).


Agapito Serra morreu em 1939. O Royal Cine, a que os moradores do bairro chamavam ‘o rolhas’, manteve-se em actividade até 1983. Subsiste o edifício, agora albergando um supermercado. Fachada e átrio ficaram intactos, assim como vitrais, relógio, lambris e escadaria. Foi tudo restaurado em 2025, mantendo a memória daquela que era a sala de cinema mais importante do bairro da Graça.













segunda-feira

OS TÁXIS DO ROSSIO

A partir da década de 1920, o Rossio funciona como placa giratória do trânsito lisboeta. Destruído o inicial tabuleiro de mosaico ondulado, é no centro da praça que convergem carreiras de eléctricos e circuitos de distribuição. Torna-se o verdadeiro nó da mobilidade moderna: eléctricos, automóveis particulares, carrinhas de abastecimento e, sobretudo, os primeiros táxis organizados em ponto fixo. A praça deixa de ser acolhedora, e torna-se o centro nervoso do tráfego citadino.

É nesse contexto que surge a fotografia do táxi com matrícula GG-10-55, estacionado junto ao passeio, tendo por fundo um eléctrico com a tabuleta “Rossio”. A matrícula já pertence ao sistema nacional introduzido em 1 de Janeiro de 1937, composto por duas letras e dois grupos de algarismos (AA-00-00). A sequência “GG” insere-se nas combinações atribuídas à área de Lisboa, o que confirma o registo local do veículo e situa a imagem necessariamente após 1937.

O automóvel, de grelha estreita composta por múltiplas barras horizontais atravessadas por uma barra vertical central, faróis montados nos guarda-lamas e frisos laterais no capot - corresponde muito provavelmente a um Chevrolet Master (ou Master Deluxe) do ano-modelo de 1938, produzido entre finais de 1937 e 1938. Esse desenho frontal é característico da marca norte-americana nesse exacto período, distinguindo-se dos modelos de 1937, mais verticais, e dos de 1939, já com grelhas mais largas e integradas.

Assim, o carro terá sido adquirido novo em 1938 ou pouco depois, passando rapidamente ao serviço de táxi. Algo comum na Lisboa do final da década de 1930, quando veículos americanos, robustos e relativamente económicos, eram preferidos para transporte público urbano.

A fotografia deverá situar-se entre 1938 e 1941. O vestuário do motorista, sobretudo o sobretudo comprido e o boné de pala, é típico dos anos da Segunda Grande Guerra. Apesar da neutralidade portuguesa, o período marcou uma fase de intensa circulação e vigilância na capital, que se tornaria ponto de passagem internacional. O Rossio, como primeira praça de táxis da cidade, era também o primeiro contacto de muitos viajantes com Lisboa.

O conjunto revela uma cidade em transição: ainda com eléctricos dominando a paisagem, mas já com automóveis a assumir protagonismo; uma praça oitocentista convertida em plataforma de trânsito.





quinta-feira

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

A minha relação com António Lobo Antunes começou mal. O primeiro livro que li foi o primeiro que ele escreveu. Eu não teria mais de 18 anos. Pensei: ‘Que grande dor de corno, escrever isto.’ Arrumei o volume da Vega na prateleira e não comprei o segundo. 

Fast-forward seis anos. Conheci o Zé quando ele trazia um livro do António debaixo do braço. O Acácio Barradas atirou, com um sorriso: ‘Aqui tens o descobridor de talentos.’ O Zé fizera a primeira entrevista ao António, e tinham ficado muito amigos. Perguntei-lhe pelo livro que levava. Estendeu a mão e disse: ‘Lê tu, e logo me dizes o que pensas.’ Nessa tarde, na Pastelaria Orion, fiz a segunda imersão na prosa do António. Maravilhada, fui pedir emprestados todos os outros livros. 

Conheci o António nesse ano, depois de mais uma entrevista para o ‘DP’. Achei-o muito diferente do escritor que tinha lá dentro. Parecia estar sempre um pouco alheado da conversa, ponderado em cada resposta, vagamente enfastiado. Tínhamos ido comprar cromos, eu e o Zé. Perante o meu entusiasmo ao abrir cada pacotinho, o António começou a falar dos futebolistas que faziam as antigas colecções de ‘cromos da bola’, compradas com os rebuçados das mercearias. De repente, acendeu-se aquele belo sorriso. Estava encontrado o âmago dos seus livros, em que tudo era intenso e fascinante só por ser humano.

Fotografei-os juntos e emoldurei o retrato ao lado de outro, mais antigo, que o Zé tinha com ele. Mais tarde, juntei na mesma moldura mais uma fotografia: com o neto, a apontar para a câmara. Tirando as entrevistas, nunca falámos da obra dele. Nunca lhe pedi livros ou autógrafos, nunca lhe dei os parabéns por nada. Fiquei surpreendida por não ter sido o primeiro escritor português a ganhar o Nobel. Nunca lho disse. 

Quando o Zé morreu, o António publicou uma crónica em que repreendia a Deus. Que tivesse levado outro cuja falta não se fizesse sentir tanto. Que tivesse levado quem lhe faria menos falta a ele. No meio de tantos elogios fúnebres, foi o mais sincero. Dava o devido valor a quem o estimava.

Voltei a falar com ele, anualmente, nos meses da Feira do Livro. Uma tarde, encontrei-o ‘pastoreado’ na sessão de autógrafos pelo antigo distribuidor dos meus próprios livros. ‘És amigo deste gajo?’ E ele, com o sorriso encavacado: ‘Ninguém é perfeito.’ Adoeci e deixei de ir à Feira, às habituais sessões de exposição circense. Quando cessaram as crónicas e se interrompeu aquela cadência certa com que os livros novos apareciam nas livrarias, tentei saber como estaria. Que já não podia escrever, que não se dava com ninguém. Não tentei saber mais. Reservado como era, decerto teria preferido que eu não soubesse.

Há coisa de dois anos, enquanto revolvia pela enésima vez as estantes, em busca de um livro que não encontrei, caíram-me aos pés várias folhas com os poemas que nunca publicou, e cujo original tipo-escrito tinha ficado com o Zé. Comovi-me um bocado nesse dia, e fui para o FB publicar fotografias dele. Mas não o tenho retratado no cenário em que mais vezes o encontrei: um armazém vazio e asséptico, vagamente pertencente a um primo, ali ao Conde de Redondo. 

O António escrevia sem precisar de nada à sua volta. Metia-me espécie, e ele ria. Talvez por isso, quando comprou uma casa nova fez questão de mostrar que a decorara. O Zé sabia mais ou menos o que iria encontar. Com um desvelo que raramente dedicava à decoração das casas, o António tinha colado na parede um cromo do Benfica.


Marina Tavares Dias 












quarta-feira

A BAIXA QUE CONHECI

Era muito pequena. Talvez quatro anos. O meu pai, agrónomo, trabalhava no Ministério da Agricultura, no Terreiro do Paço. Várias vezes por semana íamos esperá-lo à porta do Grandella, na Rua do Ouro. Quando ele chegava, passeávamos pela Baixa.

A cidade era diferente da que viria mais tarde. Havia muito menos dependências bancárias: essa invasão acentuou-se sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Naquele tempo, a nossa Baixa era território de comércio variado e sedutor. Passeava-se só para ‘ver as montras’.
Espectáculo inesgotável. Nas ourivesarias, anéis e medalhas rodavam lentamente, em expositores giratórios que pareciam pequenos carrosséis de ouro. Nas lojas de brinquedos, havia comboios eléctricos montados em circuitos completos, com locomotivas, carruagens que deslizavam continuamente pelos carris, montes e vales encavalitados no cenário.
Chorava para que parássemos diante de um ourives da Rua do Ouro, do lado esquerdo de quem desce. Na montra havia um pequeno mecanismo. Sobre ele estava um casalinho de bonecos. À medida que o expositor rodava, os dois afastavam-se e voltavam a aproximar-se. Tinham um pequeno íman escondido na cabeça e, quando ficavam suficientemente perto, davam um beijinho. Eu ficava ali imenso tempo, fascinada, a olhar para aquele movimento lento e repetido. Os meus pais, naturalmente, começavam a perder a paciência.
Nas relojoarias, repetiam-se os relógios de cuco suíços. Dezenas deles nas montras. Relógios de madeira escura, com telhados inclinados e pequenas portinholas. De tempos a tempos uma delas abria-se e aparecia o pássaro mecânico, que cantava o seu cuco metálico antes de desaparecer novamente. Alguns modelos tinham uma figura pendurada em baixo: a camponesa suíça num baloiço, que subia e descia na cadência dos segundos.
Mas aquilo que mais me fascinava eram as montras das companhias de navegação. Expostos em vitrinas profundas, todos os navios da frota, em reproduções minuciosas: paquetes, cargueiros, botes. Havia chaminés, escadas, luzes, e até pequenas figuras humanas no convés, minúsculas como formigas.
Para mim, a Baixa era o mundo inteiro. Para onde foi esse mundo, tão próximo e tão distante? Desço hoje a Rua do Ouro e, entre lojas paquistanesas e hotéis recém-inaugurados, nada já parece estar na mesma cidade.


Marina Tavares Dias



terça-feira

O MERCADO DE ALCÂNTARA

Houve um tempo em que Lisboa acabava aqui. Ou deixara já de o ser, Alcântara era subúrbio, limitada a oeste estava a cidade pela Rua Maria Pia, à época Estrada da Circunvalação. Eis-nos, pois, face a esta imagem remota, no limite da Lisboa suburbana. E frente ao seu mercado, em 1906 aberto. 

O postal não no-lo mostra, mas na fronteira entre Alcântara e Lisboa havia então soldados, guaritas onde se abrigavam e... um posto alfandegário. Talvez - quem sabe? - algumas destas gentes para sempre anónimas, que vemos em silhueta a mercar na praça ou simplesmente passando, se dirigissem depois a Lisboa. Ou rumassem a Belém, que fora sede de concelho. Ao certo, todavia, nada sabemos delas. 

O mercado, na sua arquitectura modesta de ferro e vidro (parente pobre da Praça da Figueira) impõe-se ao nosso olhar. Como um monumento. Que haveria, também ele, de perecer, como os que neste postal lhe emprestam vida. Em seu lugar não há agora coisa nenhuma. Ou há: a terra de ninguém dos que - de e para novos subúrbios - todos os dias entram em Lisboa e saem dela. A cidade cresceu sobre os escombros de si própria, às vezes mesmo sobre o mais nobre de um lugar. Quem haveria de dizer que a torre da igreja, lá no alto, ou a gare ferroviária de Alcântara-Terra, à esquerda na imagem, iriam sobreviver a este mercado? 


Texto do livro

'Os Melhores Postais de Lisboa' (1995)




segunda-feira

A VARININHA 1900

Uma longa e ilustre genealogia de varinas alfacinhas motivou, ao longo de décadas, inúmeras inspirações. Em retrato a óleo ou fotografia, caricatura ou máscara mais ou menos estilizada, a varina lisboeta transformou-se em moda. Eram vários milhares, a galgar calçadas, com os primeiros raios do sol, enfeitando a Lisboa do início do século.

Fosse ou não pela notoriedade da sua imagem quase logotipo, orgulhavam-se do mester de vender. Desde pequenas, consideravam-no vocação. Seria o caso desta minúscula varininha fotografada por Paulo Guedes? Há quem a considere apenas mascarada, num qualquer carnaval por volta de 1900. Seja como for, é o mais celebrado postal da melhor série sobre costumes de Lisboa (Lisboa na Rua), o que equivale a dizer um dos melhores postais portugueses.
Numa análise mais minuciosa (a partir do negativo original), nota-se indumentária idêntica - incluindo tecido utilizado - à da figura da esquerda. Provavelmente, o mesmo sangue nas veias, o mesmo sangue na guelra. O que quer dizer não se tratar de máscara, mas de encaminhamento. Dada a exiguidade da canastrinha, é de crer, contudo, que ainda não pregoasse.

Marina Tavares Dias





sexta-feira

LOUBET EM LISBOA

 

O carimbo do correio (28 de Fevereiro) é anterior à data manuscrita no postal (1 de Maio). E algo, desde logo, como contradição se oferece. Assim o ano em que foi colhida a foto, que pelos dois testemunhos se imaginaria de 1907, mas se sabe ser anterior: 1905. O resto não permite dúvidas: é o Chiado, com o pormenor da primitiva fachada de A Brasileira, bem diferente da actual. Mas a 1905 regressemos e para dizer que este engalanado todo com que Lisboa se veste continha em si também uma contradição: era para receber o Chefe de Estado francês, Émile Loubet. Um Presidente da República e não um rei, e a já enfraquecida monarquia portuguesa forçada era a recebê-lo em visita oficial. Os republicanos, que conspiravam já para o 5 de Outubro de cinco anos depois, fruiam da França a inesperada ajuda. Mas nada disso aqui se adivinha. Inocente e aparentemente neutral, o que a fotografia regista é diverso: uma Lisboa na rua, em festa, por desfastio. Subindo ou descendo o Chiado, há quem passe, enquanto outros estão, e todos sem pressa. Apenas - tentando libertar-se da mão da senhora de saia pelos pés e estola ao pescoço - a menina do chapéu, quase a meio do postal, se inclina para a frente. Único e sobrante mistério: que terá despertado o anseio da menina?




terça-feira

A FÁBRICA DE TABACO DE XABREGAS

 Fora um filme, desses dos primitivos Lumière (ou do nosso Aurélio Paz dos Reis) e o título poderia ser «À Saída da Fábrica...». Da Fábrica de Tabacos de Xabregas, neste caso, a fazer fé na legenda do postal. Mas, porque é um postal e não um filme, em vez de título há legenda e em vez de quem sai da fábrica temos a fábrica tão somente. E quem nela trabalha? Ao fotógrafo (e ao editor) tal não parece ter interessado. O filme, de quem saísse, em primeiro (talvez trémulo) plano, daria o rosto. No postal rostos não há: apenas vultos, silhuetas, a mole confusa dos operários - anónimos. Que fazen eles (e elas) ali à porta? Será que saem? Será que entram? Ou será que não entram nem saem - estão em greve, por exemplo, contra o alongado horário, a dureza do labor, a má paga do salário? Não sabemos. Em frente da fábrica está uma guarita e, junto dela, percebem-se dois homens a cavalo. Soldados? Talvez. Com um deles fala uma mulher. Que se irá passar? Nunca o iremos saber. Os parcos dizeres deste postal dizem tudo. Ou nada: aqui não há antes, nem depois, porque essa água que corre do destino das gentes não a quis fixar o fotógrafo. Apenas a fábrica, que aliás mal se vê. Ah, se, paralela à História, houvesse uma História dos Olhares.






segunda-feira

OS MENINOS DAS RENDAS

Lisboa ainda falava francês. E chique era chamar, às "rendas", "dentelles". E enobrecer com o vocábulo "marchands" o duro ofício de (sobre)viver destes miúdos da rua. Miúdos que o sagaz olhar do fotógrafo colheu ao acaso. Uma pausa no ambulante dia de dois trabalhadores quase crianças. Após ela, tudo lhes terá sido como dantes. Ou como imediatamente depois. Mas esta pausa que não lhes terá ocupado mais do que uns breves minutos no calcorrear da jornada, transcenderia, afinal, o instante. Eles não sabiam. Julgavam - sem o julgar talvez - que olhavam apenas o fotógrafo. E afinal, vai-se a ver, posavam para a posteridade. Graças a este postal. Porque hoje, 120 anos depois, tudo se foi: os dois miúdos e o fotógrafo, as rendas e o que terão enfeitado, a própria máquina fotográfica que embalsamou o tempo, este cidade até, que na sua alma é já outra. Resta o que resta: um postal e o olhar deles. Dos dois miúdos que, entre o recesoso e o desconfiado, um dia olharam o fotógrafo, sem saberem que seria a nós quem, num futuro longínquo e inimaginável, iriam olhar. Porque, postados outrora na calçada de uma rua qualquer, hoje é a nós que eles nos olham. Nos olhos. De frente. Desafiando-nos o imaginário. Até quando Lisboa terá ouvido o pregão das rendas?



'Os Melhores Postais de Lisboa', 

de Marina Tavares Dias, 1995

quinta-feira

O ELEVADOR DA ESTRELA

 

Subindo duas calçadas íngremes - a da Estrela e a do Combro - este era um dos elevadores mais procurados de Lisboa. Percorria grande parte do trajecto da posterior, e hoje tradicional, carreira de eléctrico número 28. Movido a acetileno, o Elevador da Estrela não sobreviveu ao desuso desse combustível, logo na segunda década do século. 

Note-se a total ausência de fios eléctricos sobre os carris, assim como a configuração da pequena locomotiva aberta. No entanto, o seu atrelado sugere, já, um futuro carro eléctrico no mesmo percurso. Entre os vários editores de postais lisboetas de 1900, apenas Faustino Martins parece ter conferido grande interesse turístico aos transportes sobre carris. É o único a dedicar-lhes três edições com fotografias em que estes aparecem num grande plano. Além do Elevador da Estrela, publicou ainda imagens de eléctricos abertos, com um ou dois trolleys. A par de «O Carro do Jorge» (edição Malva & Roque), constituem temática privilegiada entre todos os postais lisboetas. De outras cidades - Porto, Coimbra, etc. - não se conhecem verdadeiros grandes planos de eléctricos sobre postal antigo, ou exemplares cuja legenda refira apenas estes meios de transporte.




quarta-feira

O POSTAL DA PRAÇA DA FIGUEIRA

Estarão quase a chegar, ou terão já partido, após um dia inteiro de trabalho e de pregões? Este aspecto da Praça da Figueira é, sem dúvida, pouco comum. E, vá lá saber-se porquê, foi escolhido para o único postal que ostenta fotografia do interior do mercado. De longe, ainda há quem repare no retrato.

Mas cestos pousados sobre bancas vazias sugerem o final de tarde de um dia de Verão. Ninguém se lembra da praça assim. Porque ela seria, sobretudo, o seu recheio, o seu ruído. As manhãs apressadas ou - uma vez por ano - grinaldas, balões, tronos de Santo António. Bailes, mangericos, banda desafinada.
Memórias difusas para gerações posteriores à demolição de 1949. Para estas, a única referência imediata parece ser uma imagem de Maria das Neves no filme "O Pátio das Cantigas": "Senhora Rosa, chegou a sua filha!". Vendida em hasta pública e arrematada ainda de pé, a construção de ferro e vidro foi desmantelada para sucata. Muitos anos depois, houve quem afirmasse tê-la visto reconstruída em Inglaterra ou numa obscura parte do continente africano. Lendas que o imaginário confere ao que não quer perder.
Não há tema mais procurado, nos postais topográficos de Lisboa, do que a Praça da Figueira. De certo modo, ela nunca foi abaixo. Os mitos, como as árvores, morrem sempre de pé.


M.T.D.



segunda-feira

AVENIDA DUQUE DE ÁVILA

 Lisboa já se estendeu para norte. Ao Passeio Público, a Avenida da Liberdade passara-lhe por cima para ir dar à Rotunda. A partir daí (menos ambiciosas na sua largueza), diversas avenidas se abriram e, a seguir à (mais modesta) rotunda do Saldanha, nelas outras se cruzaram: as Avenidas Novas. Como esta ainda tão pacata equase provinciana Avenida Duque de Ávila que aqui vemos, já percorrida por eléctricos, cujos fios, porém, são consertados, ainda, por carros puxados a cavalo. Puxada a cavalo segue também, na outra via, uma carroça. O mundo - dir-se-ia - caminhava em frente e direito a nós. Equilibrado, embora, em dois pés: o passado e o presente. No meio, estão as poucas gentes que, lá longe, passam, insensíveis, decerto, à concomitância da História. Só os dois muídos estacaram. Olhos postos no fotógrafo? Não: olhos postos no futuro.


Marina Tavares Dias, 'Os Melhores Postais de Lisboa'




quinta-feira

AVENIDA FONTES PEREIRA DE MELO

Avenida Fontes Pereira de Melo com o Palácio Sottomayor (à direita do carro eléctrico). Do lado oposto, meio oculto pela jovem árvore, o gaveto de outro prédio, demolido em 2010 (esquina com a António Augusto de Aguiar). Placa central ajardinada, animação reduzida, trânsito quase nulo. E, ronceiro, o eléctrico de ligação com a Baixa, centro longínquo e imprescindível às compras mais exigentes. Os candeeiros mais altos ainda têm arco voltaico, mas - apesar deles - as noites são longas. Por muitos anos - muitos -, sem adivinharem futuras buzinadelas ou engarrafamentos de automóveis. 

A zona hoje terciária está, aqui, destinada apenas a habitação própria; palacetes das classes mais abastadas, jardins circundantes, árvores escolhidas (uma espécie por cada arruamento), flores exóticas nos jardins e nas estufas. O padeiro vem à porta; assim como a varina ou o burrinho do leite. Mas, para comprar o jornal, desce-se muitas vezes à Baixa. Porque Lisboa, aqui, é o sossego de quem pode estar só, entre paredes arte-nova, pousando os lábios na porcelana do chá. Sem ouvir, ao fundo da avenida, o futuro galgando a praça, disposto a mortos pelo caminho. 

Deste lado do tempo, será fácil adivinhar tudo, hoje. E apetece dizer acordem. E apetece ir comprar as casas, estancar o asfalto e os escritórios, calar buzinas e travões. Mas, embalsamado, este eléctrico parou aqui, no seu retocado recanto do tempo. O futuro só existe depois do que há. Não tem fotografias.




terça-feira

O EDIFÍCIO DOS ARMAZÉNS DO CHIADO

O Palácio Barcelinhos acolheu, ao longo do século XIX, quatro hotéis distintos — o Hotel dos Embaixadores, o Hotel de l’Europe, o Hotel Gibraltar e o Hotel Universal — constituindo um dos mais notáveis exemplos de continuidade hoteleira num mesmo edifício em Lisboa. Com a gradual expansão dos Grandes Armazéns do Chiado, o palácio foi perdendo a vocação, até albergar apenas o estabelecimento comercial que viria a definir uma nova era, e novos hábitos, na história do Chiado.





segunda-feira

Campo Grande, 1918

CAMPO GRANDE

Palacete neo-manuelino no número 123 da Rua Ocidental do Campo Grande, tornejando para a antiga Estrada de Malpique (zona da actual Faculdade de Farmácia). Construído em 1918, segundo instruções específicas do seu proprietário, João Maia Gomes, viria a ser demolido em 1951 (prova fotográfica para postal ilustrado de Paulo Guedes, 1918)


Em: 'Lisboa Desaparecida'

de Marina Tavares Dias









PASTELARIA FERRARI

Fundada em 1846, a Maison Ferrari foi uma das melhores e mais prestigiadas confeitarias de Lisboa, fornecedora da Casa Real, do Real Teatro de S. Carlos e de diversos estabelecimentos históricos. Manteve-se em actividade até ser totalmente destruída pelo incêndio do Chiado de 25 de Agosto de 1988. 

Fotografias de Marina Tavares Dias

'LISBOA DESAPARECIDA', volume II (1989)








sexta-feira

A FEIRA DE SANTOS

Da mitologia das feiras fazia parte a gastronomia. Daí o calão local com que se encomendavam os pratos: bailarinas ou costeletas na grelha (as sardinhas), repolhos (os pimentos), um seixo (um pão), pendulos (os carapaus) e a viva e os vivos (a garrafa de tinto com os copos).

Maria 'Botas' confeccionava o melhor coelho assado. Um dia, os jornais começaram a fazer-lhe a vida negra, dizendo que ali havia gato. Havia. E tinham-se passado anos sem que alguém desse pela coisa. A polícia descobriu que os clientes da Botas comiam gato há tanto tempo que os bichanos (então uma autêntica praga da cidade) começavam a rarear na zona [...]


'LISBOA DESAPARECIDA' 

de Marina Tavares Dias 






terça-feira

LISBOA NO CAIS

 Marina Tavares Dias em 'Os Melhores Postais Antigos de Lisboa':

Paulo Guedes, editor deste exemplar - e, quase por certo, autor da própria fotografia - não foi o mais prolixo, entre inúmeros congéneres que inundaram de postais quiosques e tabacarias da Lisboa 1900. Mas foi o mais imaginativo. Quase sempre, por trás de cada escolha sobre postal, adivinha-se a sensibilidade do fotógrafo atento que conhecia a cidade de cor. Esta cena no cais da Ribeira Nova é o melhor exemplo disso. Pertence a uma série sobre costumes portugueses em geral, mas parece que, de algum modo, fazia parte da célebre colecção Lisboa na Rua (com 16 números conhecidos), e ficou de fora por misteriosas razões. Nenhum tema da citada colecção ilustraria, como este, tal legenda: Lisboa na rua ou no cais; o povo, os costumes, as cenas quotidianas e a sua assistência. Conhecida por «postal do burrinho", aqui está uma edição que reúne tudo: bom plano, animação, figuração de transportes (no caso, a fragata); tudo sem pose, com o seu aspecto de sempre. Acrescente-se-lhe o insólito com que a cena hoje se nos afigura - e teremos, neste burro, uma representação de Lisboa, tão digna como a imagem de qualquer varina ou galego aguadeiro.





CAFÉ CHAVE D'OURO

O Café Chave d’Ouro foi fundado no Rossio em 1915 e sucessivamente ampliado nos 20 anos seguintes. Ocupando todo o edifício – café com galeria, restaurante, salão de chá, bilhares, tabacaria e barbearia – era o maior do seu tempo. Era igualmente o preferido pelos principais comerciantes da Baixa, com tardes de música, conjuntos como a Orquestra Ligeira da Emissora Nacional, e até transmissões radiofónicas.



Café Chave d’Ouro, no Rossio. Piso térreo.

 Postal ilustrado fotográfico, c. 1931

quinta-feira

BADALEJAR

 «Dantes, dizia-se badalejar. As casas grandes tinham à porta a maçaneta de latão, devidamente centrada numa estética cercadura. A ela estava ligado, no interior, um pequeno sino dourado.

Para os dedos não deslizarem, em caso de nervosismo ou mesmo de chuva, cada puxador era lavrado em espiral, às vezes com alguma imaginação. Camilo badalejava quando ia visitar alguém; Eça badalejava. Não conheciam o irritante som já semi-electrónico das casas da segunda metade do século XX: 'tim-tom!' Anthero badalejou à porta de muitos amigos pelo reconforto de uma frase, Gomes Leal pelo de uma sopa. Fernando Pessoa badalejou à porta de Mário de Sá-Carneiro, no Largo do Carmo.


Já ninguém badaleja. Perdeu-se o verbo. Os restos destes badalos foram-se adaptando às fachadas, incorporando-se nelas, cimentados nelas ou adaptados a campaínha, já sem o característico puxador. Páro na rua sempre que vejo a maçaneta do badalo intacto, e pouso logo o olhar no degrau de entrada. Muitos passos, poucos passos? - Depende disso o desgaste. Dependiam disso as promessas do trinco da porta.»


MARINA TAVARES DIAS

Lisboa Desaparecida

(fotografia da autora)







sábado

A LISBOA DE EÇA DE QUEIROZ

 «No final de Oitocentos, Eça de Queiroz escreve que «o país não está em condições de receber visitas». Ao mesmo tempo, abanca às mesas do Hotel Central, no Cais do Sodré em jornadas mais ou menos longas e contraditórias daquilo que costuma dizer dos hotéis nacionais. O diletantismo, herdeiro do Romantismo, impera nos meios intelectuais. As contradições são ordem do dia; a literatura francesa também. Nos jantares do Tavares, gastam os Vencidos a beber o que não têm para jantar. Segundo a factura: “bacalhau com pão - 18 vinténs; champanhe - 18 mil réis”.»


Continua no livro 'A Lisboa de Eça de Queiroz '.







sexta-feira

O PALÁCIO DAS NECESSIDADES

 Palácio, Jardim e Tapada das Necessidades. O francês Bonard transformou a antiga quinta dos frades num belíssimo exemplar de parque inglês, a que não falta sequer uma estufa circular, mais tarde acrescentada por D. Pedro V em homenagem à mulher, a Rainha D. Estefânia. O monorama dos soberanos continua no tecto dos antigos aposentos do casal.


Em:

«Lisboa Desaparecida»

Capítulo 'Os Palácios Reais.

(fotografia da autora, Marina Tavares Dias)