O CARRO AMERICANO
A cidade que assistiu à inauguração das carreiras de «americanos» não estava particularmente confiante nas virtudes dos transportes públicos. Os exemplos anteriores tinham habituado todos a vicissitudes então consideradas insuperáveis. Desde o horário desregrado dos ónibus, passando pelo asseio duvidoso dos charabãs, até às tarifas oportunistas dos tens de aluguer, havia uma longa genealogia de desconfianças e de queixas.
Mesmo assim, os jornais não pouparam elogios a um transporte considerado revolucionário, que tinha provado as suas virtudes em cidades estrangeiras (também o Porto já possuía «americanos» desde o dia 15 de Maio de #1872). Em breve, os lisboetas reconheceriam as diferenças do novo sistema de transporte, chegando a considerá-lo como o verdadeiro messias do trânsito alfacinha. Bairros houve em que tal progresso foi saudado com flores para enfeitar os carros e fardas de luxo oferecidas aos cocheiros. O «Diário de Notícias» de 18 de Novembro de 1873 noticia deste modo a inauguração das carreiras:
«Ficou ontem aberta à circulaçãoa primeira secção de linha de carruagens sobre carris de ferro, pelo sistema americano,em Lisboa, compreendida entre a estação de linha férrea do norte e leste e o extremo oeste do Aterro da Boa Vista. Ficou portanto definitivamente estabelecido na cidade mais um meio de viação, seguro, cómodo e barato que há-de ser o início de maior desenvolvimento e aperfeiçoamento dos veículos de transporte na capital […]. Quando se aproximava a hora de partirem do extremo dessa secção da linha as carruagens com os convidados da empresa dos Carris de Ferro de Lisboa, e as pessoas que em outras eram admitidas, o povo cheio de alegria e curiosidade formava alas em todo o trajecto da linha, para saudar amoravelmente o novo progresso que passava.
A estação principal da linha e largo em frente estavam embandeirados e ornamentados de arcos e grinaldas, de verdura e de emblemas nacionais! Uma linha de 32 carruagens […] estava postada sobre os ‘rails’ com os seus cocheiros e condutores singelamente uniformizados e postos sobre as plataformas, e os seus magníficos tiros de cavalos e muares perfeitamente arreados com as testeiras das cabeçadas ornadas de rosetas azuis e brancas [as cores da bandeira nacional do tempo da Monarquia]. Vinte e quatro dessas carruagens eram fechadas e oito abertas, destinadas aos fumistas.»
Fotografia de Marina Tavares Dias
[Exemplar existente no #Museu da Carris]

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