A minha relação com António Lobo Antunes começou mal. O primeiro livro que li foi o primeiro que ele escreveu. Eu não teria mais de 18 anos. Pensei: ‘Que grande dor de corno, escrever isto.’ Arrumei o volume da Vega na prateleira e não comprei o segundo.
Fast-forward seis anos. Conheci o Zé quando ele trazia um livro do António debaixo do braço. O Acácio Barradas atirou, com um sorriso: ‘Aqui tens o descobridor de talentos.’ O Zé fizera a primeira entrevista ao António, e tinham ficado muito amigos. Perguntei-lhe pelo livro que levava. Estendeu a mão e disse: ‘Lê tu, e logo me dizes o que pensas.’ Nessa tarde, na Pastelaria Orion, fiz a segunda imersão na prosa do António. Maravilhada, fui pedir emprestados todos os outros livros.
Conheci o António nesse ano, depois de mais uma entrevista para o ‘DP’. Achei-o muito diferente do escritor que tinha lá dentro. Parecia estar sempre um pouco alheado da conversa, ponderado em cada resposta, vagamente enfastiado. Tínhamos ido comprar cromos, eu e o Zé. Perante o meu entusiasmo ao abrir cada pacotinho, o António começou a falar dos futebolistas que faziam as antigas colecções de ‘cromos da bola’, compradas com os rebuçados das mercearias. De repente, acendeu-se aquele belo sorriso. Estava encontrado o âmago dos seus livros, em que tudo era intenso e fascinante só por ser humano.
Fotografei-os juntos e emoldurei o retrato ao lado de outro, mais antigo, que o Zé tinha com ele. Mais tarde, juntei na mesma moldura mais uma fotografia: com o neto, a apontar para a câmara. Tirando as entrevistas, nunca falámos da obra dele. Nunca lhe pedi livros ou autógrafos, nunca lhe dei os parabéns por nada. Fiquei surpreendida por não ter sido o primeiro escritor português a ganhar o Nobel. Nunca lho disse.
Quando o Zé morreu, o António publicou uma crónica em que repreendia a Deus. Que tivesse levado outro cuja falta não se fizesse sentir tanto. Que tivesse levado quem lhe faria menos falta a ele. No meio de tantos elogios fúnebres, foi o mais sincero. Dava o devido valor a quem o estimava.
Voltei a falar com ele, anualmente, nos meses da Feira do Livro. Uma tarde, encontrei-o ‘pastoreado’ na sessão de autógrafos pelo antigo distribuidor dos meus próprios livros. ‘És amigo deste gajo?’ E ele, com o sorriso encavacado: ‘Ninguém é perfeito.’ Adoeci e deixei de ir à Feira, às habituais sessões de exposição circense. Quando cessaram as crónicas e se interrompeu aquela cadência certa com que os livros novos apareciam nas livrarias, tentei saber como estaria. Que já não podia escrever, que não se dava com ninguém. Não tentei saber mais. Reservado como era, decerto teria preferido que eu não soubesse.
Há coisa de dois anos, enquanto revolvia pela enésima vez as estantes, em busca de um livro que não encontrei, caíram-me aos pés várias folhas com os poemas que nunca publicou, e cujo original tipo-escrito tinha ficado com o Zé. Comovi-me um bocado nesse dia, e fui para o FB publicar fotografias dele. Mas não o tenho retratado no cenário em que mais vezes o encontrei: um armazém vazio e asséptico, vagamente pertencente a um primo, ali ao Conde de Redondo.
O António escrevia sem precisar de nada à sua volta. Metia-me espécie, e ele ria. Talvez por isso, quando comprou uma casa nova fez questão de mostrar que a decorara. O Zé sabia mais ou menos o que iria encontar. Com um desvelo que raramente dedicava à decoração das casas, o António tinha colado na parede um cromo do Benfica.
Marina Tavares Dias