Uma longa e ilustre genealogia de varinas alfacinhas motivou, ao longo de décadas, inúmeras inspirações. Em retrato a óleo ou fotografia, caricatura ou máscara mais ou menos estilizada, a varina lisboeta transformou-se em moda. Eram vários milhares, a galgar calçadas, com os primeiros raios do sol, enfeitando a Lisboa do início do século.
Marina Tavares Dias, Olisipografia
segunda-feira
A VARININHA 1900
sexta-feira
LOUBET EM LISBOA
O carimbo do correio (28 de Fevereiro) é anterior à data manuscrita no postal (1 de Maio). E algo, desde logo, como contradição se oferece. Assim o ano em que foi colhida a foto, que pelos dois testemunhos se imaginaria de 1907, mas se sabe ser anterior: 1905. O resto não permite dúvidas: é o Chiado, com o pormenor da primitiva fachada de A Brasileira, bem diferente da actual. Mas a 1905 regressemos e para dizer que este engalanado todo com que Lisboa se veste continha em si também uma contradição: era para receber o Chefe de Estado francês, Émile Loubet. Um Presidente da República e não um rei, e a já enfraquecida monarquia portuguesa forçada era a recebê-lo em visita oficial. Os republicanos, que conspiravam já para o 5 de Outubro de cinco anos depois, fruiam da França a inesperada ajuda. Mas nada disso aqui se adivinha. Inocente e aparentemente neutral, o que a fotografia regista é diverso: uma Lisboa na rua, em festa, por desfastio. Subindo ou descendo o Chiado, há quem passe, enquanto outros estão, e todos sem pressa. Apenas - tentando libertar-se da mão da senhora de saia pelos pés e estola ao pescoço - a menina do chapéu, quase a meio do postal, se inclina para a frente. Único e sobrante mistério: que terá despertado o anseio da menina?
terça-feira
A FÁBRICA DE TABACO DE XABREGAS
Fora um filme, desses dos primitivos Lumière (ou do nosso Aurélio Paz dos Reis) e o título poderia ser «À Saída da Fábrica...». Da Fábrica de Tabacos de Xabregas, neste caso, a fazer fé na legenda do postal. Mas, porque é um postal e não um filme, em vez de título há legenda e em vez de quem sai da fábrica temos a fábrica tão somente. E quem nela trabalha? Ao fotógrafo (e ao editor) tal não parece ter interessado. O filme, de quem saísse, em primeiro (talvez trémulo) plano, daria o rosto. No postal rostos não há: apenas vultos, silhuetas, a mole confusa dos operários - anónimos. Que fazen eles (e elas) ali à porta? Será que saem? Será que entram? Ou será que não entram nem saem - estão em greve, por exemplo, contra o alongado horário, a dureza do labor, a má paga do salário? Não sabemos. Em frente da fábrica está uma guarita e, junto dela, percebem-se dois homens a cavalo. Soldados? Talvez. Com um deles fala uma mulher. Que se irá passar? Nunca o iremos saber. Os parcos dizeres deste postal dizem tudo. Ou nada: aqui não há antes, nem depois, porque essa água que corre do destino das gentes não a quis fixar o fotógrafo. Apenas a fábrica, que aliás mal se vê. Ah, se, paralela à História, houvesse uma História dos Olhares.
segunda-feira
OS MENINOS DAS RENDAS
Lisboa ainda falava francês. E chique era chamar, às "rendas", "dentelles". E enobrecer com o vocábulo "marchands" o duro ofício de (sobre)viver destes miúdos da rua. Miúdos que o sagaz olhar do fotógrafo colheu ao acaso. Uma pausa no ambulante dia de dois trabalhadores quase crianças. Após ela, tudo lhes terá sido como dantes. Ou como imediatamente depois. Mas esta pausa que não lhes terá ocupado mais do que uns breves minutos no calcorrear da jornada, transcenderia, afinal, o instante. Eles não sabiam. Julgavam - sem o julgar talvez - que olhavam apenas o fotógrafo. E afinal, vai-se a ver, posavam para a posteridade. Graças a este postal. Porque hoje, 120 anos depois, tudo se foi: os dois miúdos e o fotógrafo, as rendas e o que terão enfeitado, a própria máquina fotográfica que embalsamou o tempo, este cidade até, que na sua alma é já outra. Resta o que resta: um postal e o olhar deles. Dos dois miúdos que, entre o recesoso e o desconfiado, um dia olharam o fotógrafo, sem saberem que seria a nós quem, num futuro longínquo e inimaginável, iriam olhar. Porque, postados outrora na calçada de uma rua qualquer, hoje é a nós que eles nos olham. Nos olhos. De frente. Desafiando-nos o imaginário. Até quando Lisboa terá ouvido o pregão das rendas?
'Os Melhores Postais de Lisboa',
de Marina Tavares Dias, 1995
quinta-feira
O ELEVADOR DA ESTRELA
Subindo duas calçadas íngremes - a da Estrela e a do Combro - este era um dos elevadores mais procurados de Lisboa. Percorria grande parte do trajecto da posterior, e hoje tradicional, carreira de eléctrico número 28. Movido a acetileno, o Elevador da Estrela não sobreviveu ao desuso desse combustível, logo na segunda década do século.
Note-se a total ausência de fios eléctricos
sobre os carris, assim como a configuração da pequena locomotiva aberta. No
entanto, o seu atrelado sugere, já, um futuro carro eléctrico no mesmo
percurso. Entre os vários editores de postais lisboetas de 1900, apenas
Faustino Martins parece ter conferido grande interesse turístico aos
transportes sobre carris. É o único a dedicar-lhes três edições com fotografias
em que estes aparecem num grande plano. Além do Elevador da Estrela, publicou
ainda imagens de eléctricos abertos, com um ou dois trolleys. A par de «O Carro do Jorge» (edição Malva & Roque),
constituem temática privilegiada entre todos os postais lisboetas. De outras
cidades - Porto, Coimbra, etc. - não se conhecem verdadeiros grandes planos de
eléctricos sobre postal antigo, ou exemplares cuja legenda refira apenas estes
meios de transporte.
quarta-feira
O POSTAL DA PRAÇA DA FIGUEIRA
Estarão quase a chegar, ou terão já partido, após um dia inteiro de trabalho e de pregões? Este aspecto da Praça da Figueira é, sem dúvida, pouco comum. E, vá lá saber-se porquê, foi escolhido para o único postal que ostenta fotografia do interior do mercado. De longe, ainda há quem repare no retrato.
segunda-feira
AVENIDA DUQUE DE ÁVILA
Lisboa já se estendeu para norte. Ao Passeio Público, a Avenida da Liberdade passara-lhe por cima para ir dar à Rotunda. A partir daí (menos ambiciosas na sua largueza), diversas avenidas se abriram e, a seguir à (mais modesta) rotunda do Saldanha, nelas outras se cruzaram: as Avenidas Novas. Como esta ainda tão pacata equase provinciana Avenida Duque de Ávila que aqui vemos, já percorrida por eléctricos, cujos fios, porém, são consertados, ainda, por carros puxados a cavalo. Puxada a cavalo segue também, na outra via, uma carroça. O mundo - dir-se-ia - caminhava em frente e direito a nós. Equilibrado, embora, em dois pés: o passado e o presente. No meio, estão as poucas gentes que, lá longe, passam, insensíveis, decerto, à concomitância da História. Só os dois muídos estacaram. Olhos postos no fotógrafo? Não: olhos postos no futuro.
Marina Tavares Dias, 'Os Melhores Postais de Lisboa'






