Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

domingo

A QUINTA DO FUTEBOL

 Marina Tavares Dias 

em 'Historia do Futebol' (excerto):


[...] Nesta época, os jogos eram ainda divididos em duas partes de meia hora cada uma, e a aquisição de bolas de qualidade continuava a não ser fácil. Nas temporadas de 1902 a 1904, os desafios decorriam maioritariamente em Carcavelos (Quinta Nova), na Cruz Quebrada e no Hipódromo de Belém. Os treinos realizavam-se um pouco por toda a parte, com destaque para os terrenos ainda vagos da zona do Campo Pequeno. Numa época de «balizas às costas», não havia bancadas nem balneários, pelo que os jogadores atravessavam frequentemente em calções várias ruas, antes de chegarem ao designado campo, provocando forte abalo nos brandos costumes da época. Quando se despiam, apenas próximo do terreno (com a ajuda de cobertores), as roupas ficavam no chão a marcar o local da improvisada baliza.


(Continua no livro)



                              

Jogo na Quinta Nova/Quinta dos Ingleses.
Postal ilustrado, c. 1910.


segunda-feira

'PATISSERIES' LISBOETAS

Marina Tavares Dias em LISBOA DESAPARECIDA:


As últimas representantes das confeitarias célebres são os belos salões que, nas primeiras décadas do século XX, começaram a conferir um toque aristocrata às burguesas Avenidas Novas. 

Hoje em dia, é quase nula a diferença que distingue confeitarias e pastelarias. Inicialmente, existiram apenas as primeiras, reservando-se aos padeiros o fabrico dos bolos secos. Embora também produzissem bolos com creme, as confeitarias dedicavam-se especialmente, e como o nome indica, a confeitos, conservas e doces, cujas "celebridades" incluíam frutas cristalizadas e as amêndoas da Páscoa.

A designação 'pastelaria' é mais recente. As pastelarias de 1900 recorriam, quase sempre, a dísticos franceses. Assim, a Bénard do Chiado foi "patisserie" até à década de 20 (altura em que foram proibidos os dísticos de fachada em línguas estrangeiras), e foi como "patisserie" que nasceu a Versailles (em 1922), hoje glória entre congéneres. Por "patisserie" se conheceu sempre a Bijou da Avenida da Liberdade, fundada no final de Oitocentos, que esteve até 1938 nos números 91 a 103 da avenida. 


Continua no livro.

Fotografias da Autora.







terça-feira

OS CLÁSSICOS DO CINEMA PORTUGUÊS

Basicamente, as «fitas faladas» assumem, desde o início, uma vertente semi-subversiva, totalmente diversa daquilo que, até então, dominara os argumentos para animatógrafo. Ao longo das décadas seguintes, grandes sucessos da «comédia à portuguesa» vão reproduzir à exaustão o universo pequeno-burguês da Lisboa bairrista. Pleno de personagens argutas, bailadeiras, cinéfilas, modernaças, amantes da pinga, ambiciosas, mentirosas, pouco dadas ao trabalho e frequentemente amorais. No epílogo, quase sempre, saem triunfantes sobre os chamados «botas de elástico», através de uma inversão de valores que nem sequer propõe julgamentos. As comédias do cinema sonoro penderão, pois, para o avesso do regime que as acolheu como arte, e que nunca consegue encaminhá-las para o moralismo do «poucochinho mas honrado». Analistas e historiadores futuros falharão quase sempre ao tentarem ligar este universo, basicamente «revisteiro», herdado de Oitocentos e sedimentado na Primeira República, à opção deliberada pela propaganda do Estado Novo. (...)

Continua em «Lisboa nos Anos 40» 
de Marina Tavares Dias



Beatriz Costa e António Silva 
em 'A Canção de Lisboa' 
(Cottinelli Telmo, 1933)


quarta-feira

O ALPENDRE DA CALÇADA DA GLÓRIA


Marina Tavares Dias 
em «História do Eléctrico da Carris»:


No final de 1926, é extinta a Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, passando os elevadores da Glória e da Bica a fazer parte da rede da Carris de Ferro. Logo no ano seguinte inicia-se longa e larga polémica a propósito do Elevador da Glória, pois a sua nova proprietária fizera instalar, no sopé da calçada, um alpendre estilo «déco» cuja estética chocou vários sectores da opinião pública. [...]

 

(Continua no livro)

O MARTINHO «DA NEVE»

Em 1769, Julião Pereira de Castro nomeia Simão Duarte de José Duarte para “irem ajuntar neve à real fábrica que se acha no Cabeço do Pereiro, Serra da Lousã, e para esses avisarem os mais do lugar do Coentral para acudirem a juntá-la, por ficarem os ditos à vista da serra e verem quando cai a dita neve como também para irem ver amiúde que não haja algum prejuízo na dita fábrica causado pelos pastores ou pessoas que passem, que não quebrem telhas dos telhados ou outro qualquer prejuízo, para logo que suceda se prover de remédio e para o que lhe concedo todos os meus poderes que neste alvará são concedidos por Sua Majestade”. Além dos cestos repletos de neve, contava esta produção com um reforço de gelo, feito em pleno Inverno por meio das alagoas (tabuleiros onde a água da chuva, ao relento, ia ficando até gelar). 

Chegado o tempo quente, o povo descia de novo aos poços, onde a neve era cortada e erguida, em grandes blocos, para cima dos carros de bois. Enrolados em sarapilheiras, revestidos de palha, os fardos seguiam então pelos carreiros da serra, até Miranda do Corvo, primeira paragem para muda de animais, e mais tarde até ao pequeno porto de Constância. A neve chegava de barco ao estuário do Tejo, sendo rapidamente distribuída pelos botequins da Baixa lisboeta. Já em 1782 é consumida esta neve no “botequim da Praça do Commercio”, o actual Martinho da Arcada. [...]

Marina Tavares Dias 
em «Os Cafés de Lisboa»