Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

segunda-feira

O CARRO AMERICANO 


A cidade que assistiu à inauguração das carreiras de «americanos» não estava particularmente confiante nas virtudes dos transportes públicos. Os exemplos anteriores tinham habituado todos a vicissitudes então consideradas insuperáveis. Desde o horário desregrado dos ónibus, passando pelo asseio duvidoso dos charabãs, até às tarifas oportunistas dos tens de aluguer, havia uma longa genealogia de desconfianças e de queixas.


Mesmo assim, os jornais não pouparam elogios a um transporte considerado revolucionário, que tinha provado as suas virtudes em cidades estrangeiras (também o Porto já possuía «americanos» desde o dia 15 de Maio de #1872). Em breve, os lisboetas reconheceriam as diferenças do novo sistema de transporte, chegando a considerá-lo como o verdadeiro messias do trânsito alfacinha. Bairros houve em que tal progresso foi saudado com flores para enfeitar os carros e fardas de luxo oferecidas aos cocheiros. O «Diário de Notícias» de 18 de Novembro de 1873 noticia deste modo a inauguração das carreiras:


«Ficou ontem aberta à circulaçãoa primeira secção de linha de carruagens sobre carris de ferro, pelo sistema americano,em Lisboa, compreendida entre a estação de linha férrea do norte e leste e o extremo oeste do Aterro da Boa Vista. Ficou portanto definitivamente estabelecido na cidade mais um meio de viação, seguro, cómodo e barato que há-de ser o início de maior desenvolvimento e aperfeiçoamento dos veículos de transporte na capital […]. Quando se aproximava a hora de partirem do extremo dessa secção da linha as carruagens com os convidados da empresa dos Carris de Ferro de Lisboa, e as pessoas que em outras eram admitidas, o povo cheio de alegria e curiosidade formava alas em todo o trajecto da linha, para saudar amoravelmente o novo progresso que passava.

estação principal da linha e largo em frente estavam embandeirados e ornamentados de arcos e grinaldas, de verdura e de emblemas nacionais! Uma linha de 32 carruagens […] estava postada sobre os ‘rails’ com os seus cocheiros e condutores singelamente uniformizados e postos sobre as plataformas, e os seus magníficos tiros de cavalos e muares perfeitamente arreados com as testeiras das cabeçadas ornadas de rosetas azuis e brancas [as cores da bandeira nacional do tempo da Monarquia]. Vinte e quatro dessas carruagens eram fechadas e oito abertas, destinadas aos fumistas.»

Fotografia de Marina Tavares Dias
[Exemplar existente no #Museu da Carris]




domingo

 O LEGADO VALMOR


Instituído em 1898 por disposição testamentária do visconde de Valmor, o prémio de arquitectura mais prestigiado de Lisboa ficou com o nome do benemérito e constitui, desde 1902, um capítulo importante na história da cidade. Quinze folhas de papel selado escritas de ambos os lados perpetuam um legado que, em grande parte graças ao município, continua a motivar obras importantes: qualquer arquitecto com um "valmor" no curriculum vê a sua obra passada e futura valorizada. O prémio nunca perdeu prestígio, mesmo após a desactualização do seu inicial montante pecuniário (a dividir entre proprietário e autor do projecto), correspondente ao que era, na época, o rendimento do legado.
(continua)


Na imagem: postal ilustrado com a Casa Empis, prémio de 1907 projectado por António Couto de Abreu. Demolida.
Em Lisboa Desaparecida, volume 5, de Marina Tavares Dias




sábado

 A COSTA DE CAPARICA


LISBOA DESAPARECIDA
de
MARINA TAVARES DIAS
(EXCERTO do capítulo «A Outra Banda»)


« [...] Ao longo de todo o século XIX, a Costa de Caparica é quase exclusivamente um extenso areal, pontilhado por casinhotos de madeira onde se abrigam as famílias dos pescadores. Vai-se à Costa provar a caldeirada ou, mais esporadicamente, visitar o vizinho Convento dos Capuchos, de cujas alturas se avista, plana e interminável, a linha sinuosa da orla atlântica.
Essas primeiras cabanas montadas nos areais deverão datar do último quartel de seiscentos, quando algumas famílias algarvias ou ílhavas ali se fixam provisoriamente, nos meses de Verão, para se dedicarem à pesca.
Documentos reunidos por um mestre das artes de pesca (Francisco José da Silva) apontam o ano de 1770 como data das primeiras residências fixas, em barracas certamente maiores, de vários “mestres” com as suas companhas. José Gonçalves Bexiga (algarvio), Joaquim Pedro (de Ílhavo), Romualdo dos Santos (algarvio) e José Rapaz (de Ílhavo): foram eles os primeiros residentes da Costa de Caparica. A primeira construção relativamente elaborada terá sido a igreja local, praticamente no mesmo sítio onde a vemos hoje, inicialmente revestida apenas de colmo e de junco.»
(continua)






sexta-feira


O NASCIMENTO 

DO FUTEBOL 

EM PORTUGAL 


Jogadores que efectuaram aquela que é considerada a primeira exibição de futebol em Portugal, em Cascais, em Outubro de 1888. Esta extraordinária fotografia da época retrata-os a todos. Em pé, da esquerda para a direira: João Bregaro, Jorge Figueira, Eduardo Romero, Francisco Alte, Eduardo Pinto Basto, Francisco Figueira, Salvador da França, Manuel Salema, Aires de Ornellas, Guilherme Pinto Basto e Carlos Pinto Basto. No meio: Salvador Asseca, António Avillez, Pedro Sabugal e Frederico Pinto Basto. Sentados: visconde de Castello-Novo, Luiz Trigozo, Hugo O’Neill, Francisco Avillez, Vasco Sabugosa, Augusto Moller e D. Simão de Souza Coutinho.

Em:

HISTÓRIA DO FUTEBOL
de
MARINA TAVARES DIAS




quarta-feira

 ALGÉS E A SUA PRAIA


Cães amestrados em espectáculo para crianças, na praia de Algés. Depois da moda da praia de Pedrouços, que durou de meados de Oitocentos até à viragem para o século XX, o caminho-de-ferro viria, gradualmente, trazer os veraneantes para praias mais longe do centro da cidade. Algés era ainda moda quando esta fotografia foi tirada. Em breve, e em linha recta no espaço e no tempo, seria substituída pela Cruz Quebrada, por Oeiras e pelos Estoris [...]»


Livro Lisboa Antes e Agora, de Marina Tavares Dias




segunda-feira

 OS GALEGOS


Em 1800, os galegos imigrados em Portugal são já perto de 80 mil. Ao longo dos 100 anos seguintes, dedicar-se-ão sobretudo à venda ambulante de água pelas ruas de Lisboa. Estão por todo o lado: entre o Rossio e a Arcada do Terreiro do Paço, entre os ministérios e o cais, à porta dos armazéns, à esquina das ruas da Baixa, aos montes no Chiado, no largo conhecido por "Ilha dos Galegos".


Só aguadeiros, em Lisboa, são 3.454 por volta de 1830. Mas servem ainda para levar a trazer recados, para entregar encomendas ou fazer mudanças de casa. Dois galegos e uma corda podiam transportar quase toda a mobília de uma sala, dizia-se então.

E dizia-se também que um amor sem galego era um amor sem pés. Que seria dos namorados sem este distribuidor de bilhetes amorosos, num tempo em que quase todos os romances tinham de
esconder-se da ira paterna?

Continua em «LisboaDesaparecida», volume III, de MarinaTavaresDias



sábado

PRÉMIO VALMOR

EX-LIBRIS de uma época, o Prémio Valmor foi instituído, por disposição testamentária do 2º visconde deValmor, em 1898. Distinguir-se-ia, todos os anos, a melhor "casa" ou "prédio" cujo estilo arquitectónico fosse "Classico Grego ou Romano, Romano Gotico ou de Renascença ou algum typo artistico Portuguez enfim um estylo digno de uma cidade civilizada". Em 1909, este edifício concebido por Adolpho Antonio Marques da Silva (colaborador de Ventura Terra) recebeu uma das menções honrosas. Ocupava o número 72 da Av. Duque de Loulé e desapareceu em 1965 [...]


MARINA TAVARES DIAS
em
PHOTOGRAPHIAS DE LISBOA




segunda-feira

 CAFÉ CHAVE d'OURO



Foi – pelo menos a partir da remodelação em 1936 – o maior café de Lisboa. Fundado em 1916, aproveitou o nome de uma antiga casa de ferragens existente na mesma morada: A Chave d’Ouro. A fachada inicial, representando um anjo, transformou-se rapidamente numa das imagens mais famosas do Rossio. Pelos meados da década de 20, o Chave d’Ouro era o café preferido dos comerciantes da Baixa, possuindo muitos deles mesa cativa, onde recebiam amigos e fornecedores, como se de um segundo escritório se tratasse. O Chave d’Ouro inaugurou por essa altura as suas “tardes musicais”, aproveitando a clientela mista da hora do lanche para divulgar um famoso chá com torradas com sabor a “charleston”. Sessões que se prolongaram através da década seguinte, já após as obras de transformação do edifício. Em1936, após sucessivas ampliações, o Chave d’Ouro foi completamente remodelado, passando a ocupar todo o edifício, com enormes áreas especialmente destinadas a restaurantes, barbearia, bilhares, tabacaria e salão de recepções.

[...]


Capítulo sobre os cafés do Rossio,
no livro

OS CAFÉS DE LISBOA 

de MARINA TAVARES DIAS






domingo

CAFÉ MARTINHO


«[...] A zona poente do Rossio é a parte nobre da praça. O Largo D. João da Câmara, com os seus cafés célebres – o Martinho e o Suisso, – funciona como prolongamento desse passeio onde, em poucos metros, há muitos pontos de paragem obrigatória. Pouco antes da esquina, o Café Gelo continua a reunir os revolucionários do tempo da Monarquia. Quase ao lado, a Brasileira do Rossio, inaugurada em 1911, faz já tanto negócio como a do Chiado. Em 1916, o Chave d’Ouro juntar-se-á à lista, sendo herdeiro do Martinho como maior café da cidade. Por todos eles terá Pessoa escrito e divagado. Em 1916, escreve, numa carta endereçada à Tia Anica (Ana Luiza Pinheiro Nogueira): «Cheguei, num momento feliz da visão etérica, a ver na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele.» O Café Nicola será o último sobrevivente dos cafés do Rossio do tempo de Fernando Pessoa. O único que permanecerá aberto até ao final do século XX e até ao final do milénio.»

MARINA TAVARES DIAS
Excerto de LISBOA NOS PASSOS DE PESSOA


Fotografias: 
Interior do Café Martinho (postal ilustrado de 1909, peça do Arquivo Marina Tavares Dias).
Interior do banco que actualmente ocupa o mesmo local.
Travessa do Café Martinho.










«NÃO SE ESQUEÇAM NA VOLTA»


O Manuel dos Passarinhos ficava em Arroios, e era um dos chamados «retiros» (misto de tasca, adega e pequeno restaurante) ao serviço dos que saíam de Lisboa, pela Rua de Arroios e contígua Estrada de Sacavém.

Mas não era por isso que dizia «Não se esqueçam na volta». Era porque ficava mesmo em frente daquilo que viria a ser a futura Rua Morais Soares, a caminho do Cemitério Oriental (Alto de S. João).


Na volta dos enterros, esperava o Manuel dos Passarinhos que muita gente viesse com fome. Sobretudo, com vontade de beber para esquecer.


Ilustração e informação retiradas de:
LISBOA DESAPARECIDA 
de MARINA TAVARES DIAS, 
volume I.



sexta-feira

TEXTO PUBLICADO 

NO «JORNAL DE LETRAS»

EM 1997, 

MARCANDO


A PRIMEIRA DÉCADA


DA PUBLICAÇÃO DO PRIMEIRO LIVRO.


A "Lisboa Desaparecida" completa a sua primeira década. Pedem-me agora que sobre ela escreva, o que se me afigura tarefa espinhosa: nunca tal fiz, ao longo de todo este tempo.
[.../...]

Naquela época, julguei fácil convencer uma editora a investir nos textos do "Popular" (alguns, entretanto, publicados também no "Expresso"), porque contavam já com o que eu julgava ser um público fiel. Ninguém embandeirou em arco, houve hesitações e recusas até ao dia em que, sentada à minha secretária na Redacção, recebi uma chamada: "Somos uma editora nova e gostamos imenso das suas páginas de Sábado". Meses depois, eu e essa "editora nova" estávamos a lançar o primeiro volume da "Lisboa Desaparecida" no Café Nicola.

Passaram 10 anos. Muito pouco daquilo que era o meu estilo desse tempo (aos vinte e poucos anos) permanece. Muito pouco do que foram as motivações iniciais é hoje prioritário. Desapareceu o "Diário Popular" - o seu público fiel onde estará? -, a enorme Redacção em «open-space» está vazia, o precioso arquivo talvez perdido. O Bairro Alto deixou de ser o bairro dos jornais e os diários vespertinos cumpriram o seu ciclo temporal. Agora, existe mesmo uma "Lisboa Desaparecida" onde eu vivi. [...] Abordei-a ao de leve no volume IV, como parte da história da cidade. [.../...]

Marina Tavares Dias












 OS CAFÉS DE LISBOA,
de Marina Tavares Dias (1999)

A BRASILEIRA







Cinco décadas de chávenas da Brasileira (1945-1995). Quatro dos exemplares escolhidos para o livro, pertencentes ao Arquivo Marina Tavares Dias.


quinta-feira

 PRAÇA DA FIGUEIRA na capa do volume 1


Praça da Figueira. O antigo mercado, demolido em 1949. Postal ilustrado antigo, escolhido por Marina Tavares Dias para ilustrar a capa do primeiro volume de «Lisboa Desaparecida», em 1987.




quarta-feira

 AVENIDA ANTES DA REPÚBLICA


Avenida da República antes de 1910. Quarteirões anteriores à Praça do Campo Pequeno, direcção Entre-Campos - Saldanha. Esta perspectiva é rara, em fotografias desta época. Postal ilustrado antigo, fototipia litografada, edição Faustino Martins, escolhido por Marina Tavares Dias para a capa do livro «Lisboa Antes e Agora».







Fotografia única do Rei D. Carlos


A mais extraordinária fotografia do Rei Dom Carlos é provavelmente esta, tirada por Joshua Benoliel durante um torneio de florete presidido pelo Rei, na Tapada da Ajuda, em 1907.


Ao lado, fardado, o Infante D. Afonso. O Rei muito mais informal, traja casaco sem bandas e colete de gola, calça 'pied-de-poule' e chapéu mole. Pela primeira vez e talvez única vez, o fotógrafo apanhou-lhe o sorriso rasgado, revelando dois dentes nitidamente tortos. Não se preocupa, sequer, em esconder o curativo que lhe protege o dedo queimado pelo calor do charuto.


A imagem foi considerada tão excepcional que vários editores de postais ilustrados a reproduziram na época, mas a riqueza de pormenores apenas é perceptível numa ampliação razoável e a partir do original, como a que aqui mostramos.


Negativo e prova originais
pertencentes ao ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS.

Emprestada para celebração do centenário, em 2008, foi depois abusivamente copiada por vários «sites», decerto cedida por quem organizou o evento.




 Programa das Festas de Lisboa, 1934






Capa do livro comemorativo das Festas da Cidade de Lisboa (incluindo as Marchas Populares). Almada Negreiros, 1934.

Peça do Arquivo Marina Tavares Dias

ESTRADA DE BENFICA
na Lisboa Desaparecida

de Marina Tavares Dias

A Ribeira de Alcântara entrava em Lisboa, como já vimos, a sul das Portas de Benfica. Seguia quase paralela à estrada, atravessando as terras que a ladeavam. Mais adiante, em frente da igreja paroquial, passava pelas propriedades da Casquilha e da Feiteira. Na zona de S. Domingos, seguia pela cerca do convento, pela Quinta de Devisme, pelas terras do Lameiro e do Monteiro dos Milhões, correndo depois no leito da actual Rua António Saúde. O Diccionario Etnographico de 1870 chama à ribeira "Rio de Benfica", sugerindo, talvez, uma designação que lhe era atribuída naquela zona.



Gravura do Archivo Pittoresco



terça-feira

 LISBOA DE FERNANDO PESSOA



LISBOA NOS PASSOS DE FERNANDO PESSOA

LISBON IN FERNANDO PESSOA'S FOOTSTEPS
- NOW IN ENGLISH AND PORTUGUESE EDITION

Not a turistical guide. Not a collection of modern photographs. A story of the Poet's life illustrated by sellected images during a 25-year old research. The city exactly as Pessoa saw it during his lifetime.


Lisboa e Fernando Pessoa são indissociáveis, como o demonstra Marina Tavares Dias, profunda conhecedora da cidade e também da vida e obra do poeta.

Viagem única através de textos e de imagens inéditas da
época, este passeio pela Lisboa pessoana remete-nos para uma Baixa Pombalina alegre e animada, muito diferente da actual, e para uma cidade em que bairros residenciais, como Campo de Ourique, eram ainda considerados pitorescos e muito longínquos do centro.

Um passeio memorável e uma vivência ímpar de cenários que o
poeta conheceu, tal como ele os conheceu. 

Eis o que Marina Tavares Dias nos oferece nestas páginas.





COD INTERNO
28309
ISBN
978-989-672-115-2
EAN
9789896721152
TITULO
Lisboa nos Passos de Fernando Pessoa
AUTOR
Dias, Marina Tavares
EDITORA
OBJECTIVA
PVP
22,00 €

TEMATICA:
Monografias




TEXTO PUBLICADO 
NO «JORNAL DE LETRAS»
EM 1997, 
ASSINALANDO A PRIMEIRA DÉCADA

DA PUBLICAÇÃO DO PRIMEIRO LIVRO.



A "Lisboa Desaparecida" completa a sua primeira década. Pedem-me agora que sobre ela escreva, o que se me afigura tarefa espinhosa: nunca tal fiz, ao longo de todo este tempo.
[.../...]

Naquela época, julguei fácil convencer uma editora a investir nos textos do "Popular" (alguns, entretanto, publicados também no "Expresso"), porque contavam já com o que eu julgava ser um público fiel. Ninguém embandeirou em arco, houve hesitações e recusas até ao dia em que, sentada à minha secretária na Redacção, recebi uma chamada: "Somos uma editora nova e gostamos imenso das suas páginas de Sábado". Meses depois, eu e essa "editora nova" estávamos a lançar o primeiro volume da "Lisboa Desaparecida" no Café Nicola.

Passaram 10 anos. Muito pouco daquilo que era o meu estilo desse tempo (aos vinte e poucos anos) permanece. Muito pouco do que foram as motivações iniciais é hoje prioritário. Desapareceu o "Diário Popular" - o seu público fiel onde estará? -, a enorme Redacção em «open-space» (como agora é moda dizer-se) está vazia, o precioso arquivo talvez perdido. O Bairro Alto deixou de ser o bairro dos jornais e os diários vespertinos cumpriram o seu ciclo temporal. Agora, existe mesmo uma "Lisboa Desaparecida" onde eu vivi. [...]abordei-a ao de leve no volume IV, como parte da história da cidade. E, pela primeira vez, terei então dado razão aos que - sem a terem lido - diziam ser esta uma "Lisboa" saudosista. Agora, talvez até seja. Para fugir a isso, à medida que o tempo passa, a investigação vai assumindo uma postura que alguns dos leitores antigos me dizem ser "demasiado séria": «Pois não é que você escreveu um texto com notas de rodapé? - E ainda tem lata de dizer que este livro serve para divulgar a história da cidade e que é escrito para todos os lisboetas?»
Assim o quis, de facto. E nunca os lisboetas me desapontaram.

Marina Tavares Dias




 EÇA NO CAFÉ MARTINHO



“Oh! - escreve Eça em O Mandarim - Saborear a noite, no Café Martinho, sorvendo um café aos pequenos golos, ouvindo tagarelas injuriarem a pátria!” O lisboeta estilo Dâmaso de Salcede passa a vida a praguejar que Lisboa é um chiqueiro e só em Paris se pode respirar. Copia-se Paris até à exaustão. Lê-se Zola e bebe-se champanhe. Abancado no Café Tavares da Rua da Misericórdia (então Rua de S. Roque), o grupo Vencidos da Vida evidencia hábitos de consumo típicos dos intelectuais da época (1889). Segundo a factura de um jantar: “bacalhau com pão - 18 vinténs; champanhe - 18 mil réis” 


MARINA TAVARES DIAS in Lisboa Desaparecida, volume IV)


   
                                                         Postal publicitário do Café Martinho, 1909. Arquivo MTD

 CHIADO ACIMA, CHIADO ABAIXO


É comum encontrar uma dúzia de conhecidos enquanto se percorrem os quarteirões da Rua Garrett. O que levaria cinco minutos a descer transforma-se em derrame duma manhã inteira. Mas ninguém se importa com isso. Há tempo para tudo, ou assim parece. Toma-se café sempre sentado e à espera de companhia. As misturas são aromáticas e diversas - provenientes das colónias ou dos negócios rentáveis com o Brasil - mas vêm mornas. Não é hábito encher a chávena atrás do balcão: os criados trazem-na vazia até à mesa onde aviam da mesma cafeteira todos os convivas. A palavra “bica” está, portanto, por inventar. A melhor moka do século XIX não passa daquilo que, no futuro, se chamará “café de saco”.

(in Lisboa Desaparecida de Marina Tavares Dias, volume IV)

Em baixo: Interior dos Grandes Armazéns do Chiado
Fotografia de Marina Tavares Dias, 1985