Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

quinta-feira

AVENIDA FONTES PEREIRA DE MELO

Avenida Fontes Pereira de Melo com o Palácio Sottomayor (à direita do carro eléctrico). Do lado oposto, meio oculto pela jovem árvore, o gaveto de outro prédio, demolido em 2010 (esquina com a António Augusto de Aguiar). Placa central ajardinada, animação reduzida, trânsito quase nulo. E, ronceiro, o eléctrico de ligação com a Baixa, centro longínquo e imprescindível às compras mais exigentes. Os candeeiros mais altos ainda têm arco voltaico, mas - apesar deles - as noites são longas. Por muitos anos - muitos -, sem adivinharem futuras buzinadelas ou engarrafamentos de automóveis. 

A zona hoje terciária está, aqui, destinada apenas a habitação própria; palacetes das classes mais abastadas, jardins circundantes, árvores escolhidas (uma espécie por cada arruamento), flores exóticas nos jardins e nas estufas. O padeiro vem à porta; assim como a varina ou o burrinho do leite. Mas, para comprar o jornal, desce-se muitas vezes à Baixa. Porque Lisboa, aqui, é o sossego de quem pode estar só, entre paredes arte-nova, pousando os lábios na porcelana do chá. Sem ouvir, ao fundo da avenida, o futuro galgando a praça, disposto a mortos pelo caminho. 

Deste lado do tempo, será fácil adivinhar tudo, hoje. E apetece dizer acordem. E apetece ir comprar as casas, estancar o asfalto e os escritórios, calar buzinas e travões. Mas, embalsamado, este eléctrico parou aqui, no seu retocado recanto do tempo. O futuro só existe depois do que há. Não tem fotografias.




terça-feira

O EDIFÍCIO DOS ARMAZÉNS DO CHIADO

O Palácio Barcelinhos acolheu, ao longo do século XIX, quatro hotéis distintos — o Hotel dos Embaixadores, o Hotel de l’Europe, o Hotel Gibraltar e o Hotel Universal — constituindo um dos mais notáveis exemplos de continuidade hoteleira num mesmo edifício em Lisboa. Com a gradual expansão dos Grandes Armazéns do Chiado, o palácio foi perdendo a vocação, até albergar apenas o estabelecimento comercial que viria a definir uma nova era, e novos hábitos, na história do Chiado.





segunda-feira

Campo Grande, 1918

CAMPO GRANDE

Palacete neo-manuelino no número 123 da Rua Ocidental do Campo Grande, tornejando para a antiga Estrada de Malpique (zona da actual Faculdade de Farmácia). Construído em 1918, segundo instruções específicas do seu proprietário, João Maia Gomes, viria a ser demolido em 1951 (prova fotográfica para postal ilustrado de Paulo Guedes, 1918)


Em: 'Lisboa Desaparecida'

de Marina Tavares Dias









PASTELARIA FERRARI

Fundada em 1846, a Maison Ferrari foi uma das melhores e mais prestigiadas confeitarias de Lisboa, fornecedora da Casa Real, do Real Teatro de S. Carlos e de diversos estabelecimentos históricos. Manteve-se em actividade até ser totalmente destruída pelo incêndio do Chiado de 25 de Agosto de 1988. 

Fotografias de Marina Tavares Dias

'LISBOA DESAPARECIDA', volume II (1989)








sexta-feira

A FEIRA DE SANTOS

Da mitologia das feiras fazia parte a gastronomia. Daí o calão local com que se encomendavam os pratos: bailarinas ou costeletas na grelha (as sardinhas), repolhos (os pimentos), um seixo (um pão), pendulos (os carapaus) e a viva e os vivos (a garrafa de tinto com os copos).

Maria 'Botas' confeccionava o melhor coelho assado. Um dia, os jornais começaram a fazer-lhe a vida negra, dizendo que ali havia gato. Havia. E tinham-se passado anos sem que alguém desse pela coisa. A polícia descobriu que os clientes da Botas comiam gato há tanto tempo que os bichanos (então uma autêntica praga da cidade) começavam a rarear na zona [...]


'LISBOA DESAPARECIDA' 

de Marina Tavares Dias 






terça-feira

LISBOA NO CAIS

 Marina Tavares Dias em 'Os Melhores Postais Antigos de Lisboa':

Paulo Guedes, editor deste exemplar - e, quase por certo, autor da própria fotografia - não foi o mais prolixo, entre inúmeros congéneres que inundaram de postais quiosques e tabacarias da Lisboa 1900. Mas foi o mais imaginativo. Quase sempre, por trás de cada escolha sobre postal, adivinha-se a sensibilidade do fotógrafo atento que conhecia a cidade de cor. Esta cena no cais da Ribeira Nova é o melhor exemplo disso. Pertence a uma série sobre costumes portugueses em geral, mas parece que, de algum modo, fazia parte da célebre colecção Lisboa na Rua (com 16 números conhecidos), e ficou de fora por misteriosas razões. Nenhum tema da citada colecção ilustraria, como este, tal legenda: Lisboa na rua ou no cais; o povo, os costumes, as cenas quotidianas e a sua assistência. Conhecida por «postal do burrinho", aqui está uma edição que reúne tudo: bom plano, animação, figuração de transportes (no caso, a fragata); tudo sem pose, com o seu aspecto de sempre. Acrescente-se-lhe o insólito com que a cena hoje se nos afigura - e teremos, neste burro, uma representação de Lisboa, tão digna como a imagem de qualquer varina ou galego aguadeiro.





CAFÉ CHAVE D'OURO

O Café Chave d’Ouro foi fundado no Rossio em 1915 e sucessivamente ampliado nos 20 anos seguintes. Ocupando todo o edifício – café com galeria, restaurante, salão de chá, bilhares, tabacaria e barbearia – era o maior do seu tempo. Era igualmente o preferido pelos principais comerciantes da Baixa, com tardes de música, conjuntos como a Orquestra Ligeira da Emissora Nacional, e até transmissões radiofónicas.



Café Chave d’Ouro, no Rossio. Piso térreo.

 Postal ilustrado fotográfico, c. 1931

quinta-feira

BADALEJAR

 «Dantes, dizia-se badalejar. As casas grandes tinham à porta a maçaneta de latão, devidamente centrada numa estética cercadura. A ela estava ligado, no interior, um pequeno sino dourado.

Para os dedos não deslizarem, em caso de nervosismo ou mesmo de chuva, cada puxador era lavrado em espiral, às vezes com alguma imaginação. Camilo badalejava quando ia visitar alguém; Eça badalejava. Não conheciam o irritante som já semi-electrónico das casas da segunda metade do século XX: 'tim-tom!' Anthero badalejou à porta de muitos amigos pelo reconforto de uma frase, Gomes Leal pelo de uma sopa. Fernando Pessoa badalejou à porta de Mário de Sá-Carneiro, no Largo do Carmo.


Já ninguém badaleja. Perdeu-se o verbo. Os restos destes badalos foram-se adaptando às fachadas, incorporando-se nelas, cimentados nelas ou adaptados a campaínha, já sem o característico puxador. Páro na rua sempre que vejo a maçaneta do badalo intacto, e pouso logo o olhar no degrau de entrada. Muitos passos, poucos passos? - Depende disso o desgaste. Dependiam disso as promessas do trinco da porta.»


MARINA TAVARES DIAS

Lisboa Desaparecida

(fotografia da autora)







sábado

A LISBOA DE EÇA DE QUEIROZ

 «No final de Oitocentos, Eça de Queiroz escreve que «o país não está em condições de receber visitas». Ao mesmo tempo, abanca às mesas do Hotel Central, no Cais do Sodré em jornadas mais ou menos longas e contraditórias daquilo que costuma dizer dos hotéis nacionais. O diletantismo, herdeiro do Romantismo, impera nos meios intelectuais. As contradições são ordem do dia; a literatura francesa também. Nos jantares do Tavares, gastam os Vencidos a beber o que não têm para jantar. Segundo a factura: “bacalhau com pão - 18 vinténs; champanhe - 18 mil réis”.»


Continua no livro 'A Lisboa de Eça de Queiroz '.







sexta-feira

O PALÁCIO DAS NECESSIDADES

 Palácio, Jardim e Tapada das Necessidades. O francês Bonard transformou a antiga quinta dos frades num belíssimo exemplar de parque inglês, a que não falta sequer uma estufa circular, mais tarde acrescentada por D. Pedro V em homenagem à mulher, a Rainha D. Estefânia. O monorama dos soberanos continua no tecto dos antigos aposentos do casal.


Em:

«Lisboa Desaparecida»

Capítulo 'Os Palácios Reais.

(fotografia da autora, Marina Tavares Dias)