Avenida Fontes Pereira de Melo com o Palácio Sottomayor (à direita do carro eléctrico). Do lado oposto, meio oculto pela jovem árvore, o gaveto de outro prédio, demolido em 2010 (esquina com a António Augusto de Aguiar). Placa central ajardinada, animação reduzida, trânsito quase nulo. E, ronceiro, o eléctrico de ligação com a Baixa, centro longínquo e imprescindível às compras mais exigentes. Os candeeiros mais altos ainda têm arco voltaico, mas - apesar deles - as noites são longas. Por muitos anos - muitos -, sem adivinharem futuras buzinadelas ou engarrafamentos de automóveis.
A zona hoje terciária está, aqui, destinada apenas a habitação própria; palacetes das classes mais abastadas, jardins circundantes, árvores escolhidas (uma espécie por cada arruamento), flores exóticas nos jardins e nas estufas. O padeiro vem à porta; assim como a varina ou o burrinho do leite. Mas, para comprar o jornal, desce-se muitas vezes à Baixa. Porque Lisboa, aqui, é o sossego de quem pode estar só, entre paredes arte-nova, pousando os lábios na porcelana do chá. Sem ouvir, ao fundo da avenida, o futuro galgando a praça, disposto a mortos pelo caminho.
Deste lado do tempo,
será fácil adivinhar tudo, hoje. E apetece dizer acordem. E apetece ir comprar
as casas, estancar o asfalto e os escritórios, calar buzinas e travões. Mas,
embalsamado, este eléctrico parou aqui, no seu retocado recanto do tempo. O
futuro só existe depois do que há. Não tem fotografias.










