Marina Tavares Dias, Olisipografia

38 anos de criatividade pessoal ao serviço do colectivo, na defesa de LISBOA

domingo

O PAI CÂNDIDO NO ROSSIO

 Entre as imagens de costumes divulgadas na celebérrima série 'Lisboa na Rua', do fotógrafo-editor Paulo Guedes, este é o único postal de personagem identificada pelo nome. Tal bastaria para lhe conferir valor acrescentado, em qualquer selecção internacional. Apesar de todos os postais desta colecção serem igualmente procurados, o 'Pai' Cândido constitui exemplo à parte: a sua semi-pose não esconde que foi apanhado de surpresa, na azáfama quotidiana. Sob os pés, descalços e sujos, o tabuleiro ondulado do antigo Rossio. Seguindo uma genealogia de negros célebres pelas ruas alfacinhas, este «pai» dava performance gratuita, batucando a sua lata. Muitos miúdos se lhe juntavam, constituindo intermináveis orquestras de latada. Numa época em que quase não havia negros em Lisboa, o Pai Cândido provocava reacções hoje inconcebíveis: alguns, por agoiro do chocalhar das latas, evitavam o centro do Rossio; outros, enternecidos, pediam para lhe tocar na pele, porque 'dá sorte'.


Texto do livro 'Os Melhores Postais de Lisboa',

de Marina Tavares Dias, 1995.

Fotografia: MEMORABILIA/Arq.MTD.






sábado

CONFEITARIA NACIONAL

 Marina Tavares Dias em «Lisboa Desaparecida», volume IV:


  Balthazar Rodrigues Castanheiro, fundador da Confeitaria Nacional, foi também membro destacado da irmandada da Senhora da Oliveira. O seu estabelecimento inicial ocupava só duas portas. Apenas por volta de 1835, com obras de ampliação, passou a ostentar o aspecto actual, tornejando para a Rua dos Correeiros. Quando morreu, 40 anos após a fundação da casa, Balthazar Castanheiro deixou a seu filho um negócio seguro e próspero. Conseguira também algo mais difícil: motivar a família com a sua paixão, garantindo assim a continuidade da casa e do seu nome.


     Uma tradição muito antiga, confirmada por olisipógrafos e actuais proprietários, diz que o hoje imprescindível bolo-rei nasceu, por assim dizer, nas cozinhas da Confeitaria Nacional. Balthazar Castanheiro Júnior era um homem bastante viajado. Ainda o século XX vinha longe, já ele recebia medalhas e mais medalhas, nas grandes exposições universais. Um dia, trouxe de Paris a fórmula ideal para vender no final das festas natalícias: o bolo-rei. 


      A história de um bolo associado à realeza vem de pagãs e remotas eras. Deitar sortes à ventura, através da fava introduzida na massa, poderá ter decidido muita coisa nas vidas de soberanos hoje esquecidos. Na Roma antiga, o bolo tomou parte em rituais da festa de Saturno. Os cristãos adoptaram o costume, ligando-o à Epifânia e aos três Reis Magos. 




segunda-feira

A DESAPARECIDA PRAÇA DA ALEGRIA DE BAIXO

Antes da demolição do Passeio Público (1886), existiam duas praças da Alegria. Pode ver-se a demolição das casas da Praça da Alegria de Baixo que faziam frente para a entrada norte do Passeio. Por aqui passa agora a Avenida da Liberdade.

'LISBOA DESAPARECIDA', volume I.

Fotografia original: Memorabilia/Arquivo Marina Tavares Dias.




sábado

DIÁRIO DE LISBOA

Década de 1970: apogeu dos grandes jornais vespertinos de tiragem nacional. O carro do «Diário de Lisboa» galga o separador central da Avenida Fontes Pereira de Melo para entregar sem atraso os exemplares da tarde nos cafés ali existentes. Ao fundo, os edifícios do Cine-Teatro Monumental e do Anjo (hoje substituídos).



Marina Tavares Dias, 'LISBOA DESAPARECIDA', Volume IV.





quinta-feira

ELÉCTRICOS E ELEVADORES

 Marina Tavares Dias

em «História do Eléctrico da Carris»:


Percorrendo hoje os jornais da época, são poucos os dados concretos sobre os primeiros carros eléctricos que circularam em Lisboa no dia 31 de Agosto de 1901. As notícias dão conta da afluência de público, dos primeiros horários, do percurso da carreira inicial (Corpo Santo/Cais do Sodré – Algés) e do primeiro «acidente»; pouco mais. Viviam-se tempos em que a cidade era ainda, para a maioria dos habitantes, quase exclusivamente o seu centro. Assim, foi um dos então «concorrentes» da Companhia Carris de Ferro quem teve, no dia em que circularam os primeiros eléctricos, as honras de primeira página em todos os jornais. Trata-se do Ascensor do Carmo (ou Santa Justa), cuja concessão pertencia a companhia própria (a Empresa do Elevador do Carmo), e cujo tabuleiro de acesso, o célebre «viaduto metálico», sobre a Rua do Carmo foi lançado precisamente a 31 de Agosto de 1901.